Guia ensina como ver os santos e os detalhes das igrejas tombadas do Rio

Livro destaca século 18, fase áurea dos templos cariocas; cidade foi pioneira em formas que se consagraram em Minas

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

Não se trata apenas de mais um livro de arte, mostrando belas fotos. Os três volumes de Barroco e Rococó nas Igrejas do Rio que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lançou na semana passada, no Rio, são preciosos para quem quer conhecer a história do País no século 18, fase áurea da arquitetura religiosa. As pesquisadoras Myriam Andrade Ribeiro e Fátima Justiniano percorreram dezenas de vezes as 20 igrejas tombadas do Rio, a maioria no centro. Fotografaram detalhes dos altares cobertos de ouro e estudaram a história de cada santo. Foram dois anos de trabalho de campo para produzir um guia revelador e fácil de ser usado. "Devemos dar graças a Deus pelo investimento e pelo bom gosto dos padres que construíram essas igrejas, verdadeiras obras de arte", diz Fátima, mestre em História da Arte e especialista em santos. Para atrair cariocas e turistas, o Iphan resolveu lançar o guia. "O livro foi feito pensando no público comum. Queremos ajudar as pessoas a entenderem o que estão vendo." Isso porque, ela mesmo admite, entre os templos tombados há alguns muito difíceis de serem entendidos. É o caso da Ordem Terceira do Carmo, na Rua 1º de Março, bem na frente da Praça XV. "No século 19, passou por uma reforma profunda. Partes que eram lisas, do rococó, foram totalmente redecoradas. A igreja passou a ter o que chamamos de estilo eclético." Mas não perdeu o valor. No guia, as pesquisadoras chamam a atenção para a imagem de Santa Emerenciana. "Uma figura de mulher adulta, de idade avançada, com duas mulheres nos braços, uma delas trazendo um menino. Trata-se da bisavó do Cristo, com a filha Ana e a neta, Maria, com o Menino Jesus."Há outros destaques. Na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Largo da Carioca, Myriam e Fátima destacam o arco-cruzeiro (entre a nave central e a capela-mor), "um dos mais suntuosos do barroco joanino luso-brasileiro" e a crucificação de Cristo no altar-mor, onde São Francisco está representado, "com traços semelhantes aos do Cristo, do qual recebeu as chagas da crucificação".DESCOBERTASAté as pesquisadoras se surpreenderam com duas descobertas. A primeira é que São Sebastião, o padroeiro da cidade, não tem nenhuma igreja desta fase em sua homenagem. A Catedral de São Sebastião, construída no século 17, veio abaixo junto com o desmonte do Morro do Castelo, em 1922. A segunda surpresa é que a maior parte das igrejas tem invocações marianas. "Pelo menos 15 são dedicadas à Virgem. Suspeito que seja uma influência de Lisboa. Lá também é assim. Mas o motivo de os portugueses terem essa devoção especial é algo que vamos investigar numa segunda edição", diz Fátima.Na primeira, elas explicam por que os cariocas têm tantas igrejas valiosas de estilo barroco e rococó. O fato de o Rio ter sido sede do governo dos vice-reis, em 1763, e depois ter sido capital em três períodos - colonial, imperial e republicano - deram à cidade a chance de receber construções de peso. "O Rio era e continua a ser a cidade mais aberta à absorção do novo", explicam na introdução.Foi ainda a primeira cidade colonial a ter construção com a talha joanina e a pintura de perspectiva, que revolucionaram o barroco português no reinado de d. João VI. As plantas poligonais e curvilíneas chegaram às igrejas cariocas 20 anos antes de passarem para Minas, onde fariam a glória do barroco. E foi também no Rio que as formas ornamentais do rococó começaram a ser usadas no Brasil, por volta de 1753, antes também de Minas. As 20 igrejas, todas abertas ao público, são um retrato dessas inovações e o testemunho de uma época.Barroco e Rococó nas Igrejas do Rio começa ensinando como identificar os estilos usados nas decorações. No barroco, predominam a cobertura de talha, o excesso de ouro e a grande quantidade de santos e anjos. "São igrejas mais escuras, pesadas. É impossível visualizar onde estão as colunas. É quase uma floresta dourada", explica Fátima, citando o Mosteiro de São Bento. No rococó, o branco domina e o ouro só entra em pequenos filetes. Seu grande representante no Rio é a Igreja do Carmo, antiga Sé. O guia leva o leitor até o neoclassicismo da Igreja São José com seu altar-mor de colunas retas e poucos detalhes dourados. "Mas os altares laterais ainda têm resquícios do rococó."Fátima, católica não praticante, é fã do barroco em particular, mas adora igrejas antigas de um modo geral. Não só para rezar, mas pelo ambiente. "Gosto do silêncio. Essas igrejas são testemunhos artísticos.Hoje, infelizmente, os templos, seja de que religião for, não têm uma arquitetura que representam sua época", lamenta. As exceções, segundo ela, são a Catedral Metropolitana, construída nos anos 70, e as igrejas feitas por Oscar Niemeyer. "Elas, no futuro, serão testemunhos dos séculos 20 e 21."

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