Guerra dos Barbudos

'Os barbudos queriam a paz, mas era uma paz estranha'

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

É preciso enfrentar um labirinto de estradas de terra, despenhadeiros e pinguelas quebradas para se chegar à casa da única barbuda viva. A agricultora Donária Duarte, 82 anos, mora num sítio do município de Arroio do Tigre, no Fundão, uma região de terrenos áridos, cheios de pedra e pouco valorizados no centro do Rio Grande do Sul.

Pelo caminho, carcaças de animais substituem placas de sinalização. As famílias costumam fincar cabeças de boi nas cercas como homenagem a animais "amigos", que por anos transportaram as folhas amarelas de fumo dos morros para as prensas e galpões de secagem, na terra baixa - aqui, o carro de boi continua a ser o principal meio de transporte nos sítios. Cada família pinta com uma cor diferente as cabeças dos animais.

A princípio, Donária evita falar sobre a revolta. Depois, faz críticas aos "fanáticos", como se tivesse vergonha de ter participado do movimento. Era uma criança quando começou a seguir o tio, Estácio Fiúza, o Tácio, líder dos barbudos. "É como se estivesse vendo tudo agora", diz a agricultora. "Minha mãe deu o que fazer para tirar essa religião da minha cabeça, desvirei", relata. "As pessoas sofreram muito."

Como outras rebeliões populares das ditaduras do século 20, a Revolta dos Barbudos passou ao largo dos livros de história, desqualificada como um movimento meramente messiânico. As poucas obras publicadas no Rio Grande do Sul sobre o assunto jogam o episódio na lista de grupos que tinham ligação com outros conflitos, como a Guerra do Contestado (1912-1916). Ele é descrito como um movimento que arregimentou homens miseráveis e sem-terra influenciados pela figura mítica do monge João Maria, um andarilho que atravessou rincões do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Depoimentos obtidos pelo Estado mostram, porém, que o movimento dos barbudos tinha causas econômicas bem definidas. A tese do fanatismo defendida pelo padre Valdemar Cirilo Verdi no livro Soledade dos Monges Barbudos e das Pedras Preciosas não explica sozinho o movimento. Seus líderes também não têm o perfil dos heróis de organizações políticas que combateram os regimes de exceção. Eles são os excluídos da história dos excluídos.

Tácio e André França, o Deca, eram "colonos fortes", como chamam por aqui agricultores com certa posição social, donos de terra, animais e plantações de fumo. Assim também eram Alípio Costa, Alfredo e tantos outros que decidiram não cortar mais as barbas e substituir os plantios de fumo por roças de alimentos. Alípio tinha 200 hectares de terra. Em pouco tempo, legiões de sem-terra se juntaram a eles, num movimento pacífico que tinha como um dos seus pilares a religiosidade.

Uma rara fotografia dos rebeldes está no Arquivo Público de Porto Alegre. Na imagem, cinco barbudos estão ajoelhados. Atrás, militares sorridentes. Depois de uma semana de coleta de depoimentos nos municípios de Arroio do Tigre, Soledade, Sobradinho, Espumoso e Jacuizinho, o Estado conseguiu identificar um dos retratados. A família dele mora no Rincão dos Barnabés ou Rincão dos Costas, a 13 quilômetros de estrada de terra a partir do centro de Jacuizinho.

Num sítio vivem em regime de comunidade três netos do rebelde Alípio Costa, barbudo torturado pela polícia. Um dos principais focos da revolta, o Rincão dos Barnabés foi cenário do segundo ataque das tropas legais aos barbudos.

Os agricultores Lori, Luiz Adalberto e Tereza - filhos de Orlandino e netos de Alípio - não queriam dar entrevistas. Vizinhos dizem que, 72 anos depois do massacre dos barbudos, os Costa não perdoaram as autoridades e a polícia. Após um dia de negociação, Lori aceitou conversar. Explicou que a família ainda guarda mágoa pelo tratamento recebido pelos ancestrais no campo de concentração. Ao ver a fotografia com os rebeldes ajoelhados, Lori aponta para o primeiro, da direita para a esquerda. "É meu avô, Alípio Costa", diz, emocionado.

Lori revela que seu pai, Orlandino Costa, o avô Alípio, Tácio Fiúza, Crescêncio, Antônio, Gregório Rodrigues e Alfredinho, integrantes da Revolta dos Barbudos, foram enterrados no sítio. "Os troncos velhos estão todos ali no quintal", diz o agricultor, apontando para um pequeno cemitério ao lado de sua casa.

"Bandidos e comunistas". As terras onde vivem Lori e seus irmãos começaram a ser cultivadas por Pedro Gonçalves da Costa, o Pedro Barnabé, no final do século 19. Ele era pai de Alípio e avô de Orlandino, daí o nome de Rincão dos Barnabés. A família plantava fumo e criava ovelhas. "Era gente bem de vida", conta Lori. "Diziam que os barbudos eram bandidos e comunistas. Bandidos foram eles que saquearam tudo, levaram 180 pelegões (pele para montaria) e joias das gurias."

Baleado e perto da morte, Tácio pediu para ser enterrado na mangueira (curral) da propriedade de "tio" Pedro, morto anos antes. Pediu que não chamassem o lugar de cemitério, mas de jardim. No túmulo dele, embaixo de um pé de cinamomo, foi escrito: "Jardim de Maria Santíssima". Num gramado entre o cemitério e a casa, os Costas ergueram uma pequena igreja e colocaram a imagem do anjo da guarda. Era despiste para não haver represálias de bispos e autoridades. O templo é dedicado a Tácio, que no movimento dos barbudos era considerado um anjo. "Foi um santo", diz Lori.

Fanatismo. O agricultor diz que passou a infância ouvindo histórias de Alfredinho e de Alípio. "Eles pregavam que a pessoa tinha de ter uma família digna e trabalhar. Suor no rosto é sagrado. Muita gente confundiu, mas tinha fanatismo sim", reconhece. "Os ricos ficaram loucos, pois os barbudos defendiam terra para todos", completa. "Todo o ser humano tem direito de ser dono da terra que é de Deus."

Lori lembra que os líderes dos barbudos eram contra o plantio de fumo, o que preocupou os donos das bodegas, que controlavam a venda de alimentos e mantinham exclusividade na compra de fumo. "Os grandes se revoltaram, os militares se revoltaram."

Após o massacre, os barbudos perderam terras. Humilhado, Alípio Costa foi preso, teve a barba cortada e a cabeça raspada e ainda jogaram veneno na cabeça dele. O homem nunca mais se recuperou. Até a sua morte, em 1960, enfrentou tonteiras e tremedeiras. Conseguiu, porém, que o Rincão dos Barnabés não fosse ocupado pelos bodegueiros e grandes proprietários de terra.

O fumo, amaldiçoado pelos barbudos, é o principal produto agrícola dos moradores do vilarejo. O povoado está cercado por plantações de soja. Grandes produtores pressionaram para a família vender as terras. Os Costas resistem. "Meu pai, Orlandino, dizia que não venderia isto aqui nem por uma bola de ouro", relata Luiz Adalberto. "Tentaram até tirar a igreja do Tácio, mas fui ao bispo de Cruz Alta dizer que ninguém ia acabar com o sagrado nem com o jardim onde estão os troncos velhos. Aqui ninguém planta soja."

Numa segunda viagem à região, o Estado voltou a encontrar Lori. Mais aberto, diz que passou a orientar parentes a falar sobre a guerra: "Eu mantenho a doutrina do meu pai e do meu avô. É uma história linda."

O aposentado Nilo Lucílio Moura, de Boa Vista, cedeu ao Estado uma mala de manuscritos de antigos moradores do povoado. Um dos documentos é um romance, como chamam histórias rimadas, escrito nos anos 1940 por um anônimo sobre a revolta dos barbudos. O trabalho, datilografado em cinco folhas, dá o cronograma do conflito, aponta locais dos confrontos e nomes de repressores e rebeldes.

Um dos personagens citados no romance ainda está vivo. O agricultor Rodolfo Carniel, de 96 anos, foi quem levou os agentes da Brigada Militar até o local onde os barbudos se refugiavam. Na época, ele tinha 23 anos. Pelas contas de Carniel, cerca de 1.500 pessoas se reuniam na capela de Santa Catarina. "Foram tantos tiros que furaram com balas de fuzil o galpão atrás da igreja. Uma bala acertou o peito de uma criança de colo. O coração apareceu", diz. O líder dos barbudos, conta Carniel, saía da igreja quando foi abordado por Júlio da Silva Teles, fazendeiro influente em Boa Vista que havia chamado a brigada. "Quando o Tácio ia passando pelo portão, o velho Júlio atirou", completa. "Tácio foi levado na padiola. Acenou para o pessoal e morreu."

Moradores de Boa Vista não gostam de falar do combate na capela de madeira, que anos depois foi substituída por um templo de alvenaria. Reclamam que os agricultores dos vilarejos da região, simpáticos aos barbudos, passaram a enxergá-los como cúmplices dos assassinos dos líderes do movimento.

O comerciante João Pedro Trevisan diz que os barbudos causaram revolta porque queriam levar a imagem de Santa Catarina. "Eles (policiais) se afobaram e fizeram a coisa errada. Ocorreu o tiroteio. Vai julgar como? Foi tudo confuso", diz.

Era na mercearia de Pedro Trevisan, pai de João Pedro, que os barbudos recebiam apoio. A mercearia, um velho galpão de madeira, ainda está de pé. João Pedro diz que uma das histórias relatadas pelo pai foi a da violência praticada contra Andressa Carvalho, considerada a reencarnação de Santa Catarina pelo grupo. "Soldados a levaram para a parte de trás do altar e tiraram a honra dela", diz. "Os barbudos queriam paz, mas era uma paz estranha."

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