Guilherme Leal, o vice que satisfaz

Afinidade da candidata com ele é tanta que quando usa o pronome 'nós' significa, sempre, Marina e Guilherme

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Nenhum candidato a presidente parece mais satisfeito com seu vice do que a senadora Marina Silva. A afinidade com o empresário Guilherme Peirão Leal é tanta que, quando recorre ao pronome "nós", ela não está se referindo à junção com seu partido, o PV, nem abusando do plural majestático. O "nós" da senadora significa Marina e Guilherme. Assim como "nossa estratégia" e "nosso projeto" são sempre referências aos dois.

A satisfação é compreensível. Em primeiro lugar porque foi ela quem elegeu o vice, sem aceitar interferências do PV nem barganhar nada com partidos aliados. Na reta final, quando a lista de possíveis candidatos ficou reduzida aos nomes de Leal e Roberto Klabin, empresário dos mais poderosos no setor de papel e celulose e presidente da Fundação SOS Mata Atlântica, foi ela quem definiu o jogo a favor do primeiro.

Outra razão para o contentamento de Marina está no figurino do escolhido. Leal é discreto e muito rico, veste-se com estudada elegância, não contabiliza escândalos políticos e financeiros no passado, apoia causas ambientais com entusiasmo e ainda possui estofo intelectual para debates e conversas inteligentes sobre os rumos do Brasil. Na opinião do economista, escritor e velho amigo Eduardo Gianetti da Fonseca, ainda podem ser acrescentadas às suas qualidades "o gosto pela interlocução e a abertura para novas ideias".

No meio empresarial ele também é admirado como self made man. Sua fortuna cresceu escorada no trabalho e na sagacidade para os negócios, sem grandes heranças nem injeções de dinheiro público.

De cabeça. A senadora e o vice se conhecem há 12 anos. Ele foi um dos principais incentivadores de sua candidatura à Presidência e, após aceitar o convite para o posto de vice, deixou de lado todas as outras atividades para se filiar ao PV e mergulhar na campanha. Além da experiência como administrador e empresário, contribui com dinheiro do próprio bolso, põe um helicóptero à disposição para a senadora se deslocar, discute o programa e está sempre disposto para acompanhá-la em eventos públicos. Na opinião de um executivo que já trabalhou ao lado de Leal, essa disposição para mergulhar de cabeça nas causas que escolhe é a principal característica do empresário.

A sua principal missão, no entanto, é abrir caminho na elite do empresariado, onde persistem desconfianças por causa da intransigência de Marina nas causas ambientais. Leal assegura a seus pares que se trata de candidata confiável, sem gosto pelo aventureirismo ? especialmente na área econômica.

Visto por esse ângulo, seu papel lembra o dos empresários Ivo Rosset (Valisère) e Lawrence Pih (Moinho Pacífico) na jornada de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Mas a semelhança só vai até aí. O papel de Leal é mais importante e cresce a cada dia. Na verdade não existe ninguém mais influente na campanha do que ele. Sozinho tem mais força do que toda a cúpula do PV.

Foi Leal quem indicou o empresário e amigo Álvaro de Souza, ex-presidente do Citibank, para dirigir a área financeira da campanha. No grupo de intelectuais, economistas e simpatizantes que preparam o programa de governo de Marina, a maior parte foi convidada por ele. O advogado Eduardo Matias, que cuidou das diretrizes de relações internacionais, é seu amigo. Giannetti, na área de economia, também. A lista vai longe.

Sem tempo nem voto. O "defeito" na escolha de Leal para o cargo é ele não ter vindo de nenhum partido aliado ? ou seja, não agrega votos nem tempo na TV no horário de propaganda gratuita.

O peemedebista Michel Temer não é, do ponto de vista da afinidade política, o vice dos sonhos da ex-ministra Dilma Rousseff, do PT. Mas foi recebido com festa por levar com ele quase um terço dos 10min36s que a candidata terá em cada bloco de 25 minutos de propaganda gratuita. O deputado fluminense Índio da Costa, do DEM, que só foi aceito como segundo de Serra após o fracasso de todas tentativas para uma chapa tucana puro-sangue, agrega 2m17s a cada bloco de 7m16 do ex-governador.

Já Marina, que não tem aliança com nenhum partido, terá apenas o 1m12seg do PV para fazer propaganda. Ela tenta converter essa enorme desvantagem em vantagem e diz que, desobrigada de barganhas, pôde escolher um vice comprometido com suas propostas.

Leal nasceu em 1950, no Boqueirão, bairro da classe média de Santos, litoral paulista. Era o mais novo de uma família de quatro irmãos. Cresceu acompanhando na Vila Belmiro o time que fascinou o mundo nos anos 60, com os garotos de ouro da época, Pelé, Pepe, Coutinho, mais Gilmar, Zito e outros cujos nomes ele ainda desfia de cor. Vem de lá também sua paixão pelo futebol ? a única das duas diversões que os mais próximos conseguem citar quando falam dele.

A outra diversão reconhecida pelo próprio é o refúgio que vem construindo desde 2005 em Uruçuca, no litoral sul da Bahia, ao lado de Ilhéus ? uma área paradisíaca com quase 80 hectares, coberta por coqueirais, riachos, mangues e uma faixa de Mata Atlântica que ele vem tentando recuperar.

Filho de um funcionário público da alfândega do porto de Santos, Leal cursou o ensino médio no Colégio Rio Branco, em São Paulo, e formou-se em administração de empresas pela USP. Como universitário, estudava à noite e trabalhava de dia. Em 1979, já casado e com dois filhos, juntou as economias, vendeu um terreno e tornou-se sócio de uma pequena empresa de cosméticos, a Natura, localizada na rua Oscar Freire, em São Paulo.

O momento era péssimo para negócios. A década de 80, conhecida como década perdida, foi marcada por planos econômicos fracassados, inflação descontrolada e incertezas políticas. Mas foi no meio desse vendaval que Leal e Luiz Seabra, seu sócio até hoje, impulsionaram a Natura. Para dar uma ideia do que foi isso, ele conta que iniciaram a década com faturamento anual de US$ 5 milhões e fecharam com US$ 170 milhões.

Enfarte. Do ponto de vista pessoal, isso teve um preço alto: Leal sofreu um enfarte aos 37 anos. O susto levou-o a alterar o ritmo de vida. Ele reconhece que foi depois disso que passou a dar mais atenção às reuniões de pais na escola dos filhos e a se interessar por causa sociais. Como parte dessa revisão, apostou na mudança de rumos da Natura.

A empresa embicou para uma trilha ecológica e fez do uso de matérias-primas oriundas de fontes renováveis a sua principal diferença no mercado. E mais uma vez deu certo. O negócio encorpou, espalhou-se pela América Latina e, em 2006, Leal passou a ser listado pela revista americana Forbes no ranking das mil maiores fortunas do planeta. Na edição deste ano, a revista avaliou sua fortuna em US$ 2,1 bilhão e qualificou a Natura como a versão brasileira da Avon, por causa da vendas de porta em porta.

O valor mencionado pela Forbes difere do que Leal apresentou dias atrás ao Tribunal Superior Eleitoral, ao registrar a chapa do PV. Ele declarou R$ 1,1 bilhão ? uma quantia, diga-se de passagem, 7 mil vezes superior às posses de Marina, que declarou modestíssimos R$ 149 mil.

Os números são diferentes, diz Leal, porque os critérios são diferentes. "O que apresentei é o mesmo que consta na declaração de Imposto de Renda, de acordo com os critérios legais. O da Forbes é uma estimativa de mercado do valor das ações que tenho. Não é exato."

Admiração. Não foi, é claro, a fortuna de Leal que encantou Marina. Ela o admira pela participação em projetos sociais e ambientais levados adiante por grupos organizados no chamado terceiro setor.

Em 2008, após desentender-se com o governo Lula e o petismo e deixar o Ministério do Meio Ambiente, Marina foi convidada por Leal para participar dos encontros de um grupo de grandes empresários envolvidos com responsabilidade social, denominado Brasil Com S (de sustentabilidade). Nasceram ali a candidatura dela e a decisão de alguns empresários de se envolverem com política. O caso mais evidente é o de Leal. Mas vale citar ainda Ricardo Young, dono da rede de idiomas Yázigi e candidato ao Senado pelo PV de São Paulo.

"O Leal não é um recém-chegado", diz o amigo e empresário Oded Grajew, uma das referências no Brasil quando se trata de responsabilidade social e ética no meio empresarial. "Ele atua na área social e ambiental desde os anos 80."

Leal já tentou se aproximar de um projeto político em outra ocasião. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, aceitou um convite para sentar-se à mesa do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Saiu, desencantado, em 2005, ano do escândalo do mensalão.

Casado pela segunda vez e construindo uma nova casa nos Jardins, Leal tem cinco filhos ? dois com a primeira mulher e três que a segunda trouxe de um casamento anterior. Seu primeiro dissabor na carreira política apareceu dias atrás, com a denúncia de que estaria violando a legislação ambiental na propriedade da Bahia. Justo na Bahia, reclamou para os amigos, onde realiza o projeto dos sonhos, ou, segundo expressão dele, "onde tudo é do bem". Estranhou o fato de a denúncia aparecer agora, cinco anos depois de iniciado o projeto, e em plena campanha, mas não se assustou. Na sexta-feira, o Ibama, que vistoriou o lugar, disse não ter achado nenhuma irregularidade.

Leal ainda tem dificuldade com o assédio da imprensa e não figura, certamente, na lista dos dez políticos mais simpáticos da campanha. Detesta falar da vida particular: prefere discorrer sobre projetos para o Brasil. Proclama a urgência de uma reforma fiscal e tributária e da melhoria da qualidade do ensino. Acha que o País vive um excelente momento na economia, mas pode se perder por falta de cérebros do ponto de vista intelectual e tecnológico.

Se isso ocorrer, adverte, será a terceira grande janela da história que se abre para o Brasil e se fecha por falta de estrutura interna. As outras duas teriam ocorrido nas décadas de 50 e70. Indagado sobre livros que tem lido, lembrou dois autores: o amigo Giannetti, de quem lê tudo, e o filósofo francês Edgard Morin ? especialmente seus textos sobre educação.

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