Guerra nas favelas do Rio vira jogo de ''''War''''

Policiais e bandidos tornam-se exércitos, que têm de tomar as favelas

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

30 Novembro 2007 | 00h00

Os violentos confrontos entre policiais e traficantes em favelas do Rio inspiraram o designer Fabio Lopez a criar uma paródia do famoso jogo War. Anunciado como uma "piada de mau gosto" pelo próprio criador, o War in Rio tem, no lugar dos continentes a serem conquistados, as zonas norte, sul, oeste e o centro do Rio, além da Baixada Fluminense - e algumas de suas favelas.Os exércitos? O Batalhão de Operações Especiais (Bope), a Polícia Militar (a "polícia convencional" do filme Tropa de Elite), a milícia (grupos de policiais e bombeiros que cobram dinheiro de moradores de comunidades pobres em troca de segurança e outros serviços) e três facções criminosas: Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando."Não é só uma brincadeira", esclarece Lopez, carioca de 29 anos que já esteve em meio a tiroteios, já viu cadáver na rua e escuta tiros de seu apartamento em Botafogo (zona sul), disparados do Morro Dona Marta e da Ladeira dos Tabajaras. "A guerra não é declarada, mas vivemos em meio a armas de guerra, feridos de guerra, terrorismo urbano. São relatos que a gente encontra no dia-a-dia do Rio", diz. "Cada profissional tem de expressar o que sente de sua maneira, e essa é a minha. Se eu escrevesse só um texto sobre a violência, as pessoas não dariam importância."Formado em Desenho Industrial pela Universidade do Estado do Rio (Uerj), atualmente no curso de mestrado, Lopez jogou bastante War quando criança e adolescente. Agora, as peças do jogo original (os dados e os soldadinhos e tanques de plástico de seis cores diferentes) foram usadas no War in Rio.O tabuleiro, com favelas como Mangueira, Cantagalo e Cidade de Deus, e as cartas (nas quais está escrito o objetivo dos jogadores, como "conquistar 24 favelas à escolha") foram confeccionados por Lopes em um mês. O mapa do Rio foi montado a partir do Google Maps.O gasto total ficou entre R$ 70 e R$ 80 e foi rateado pelos amigos, uma vez que o designer, que trabalha como autônomo, desenvolvendo cartazes e capas de livro, além de projetos pessoais, andava com dificuldades financeiras. As regras são as mesmas do jogo que todos conhecem: ganha quem cumprir a meta primeiro.FOMENTAR A DISCUSSÃOAgora, amigos e pessoas que tomaram conhecimento do blog sobre o War in Rio (www.jogowarinrio.blogspot.com, no ar desde quarta-feira) estão incentivando Lopez a vendê-lo. Mas ele não quer. Sua intenção, garante, é fomentar a discussão sobre segurança pública no Rio. No blog, descreve sua criação como um "jogo-manifesto", uma forma de "reflexão e entretenimento canalha", que "pega carona no fenômeno de massa Tropa de Elite". "Não quero que as pessoas achem que estou fazendo chacota da situação. Se eu vender, desautorizo o discurso", afirma. "Estou bem assustado com a repercussão; não esperava. Algumas pessoas já me pediram para fazer o War nas cidades delas." Lopez acredita que o jogo seja uma "idéia óbvia". "Muita gente me falou: ?como eu não pensei nisso antes??"Fabricante do War, sucesso entre os garotos que cresceram nos anos 80, como Lopez, a Grow não se manifestou a respeito. Indagado sobre o jogo, o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que se trata de um ato de irreverência que em nada afeta a política de segurança do Estado.

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