Guerra do Pinheirinho

Conflito pode ter sido berço da Guerra do Contestado, diz estudioso

, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2010 | 00h00

Prefeituras, igrejas e cartórios da região centro-oriental do Rio Grande do Sul possuem documentos que contribuem para tirar a Guerra do Pinheirinho da lista de lendas gaúchas. Papéis espalhados nas repartições públicas, anexados em processos de terra, casos policiais e inventários de família revelam que a repressão aos monges contou com logística de guerra e trabalho de inteligência.

A repressão usou infiltrados - "bombeiros", na linguagem da época - para controlar o foco rebelde. Em carta de 18 de julho de 1902, o delegado de Lajeado, José Lucca Non, informa ao intendente (prefeito) Francisco Oscar Karnal que a população pretendia vingar a morte de três moradores que tinham participado de um ataque aos monges. "Os moradores no Arroio das Pedras, neste distrito, estão muito magoados pela morte dos seus três companheiros e consta que querem se vingar. Mandei um "bombeiro", parente de um dos mortos, já há dois dias, e ainda não voltou. O povo anda assustado", escreve o delegado.

Uma análise das cartas de famílias de Encantado mostra que a versão da polícia militar e das autoridades de que os rebeldes morreram em combate não faz sentido. Boa parte dos monges foi fuzilada sem chance de defesa.

O grupo era formado por posseiros e pequenos produtores de erva que viviam em situação de miséria. Muitos tinham participado, como soldados e ajudantes, da Revolução Federalista (1893-1895) - revolta que eclodiu no Sul do País quatro anos após a Proclamação da República e opôs os grupos políticos rivais gaúchos dos pica-paus (aliados do governo federal) e maragatos (que defendiam a descentralização de poder na República).

A prática dos dois grupos de matar rivais como se matava galinhas marcaria a memória da população. O prisioneiro tinha as mãos e os pés amarrados e ficava de joelhos. Um carrasco empurrava sua cabeça para trás e, em seguida, passava a faca no seu pescoço. Os carrascos Adão Latorre (maragato) e Cherengue, também conhecido como Faca Ordinária (pica-pau), personalizaram o horror dessa prática. A Revolução Federalista deixou um saldo de 10 mil mortos.

Após o conflito, muitos agricultores humildes e posseiros ficaram abandonados nas estradas. Não foram aproveitados nas lavouras de fazendeiros que expandiam seus negócios e tampouco nos canteiros de obras de estradas de ferro que começavam a cortar o interior gaúcho. Estavam excluídos dos novos tempos.

Autoridades e comerciantes de Encantado viam com preocupação o surgimento de uma comunidade de miseráveis marcada pela devoção religiosa. O viajante Eduard Sattler e um morador da região, João Lucca, que se juntaram a um grupo de militares para um ataque ao povoado de Encantado, foram mortos no dia 6 de abril de 1902. Dois dias depois, um contingente de 110 policiais cercou o grupo de caboclos.

Degola. A repressão aos monges do Pinheirinho contou com a prática cruel que assombrou o Rio Grande do Sul durante a Revolução Federalista. Os "fanáticos" - como os monges eram chamados - foram degolados. Entre eles João Enéas, um dos líderes dos monges, preso ainda vivo. As tropas só deixaram Encantado no dia 15.

Arquivos de correspondências das paróquias de Encantado, Arroio do Meio, Roca Sales e Lajeado apontam que a Igreja Católica ajudou acirrar os ânimos. Em relato manuscrito, de 12 de maio de 1902, o padre Domenico Vicentini classifica os monges de "bandidos" e escreve que João Enéas é uma nova versão de Antônio Conselheiro, o líder da Guerra de Canudos (1896-1897), no sertão baiano. Outros líderes do Pinheirinho citados são Antonio Lisboa e uma mulher conhecida como Cananeia - apontada como orientadora espiritual do grupo.

Dirigido aparentemente para superiores, Vicentini escreve que as autoridades da região já tinham avisado sobre os "comparsas" ao governo estadual, mas não haviam recebido resposta. O documento deixa claro que o religioso estava afinado com a polícia e os políticos.

Outro testemunho inédito é o do intendente Francisco Oscar Karnal, que está nos arquivos da Prefeitura de Lajeado. Num ofício de 1902 ao presidente do Estado, Borges de Medeiros, ele reclama que o líder do movimento se intitulava "deus" e tinha conseguido arregimentar número "considerável" de adeptos. "A ordem pública manteve-se sempre inalterável, havendo somente a mencionar um ajuntamento de fanáticos, nas matas de Encantado, município de Lajeado, imediatamente dispersos por forças da Brigada Militar", escreve.

Contexto histórico. Por ironia da história, um descendente de um dos líderes da repressão evitou que a memória do movimento de Pinheirinho se perdesse. Gino Ferri, 87 anos, é autor da única obra sobre o conflito. O livro Os Monges de Pinheirinho, de 1975, está esgotado.

"Possivelmente, Encantado foi o berço da Guerra do Contestado", avalia Ferri, referindo-se às características messiânicas que permeiam o conflito ocorrido entre 1912 e 1916 na região de divisa de Santa Catarina e Paraná e considerado a maior guerra civil do Sul do País no século 20. Ferri avalia que é preciso entender a época para decifrar a tragédia das margens do Taquari. "Foi um massacre visto com bons olhos pela população daquele período", diz.

O Estado percorreu as ruas de Encantado, cidade que hoje tem 20 mil habitantes e conta com bons índices de desenvolvimento humano. Os chefes da repressão aos monges - como o viajante Eduardo Sattler, o subdelegado Guerino Luccas e o irmão dele, João Luccas - têm seus nomes escritos nas placas das ruas. Não há referências aos monges. Os vencedores ganharam túmulos no cemitério. As covas dos rebeldes, abertas na beira do Taquari, desapareceram.

Não há tampouco registros da fisionomia de Cananeia, a enigmática mulher que teve papel importante no movimento. É possível que ela tenha participado de decisões militares, o que daria uma nova feição à revolta da margem do Taquari.

O cenário da tragédia mudou. Restam poucos pinheiros na mata ciliar do Taquari. À época da revolta, Encantado era um povoado de 300 famílias, cercado por pés de canela, grápia e canjerana. Hoje, da mata nativa só sobraram os sarandis, árvores pequenas que não servem nem para o fogo.

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