Guerra do Caldeirão

Políticos acusaram beato de ligações com comunistas

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Os estrondos dos aviões que bombardearam os maltrapilhos nas montanhas da serra ficaram na memória do agricultor Antônio Inácio da Silva, hoje com 82 anos. "O avião passava por cima, jogava bomba", lembra. "Muitos de nós ficavam embaixo, sob um cortina de fumaça."

Antônio vive hoje com a mulher Antônia, com quem teve 13 filhos, num sítio do interior do Crato, a cerca de 40 quilômetros do local da tragédia. Ele relata que era menino quando o pai, João Inácio da Silva, de Campina Grande, Paraíba, foi a Juazeiro do Norte, Ceará, se aconselhar com Padre Cícero. O religioso orientou o devoto a levar a família para o sítio do beato José Lourenço. Ali, era o refúgio de retirantes das secas e devotos miseráveis de Cícero. João Inácio voltou para a Paraíba, vendeu o que tinha e levou a mulher, Maria de Jesus, e cinco filhos para o sítio.

Natural da Paraíba, José Lourenço Gomes da Silva chegou a Juazeiro em 1890. A partir daí, aproximou-se de Padre Cícero. No Ceará, Lourenço integrou seitas de penitentes, grupos de autoflagelação que rezavam na Semana Santa em cemitérios do Cariri. O beato se instalou no sítio Baixa Dantas, onde passou a produzir pequenas roças. Cícero passou a mandar para o sítio de José Lourenço os retirantes que chegavam de toda parte do Nordeste, fugindo das estiagens e de maus-tratos de coronéis.

Em 1921, José Lourenço foi acusado de promover a adoração do Boi Pintadinho, um presente de Padre Cícero, que ganhou o animal do coronel Delmiro Gouveia. Devotos diziam que a urina do animal era benta. Para conter o "fanatismo", o coronel Floro Bartolomeu, chefe político de Juazeiro, mandou prender o beato e matou o boi. O sítio acabou sendo vendido e as famílias, depois de 32 anos na área, expulsas.

Cícero novamente deu proteção ao grupo de José Lourenço, entregando o sítio Caldeirão dos Jesuítas, de 500 hectares, sua propriedade, para o beato. Em sistema de mutirão, as famílias plantavam roças para se alimentar, criavam animais e faziam os trabalhos comunitários.

Roça e orações. Durante a seca de 1932, uma das mais fortes do Nordeste, o Caldeirão teria abrigado 18 mil pessoas, segundo historiadores. As vítimas da seca preferiam o sítio aos "currais" montados pelo governo na beira das estradas, que serviam como verdadeiros campos de concentração de flagelados.

O beato José Lourenço e os fiéis de Padre Cícero construíram uma igreja dedicada a Santo Inácio de Loyola. As palhoças dos devotos ficavam em volta do templo. A comunidade plantava pequenas roças durante o dia e, à noite, participava de longas orações. Antônio guarda uma foto antiga do beato. "Ele (José Lourenço) era forte, mais alto do que eu. Dava conselhos a todos. A casa dele ficava a 50 metros da igreja. Ele morava com uma irmã, a Inácia", lembra Antônio.

O agricultor diz que no sítio "o negócio era trabalhar e rezar". As condições de saúde eram precárias. Um dos irmãos de Antônio, Luiz, de 8 anos, morreu de sarampo.

Grupos políticos do Cariri acusavam José Lourenço de ter vínculos com o comunismo. Diziam que o beato era um risco para a ordem pública da região, pois tinha o controle de milhares de "fanáticos".

O beato se valia da amizade com Padre Cícero para não ser importunado pela polícia. Com a morte do padre, em 1934, surgia a chance dos adversários do beato de acabar com o Caldeirão. No testamento, Cícero havia deixado o sítio para a ordem dos salesianos, que logo passou a cobrar aluguel e a pedir a reintegração de posse do terreno.

O governo cearense, os salesianos, a polícia política e a militar estavam determinados a acabar com a comunidade. Argumentavam que o reduto poderia se transformar num foco de resistência comunista. Antes de um ataque, o capitão José Bezerra, veterano nas pelejas contra cangaceiros, esteve no sítio num trabalho de inteligência. Passando-se por comprador de algodão, ficou impressionado com a quantidade de potiguares no reduto. O capitão voltou para Fortaleza com um relatório na mão. Escreveu que não tinha visto armas, mas não podia desprezar a possibilidade. É possível que tenha partido dele a informação falsa de que o sítio era um foco de remanescentes do levante comunista ocorrido em Natal, em 1935.

A decisão de atacar o sítio foi tomada numa reunião no palácio do governo do Ceará, em Fortaleza. Não faltou representante de nenhum setor poderoso do Estado. Estavam lá o governador Menezes Pimentel, o secretário de Estado Andrade Furtado, o chefe de polícia, Cordeiro Neto, e o bispo de Crato, dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva.

A igreja ainda não estava concluída quando chegaram as primeiras tropas para reprimir o movimento, a 11 de setembro de 1936. "Eles prenderam gente, mas soltaram. Não acharam o que o povo dizia. Saímos de lá, fomos para Engenho da Serra e de lá para cá", conta. Avisado, José Lourenço conseguiu escapar.

As casas foram incendiadas. O beato e uma parte dos seguidores passaram a viver como nômades na Serra do Araripe, fugindo da repressão. Depois de destruir as casas e levar as portas da igreja, a polícia espalhou a versão de que o beato vivia num verdadeiro harém, com 16 mulheres.

Emboscada na mata. Em maio do ano seguinte, o capitão José Bezerra foi atraído a um suposto esconderijo do beato por um grupo liderado por Severino Tavares, aliado de José Lourenço. Num lugar chamado Mata dos Cavalos, próximo à Vila Conceição, na Serra do Araripe, Bezerra e seis subordinados sofreram uma emboscada de mais de cem homens. O capitão não chegou a tirar a arma. Levou cacetadas no crânio. Ainda morreram cinco policiais e três "fanáticos", chamados de Santo Antônio, Santo Onofre e São Pedro.

Aliados de José Lourenço passariam a vida negando que o beato tivesse participação no episódio. Severino Tavares e Sebastião Marinho, outro homem ligado a ele, teriam planejado o ataque como vingança pela destruição da comunidade do Caldeirão. Era guerra de guerrilha nas matas do Araripe.

A reação veio rápida. De Juazeiro, o tenente Assis Pereira comandou um grupo de 30 soldados da polícia para vingar a morte de Bezerra. O governo cearense decidiu enviar apoio. Insuflado por prefeitos da região, a 11 de maio de 1937 os aviões bombardearam a caatinga onde os "fanáticos" se refugiavam. A operação era apenas para amedrontar, argumentou Cordeiro Neto.

O chefe de polícia resolveu comandar pessoalmente a ação para liquidar a comunidade de fanáticos. Dois grupos de 45 homens cada seguiram para o lado norte e para o lado sul para fazer a "limpeza". Mulheres foram presas e estoques de alimentos na caatinga, destruídos. O tenente Alfredo Dias, comandante de um dos grupos, contou 80 cadáveres ao final da operação. Manuel Cordeiro Neto, chefe da polícia cearense e mais tarde prefeito de Fortaleza, disse, em depoimento gravado em 1991, um ano antes de morrer, que o número de mortos em todas as fases de combate chegou a 200. Ele deu ordens para incinerar os corpos na mata.

O Estado decidiu contabilizar 85 mortos - 80 citados no relatório do tenente Alfredo Dias, testemunha da tragédia, e 5 na emboscada dos "fanáticos", preparada para o capitão José Bezerra.

O beato José Lourenço sobreviveu. Morreu anos depois, em 1946, de peste bubônica, numa fazenda em Exu, Pernambuco. Os seus seguidores levaram o caixão, a pé, até Juazeiro, a 70 quilômetros de distância. A Igreja Católica não permitiu que o corpo entrasse em seus templos.

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