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Guerra do Quebra-Milho

'A cabeça do João Japão parecia uma melancia. Corria sangue'

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

"Na roça, o quebrador dobra o pé de milho para arrancar a espiga, arranca, põe para secar e depois debulha. As espigas eram os rebeldes", diz o mecânico José Jiménez, para explicar a violência e o nome dado pelos agricultores ao movimento armado popular no Vale do Paranapanema.

A revolta do Quebra-Milho ficou marcada na memória de Jiménez. Ele tinha 9 anos quando "quebradores de milho", como chamavam os jagunços e policiais, entraram afobados na oficina mecânica da família. "Queriam que meu pai emprestasse o caminhão para transportar soldados e corpos de posseantes", relata. O pai dele, Sebastião, retirou uma peça do veículo sem que os soldados vissem e disse que o carro não funcionava. Dias depois, o mesmo grupo apareceu no centro de Porecatu transportando quatro corpos. "O negócio foi feio."

A partir de 1942, o interventor do Paraná, Manuel Ribas, incentivou a migração de paulistas e nordestinos para a região norte do Estado, uma área coberta pela Mata Atlântica. Ribas, no poder desde 1932, não regularizou as terras ocupadas pelos posseiros. Em 1947, após o fim do Estado Novo e a redemocratização, assume o governo Moysés Lupion. O novo governador, do PSD, passa a entregar as terras sem títulos para fazendeiros com quem mantinha relações.

Os irmãos Ricardo, Urbano e Geremi Lunardelli estavam na lista de beneficiados por Lupion. Assim que chegaram à região para tomar posse de 17 mil alqueires repassados pelo governo estadual, os Lunardelli contrataram o pistoleiro José Celestino para comandar sua milícia. Lupion fez vistas grossas para a formação de tropas irregulares e orientou a Polícia Militar a participar de um "mutirão" para retirar, à força, famílias de posseiros.

Os chamados posseantes foram à luta. Fizeram fustigamentos, difundiram versões insuflando o poder de fogo, organizaram emboscadas e causaram a morte de dez homens ligados à repressão. Viviam na região de conflito cerca de 1.500 famílias de posseiros. A relação completa dessas famílias, feita pelo Dops, foi encontrada pelo Estado no Arquivo Público do Paraná.

O foco da revolta era a Vila Progresso, então município de Porecatu, que hoje é um povoado quase abandonado de Centenário do Sul. Ali, os posseiros começaram a discutir estratégias para conter o avanço da família Lunardelli, que nessa época passara a lotear para fazendeiros médios parte das terras recebidas de Lupion.

O primeiro embate com jagunços e policiais ocorreu na fazenda Guaracy, a 28 de agosto de 1947. Um grupo de 12 homens armados, liderado pelo tenente João Paredes, tentou expulsar os posseiros das terras, às margens do Paranapanema. Do lado dos rebeldes, morreram João Japão, Cassiano Coelho, Benedito Barbudo e um menor, Pedro Vieira de Moraes, de 14 anos.

O aposentado José Merízio, 82 anos, diz lembrar da chegada de um caminhão com os corpos dos mortos na Vila Progresso. "Estavam sujos, foram jogados como porcos em cima do caminhão", relata. "A cabeça do João Japão estava igual a uma melancia. Corria sangue nos pneus. Isso eu vi."

Merízio, que fazia trabalho de carpintaria na Vila Progresso, não guardava boas lembranças dos posseantes. A família dele havia pago ao fazendeiro Jerônimo Inácio da Costa um pedaço de terra. Um dia, apareceu na casa da família José Billar, um dos líderes dos agricultores. Billar mandou que a família deixasse as terras.

A 10 de outubro de 1950, os posseiros armaram uma emboscada para o jagunço Luiz Menezes, o Luizinho. O jagunço e cinco soldados morreram. Do lado dos posseiros caiu o agricultor Benedito dos Santos.

O jagunço José Celestino virou símbolo da violência. Sua especialidade era atear fogo nas casas de peroba com telhado de tabuinhas. Passou a ser seguido dia e noite pelos informantes da revolta. Estava a caminho da casa de uma amante na companhia de um menino quando foi surpreendido por um grupo de posseiros. O garoto foi liberado. José Celestino foi fuzilado na entrada da Fazenda Primavera. O corpo dele foi levado para o cemitério da Vila Progresso. Por temer os posseiros, o governo mandou cem policiais acompanharem o enterro.

"Ninho da revolta". Uma forma encontrada pelo Estado para identificar os locais dos combates e localizar sobreviventes e testemunhas foi recorrer a Guilherme Turato, 75 anos, corretor de imóveis. Conhecedor a fundo dos sítios e grandes propriedades do Vale do Paranapanema, ele desenhou o mapa da área de conflito e sugeriu entrevistas com moradores. "Do Ribeirão Vermelho a Porecatu, os Lunardelli ocuparam toda essa área", diz.

Turato relata que o "ninho" dos revoltosos era da Vila Progresso até o Rio Tenente. Ele observa que a revolta ocorreu numa área de "terra roxa solta" - terra menos valiosa que exige mais adubos que a "roxa granel" de outras regiões do norte do Paraná. "Como outras parte do norte já estavam ocupadas, restou esta área de terras devolutas ou sem titulação", explica. "Os posseantes que chegaram à região derrubaram cedros, guaritás e timburis para fazer suas pequenas roças. Plantavam arroz, milho, abóbora, feijão e mandioca."

Uma das dezenas de testemunhas do conflito apresentadas pelo corretor de imóveis foi o agricultor Adolfo Vicentini, 77 anos. Ele diz que um dos cemitérios improvisados pelos posseiros ficava perto da Fazenda São José, em Centenário. "Ainda lembro das cruzes de madeira. Mas, com o tempo, os canaviais dos Lunardelli entraram em toda essa área, cobrindo as covas", diz.

As emboscadas eram armadas atrás de perobas centenárias, lembra Vicentini. Os posseiros fechavam estradas com galhos. Quando os militares e jagunços passavam em caminhões, tinham de descer dos carros para desobstruir o caminho. Era hora de abrir fogo. "Os posseantes ficavam entrincheirados atrás das perobas", diz Vicentini. "As carabinas faziam muito estrago."

O processo que corria na Vara Cível de Porecatu desapareceu. A professora Nair de Oliveira Félix da Silva, que toma conta do museu da cidade, relata que, há poucos anos, um grupo de estudantes foi proibido de apresentar na escola um trabalho sobre a guerra. "Ficou o ranço, o medo, a covardia. Até hoje poucos admitem o que ocorreu."

Mora na cidade vizinha de Centenário do Sul uma das últimas sobreviventes do grupo dos posseiros. A cearense Lindalva Chalegre dos Anjos, 76 anos, chegou ao Paranapanema com 9 anos. A família deixou o Crato, à época em que o beato José Lourenço comandava o sítio Caldeirão, atraída por terra e melhores condições de vida (mais informações nas págs. H6 e H7). O pai Honório e o avô Luiz Félix eram pedreiros.

Lindalva trabalhava numa pousada no centro de Porecatu quando viu chegar à hospedagem um grupo de oficiais. "Eles estavam a caminho da casa da minha família", lembra. Foi na mesma época em que morreu Chico Quiabo, um dos líderes dos posseiros. Também morreram Hilário, Lazão, Queijo, Zé Elias. "Era tudo terra devoluta. Os policiais chegaram para matar gente", diz. "Teve tiroteio, voava bala."

A família dela foi expulsa pelas tropas do sítio que ocupava. O governo colocou os Chalegre e outras famílias em caminhões e mandou para Campo Mourão e Tuneiras do Oeste, região de mata fechada. Após os combates, Lindalva acabou casando com um inimigo. Waldemar Dal Bem, 81 anos, é filho de fazendeiros que estavam interessados nas terras dos posseiros.

A revolta do Quebra-Milho divide, ainda hoje, a família de Lindalva e Waldemar. "Fizeram por merecer", afirma Waldemar. Ele diz que o movimento era dominado pelos comunistas - na verdade, ativistas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) chegaram à região só no último ano do movimento armado. "Os comunistas queriam um campo de concentração aqui", diz. "Eles induziram os posseantes a irem contra os donos de terra." Waldemar e um irmão chegaram a trocar tiros com um grupo de posseiros.

Líderes de posseiros reclamaram que o PCB exigiu, apenas por interesse do partido, um acordo com o governo que estabelecia entre seus 12 pontos a punição dos "assassinos" e "mandantes de massacre" Lupion e os irmãos Lunardelli. O acordo era feito por quem não queria negociar, avaliaram os posseiros, que reivindicavam apenas a permanência na terra. "Se o governo e os fazendeiros não cumprirem esses 12 pontos, não cessaremos a luta armada", diz comunicado do partido, de 23 de abril de 1951, encontrado no Arquivo Público do Paraná.

Após o conflito, os posseiros perderam seus sítios. A família Lunardelli estendeu seus domínios na região. Investiu na montagem de uma usina de cana e no plantio de canaviais. As pequenas propriedades e trechos remanescentes da Mata Atlântica desapareceram.

O canavial ocupa toda a área onde se desenrolou o teatro de operações da Guerra do Quebra-Milho. Os Lunardelli foram à bancarrota nos anos 1970. O grupo empresarial Atala comprou a Usina Central do Paraná e toda a plantação de cana. Descendentes dos posseantes trabalham na lavoura.

É época de queima e corte de cana. O cheiro forte do vinhoto impressiona quem trafega pelas estradas da região. Logo de madrugada, por volta de 6 horas, ônibus levam trabalhadores das cidades próximas para o campo. Com pano enrolado no pescoço e na cabeça, um chapéu e blusa e calça rasgadas, Tereza Correia Oliveira, de 42 anos, é uma das dezenas de mulheres que enfrentam o sol já forte da manhã para cortar cana.

Perdeu a conta de picadas de cobras, ataques de marimbondos e cortes no pé por facão. "Qualquer descuido, o facão corta a botina", diz. Moradora da Vila Santa Margarida, há 20 anos ela tem a mesma rotina: acorda às 3h para preparar a marmita: arroz, carne e feijão. Às 7h já está na plantação. Almoça por volta de 13h debaixo de sol. O único banheiro é um buraco cercado por lona plástica bem no meio do canavial. O trabalho termina às 16h. "Faço meu serviço, caio na cama e durmo. Não vou a festas. Gosto assim, de ser livre", assegura.

Com o rosto tomado por suor e cinzas, Tereza enfrenta o sol, a fumaça da queima e os bichos que fogem do fogo. Ela não tem filhos. Vive para o trabalho. Só folga aos domingos. Tira cerca de R$ 7 por dia. Um acordo entre sindicalistas e canavieiros prevê pagamento de pelo menos um salário mínimo mensal.

Pesadelo. A trabalhadora diz que não gosta do Movimento dos Sem-Terra (MST). "Meu Deus do céu, o MST quer acabar com nosso emprego", reclama. No ano passado, um grupo, ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), ocupou uma área da usina. Os proprietários culparam a Contag por uma redução no número de vagas na lavoura. "Eles (sem-terra) são ferozes", diz Tereza.

Atualmente, o que mais tira o seu sono são as máquinas colheitadeiras. Já são oito na usina. "Não gosto dessa história de máquina. Colher cana é melhor do que capinar", diz. "Não tem outro lugar para a gente trabalhar; quando tem serviço no canavial, eu já vou indo."

Um capataz da usina chega para saber o que está acontecendo. Trata-se de José Carlos Ribeiro, 58 anos, um senhor de óculos escuros e muita conversa. Foi aposentado pela usina depois de 41 anos de trabalho. Diz que a usina conta com 4 mil empregados. E está em fase de modernização. "É um problema. Cada máquina pode substituir cem trabalhadores", afirma.

Ribeiro ouve desde criança histórias da Quebra de Milho. Fala dos posseiros com entusiasmo, mas se apressa em fazer associações com grupos sem-terra atuais. "Esse povo da bandeira verde e branca (Contag) quer implantar um outro sistema. Se não tivesse a lei, esse povo até mataria gente", diz.

"Hoje, está um pouquinho mais civilizado. Mas é igual àquele tempo. Antigamente, havia mais crueldade." Segundo ele, um bom trabalhador consegue ganhar até R$ 22 por dia no corte da cana. "Mas, se for muito fraquinho, fica mais difícil. É complicado atingir o piso e a empresa não pode ficar arcando com esse prejuízo."

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