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A Guerra de Narrativas

Desde o início do conflito, Rússia e Ucrânia travam um embate que também reflete o desequilíbrio de forças, mas que desafia as versões oficiais de ambos os lados

André Fran, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 10h00

“A primeira vítima da guerra é a verdade.” A frase atribuída à Winston Churchill já circulou a exaustão pelas redes sociais, mas muitos afirmam que o autor verdadeiro seria Ésquilo, o pai da tragédia grega falecido há alguns séculos. Outros registros dizem que a autoria seria do político britânico do século XIX Philippe Snowden. Ou até mesmo de sua esposa, a feminista Ethel Annakin. Ou seja: vários autores, algumas versões e muita confusão. 

Mais ou menos como a guerra de narrativas que sublinha essa terrível tragédia humana dos tempos atuais que é a invasão da Ucrânia pela Rússia de Vladimir Putin. Desde o início do conflito, os dois países travam uma batalha que vai além dos bombardeios aéreos, dos disparos de tanques e das mortes de civis. Um embate que também reflete o desequilíbrio de forças, mas que desafia as narrativas oficiais de ambos os lados. 

Poucos anos atrás, eu estava em Moscou para uma reportagem sobre o Dia da Vitória, quando os russos celebram a vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Ou, como eles preferem chamar: a Grande Guerra Patriótica. Narrativa é tudo e o termo é usado na Rússia e em algumas ex-repúblicas soviéticas para destacar o tão esquecido protagonismo da U.R.S.S. no conflito. Afinal, eles foram o país com o maior número de vítimas, onde aconteceu a maior batalha (Stalingrado), o maior cerco (Leningrado)… 

Como todo o povo russo sabe, e fez questão de me contar, durante muitas décadas eles foram tratados como os grandes vitoriosos da Segunda Guerra Mundial, como nós aqui no Ocidente chamamos. Mas essa percepção foi mudando ao longo dos anos graças ao poder da produção cultural norte-americana, que fez com que os EUA se tornassem os “verdadeiros heróis” que derrotaram Hitler e o nazismo. Em 2015 também cobri a onda de protestos da Euromaidan na Ucrânia, movido pelo sentimento anti-Rússia o governo assinou um decreto adotando oficialmente o termo Segunda Guerra Mundial como parte do pacote de leis anticomunismo que citei em minha última coluna aqui no Estadão.

Esse não foi o fato isolado que serviu de estopim para a guerra. Até porque desde o início as intenções de Putin não estão claras. A narrativa (olha ela aí de novo) oficial envolve a expansão da Otan, o revisionismo sobre a história da Ucrânia e um certo saudosismo czarista por parte de Putin. Apenas dois dias antes da invasão total do país vizinho, o líder russo aparecia na TV, para o mundo todo, afirmando que o deslocamento de tropas na região se tratava tão somente de exercícios militares e tratando com seu gabinete apenas de um possível reconhecimento da independência das regiões separatistas no leste da Ucrânia. Tudo balela, como pudemos atestar estarrecidos logo em seguida. Se naquela viagem à Rússia pude testemunhar o poder da propaganda oficial do Kremlin, a censura à imprensa e a violenta repressão da oposição, em tempos de guerra isso foi extrapolado à décima potência. A mídia independente está proibida de citar o termo guerra, devendo adotar o eufemismo “operação militar especial no Donbass” onde as tropas estariam apenas em “Missão de Paz para defender minorias russas na região”. Canais oficiais de TV dividem sua grade de programação entre informações falsas atribuindo ao exército ucraniano o bombardeio de seu próprio território e uma releitura distorcida da história que reduz a origem da Ucrânia a concessões da Mãe Rússia. Em tempos de internet e redes sociais, no front tecnológico a Rússia já vetou o acesso ao Facebook e ao Twitter em seu território. E ainda tentou proibir vídeos sobre a guerra de circularem no TikTok (sem sucesso). Até mesmo o número de mortos de ambos os lados do conflito está em disputa. E aí entra também a narrativa ucraniana sobre o desenrolar dos fatos.

O comando do país em um dos momentos mais cruciais de sua história está nas mãos do comediante formado em direito, Volodomir Zelensky. Ele foi eleito presidente em 2019 quando o povo já se mostrava insatisfeito com os rumos do país após o levante que derrubou o presidente aliado de Moscou, Viktor Yanukovych, e um mandato controverso do bilionário descomunizador, Petro Poroshenko. Zelensky era o candidato antipolítica “contra tudo isso aí”. E, para surpresa de muitos, saiu-se vencedor nas urnas. Nos primeiros anos de seu mandato, parecia desconfortável e surpreso com as demandas do cargo e começou a ver sua popularidade despencar. Mas, se foi criticado pelo amadorismo diplomático que pode ter sido em parte responsável pelo trágico cenário atual, sua postura de estadista que não foge à luta e a vocação de comunicador estão o tornando o grande nome da resistência ucraniana perante o mundo. Com direito a comparações com Winston Churchill (não é fake news). E é na figura do presidente que caiu nas graças da mídia mundial que recai o papel principal da luta ucraniana na linha de frente das narrativas de guerra.

Na linha da resistência heróica, repercutiu na mídia ucraniana e no mundo todo a história dos bravos soldados ucranianos que teriam mandado um navio russo “se f.” antes de serem fuzilados em uma ilha no Mar de Azov. Dias depois, os marinheiros capturados foram filmados sãos e salvos desembarcando na Crimeia. Outro caso foi o do combate na Usina Nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa. Zelensky correu para o Instagram, canal oficial de de todo líder moderno, e postou que a usina estava pegando fogo e que havia ameaça de um desastre dez vezes pior que Chernobyl. Horas depois, especialistas disseram que uma usina daquele porte hoje em dia tem mecanismos de segurança capazes de suportar ataques bem intensos, que o incêndio havia sido em um centro de treinamento e os reatores estavam em segurança. O caso da morte de Densi Kireyev, o “suposto espião russo” infiltrado na equipe de negociação ucraniana também está pra lá de mal explicado. De um lado, o exército da Ucrânia homenageia seu oficial morto em combate. De outro, deputados do parlamento ucraniano afirmam que ele foi executado sob acusações de traição. 

Se não bastasse tudo isso, a ameaça nuclear também está no alvo da disputa de versões. Desde que Putin ameaçou colocar seu armamento nuclear em posição de alerta, o mundo volta a viver com o medo de uma hecatombe atômica. Felizmente, as armas nucleares ainda não entraram em ação, mas já viraram munição pesada na batalha da desinformação. A Ucrânia questiona a sanidade mental de Putin, um líder colérico com acesso ao botão que pode pôr um fim à nossa existência. Por sua vez, a Rússia diz, sem provas, que sua inteligência identificou que o governo ucraniano desenvolvia possíveis “armas sujas nucleares” na zona capturada de Chernobyl. O governo ucraniano diz que não pretende fazer parte do clube nuclear tão cedo. Entre as duas versões, está a verdade que, como diz o autor desconhecido: foi a primeira vítima dessa guerra.

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