Guerra para derrubar páginas é 'briguinha de 5ª série', diz Jout Jout

Youtuber que se considera feminista estava fora do Facebook desde 2ª; páginas de caráter conservador foram desativadas

Malú Damázio e Rute Pina, Especiais para O Estado

04 Novembro 2015 | 18h23

Atualizada às 20h10

A youtuber Julia Tolezano, a Jout Jout, recuperou sua página no Facebook no fim desta tarde, 4. Fora da rede desde segunda-feira, 1, a vlogger é parte de uma série de usuários que tiveram seus perfis e conteúdos desativados pela rede social. Em entrevista ao Estado, Julia caracterizou a ação como "uma briguinha de quinta série". 

Em seu perfil, ela disse não saber os motivos pelos quais o perfil saiu do ar "em uma suposta 'guerra' entre páginas no Facebook". "Não tenho certeza dos motivos nem de quem se sentiu motivado. Só sei que não vou me calar. Melhor: não VÃO me calar", comentou.

 

 

Gente, que saudade que eu senti de voceeeeeees!!!!!!!! Foram dois dias tensos, mas estamos de volta, obviamente.Como...Posted by Jout Jout Prazer on Quarta, 4 de novembro de 2015

No fim de semana, algumas páginas de caráter conservador foram desativadas. Entre elas, a comunidade Orgulho de Ser Hetero, que reunia mais de 2 milhões de pessoas, e o perfil da blogueira antifeminismo Luana Basto. Ambas tiveram o conteúdo denunciado por mulheres e militantes LGBT por discurso de ódio.

A ação foi comemorada como uma vitória pelos ativistas, que se opunham ao tom agressivo das postagens. 

 

 

Uma Horcrux já foi...Porque você pode ter orgulho do que você quer mas não pode usar o seu direito de ser babaca...Posted by Dilma Bolada on Domingo, 1 de novembro de 2015

Ainda no domingo, Julia e outras representantes do movimento feminista, como a página Feminismo Sem Demagogia e suas administradoras, também perderam acesso à rede. A vlogger, que não participou ativamente da mobilização para deletar as páginas conservadoras, teve seu principal perfil reportado como falso ao site. 

Julia ressaltou à reportagem que ainda não é possível estabelecer relações entre as suspensões das contas, mas acredita que as denúncias contra seu perfil estão abertamente ligadas ao posicionamento feminista que mantém em seu canal. 

Seu último vídeo sobre assédio sexual, "Vamos Fazer um Escândalo", publicado na semana passada, alcançou cerca de 1 milhão de visualizações. "Todos os meus vídeos tem ideologia feminista, eu apoio esse movimento."

O cenário de guerra virtual entre os grupos foi comentado por usuários das redes sociais. Julia ficou sabendo que seu perfil havia saído do ar por meio de seus seguidores no Twitter. 

A vlogger afirma que não tem como objetivo convocar seu público para derrubar outras comunidades em troca. "Não faço vídeos para as pessoas ficarem com ódio, e sim felizes, por isso não quero dar continuidade à discórdia. Mas não está certo. Se alguém está fazendo uma coisa errada, a gente tem que lutar contra isso". 

Racismo. No mês passado, a estudante de arquitetura Stephanie Ribeiro, conhecida na web pela militância no movimento negro, passou por uma situação parecida. No dia 21 de outubro, seu perfil pessoal foi denunciado e ela recebeu uma série de mensagens de cunho racista. A conta continua bloqueada para postagem.

A estudante diz que não há provas que as denúncias estejam entrelaçadas, mas acredita que este movimento "não é aleatório". Segundo ela, a ação representa "silenciamento de vozes já silenciadas nos espaços que a gente criou para falar de feminismo". 

"As pessoas têm que falar da perseguição na internet. Agora elas estão falando da Thais Araújo, mas isso é muito comum com militantes e mulheres negras em geral". Stephanie conta que já registrou boletins de ocorrência, mas a resposta do delegado foi negativa. "Ele disse que é muito difícil de rastrear as pessoas nestes casos".

Discurso de ódio. De acordo com o advogado da Faculdade de Direito da USP Thales Coimbra, a diferença entre o conteúdo das páginas Orgulho de Ser Hetero e de perfis como o de Julia e Stephanie é a presença de um discurso de ódio na primeira, já que há a divulgação de "mensagens que desumanizam e ridicularizam mulheres e a comunidade LGBT". 

Esse tipo de fala se caracteriza por carregar uma mensagem de intolerância que prega a subordinação de um grupo historicamente marginalizado a outro, explica Coimbra.

"A mensagem não é somente descritiva. É prescritiva e determina qual lugar essas pessoas devem ocupar na sociedade. Por isso, piadas machistas de que mulheres devem lavar a louça são, sim, discurso de ódio", afirma. 

O advogado diferencia a atuação destes perfis das páginas de militância que reivindicam direitos de grupos historicamente excluídos, como mulheres, negros, gays e transexuais porque estas publicam conteúdo que busca "contestar e desnudar uma situação histórica de opressão". 

Segundo ele, o teor das postagens "pode ser ofensivo e grosseiro ao generalizar, mas dificilmente elas se remetem a um grupo socialmente marginalizado" e não constituem, portanto, discurso de ódio.

Procurado pelo Estado, o Facebook informou em nota que "a página da Jout Jout Prazer foi removida por um erro de avaliação de uma denúncia". A reportagem não conseguiu contato com os administradores da página 'Orgulho de Ser Hetero'. 

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