Gurgel é cobrado por OAB e Congresso

Para presidente da entidade, encontro secreto com Arruda 'não pode ser normal'; deputado pedirá audiência para que procurador se explique

Leandro Colon, Eugênia Lopes e Denise Madueño, O Estado de S.Paulo

26 Março 2011 | 00h00

O encontro secreto entre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, revelado pelo Estado, foi alvo de duras críticas ontem no meio jurídico e no Congresso. "Isso está fora do script. Não pode ser normal. Isso não observa a procedência normal que se deve ter entre o réu e o Ministério Público", reagiu o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcanti. O encontro também causou surpresa no Congresso e o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) já anunciou que vai pedir uma audiência com o procurador a fim de que explique o encontro.

Para Ophir, é no mínimo "estranho" que Gurgel tenha tido essa conversa com Arruda sem relatá-la nos autos do inquérito sobre o "mensalão do DEM" no Distrito Federal. "Na democracia, não se pode ter encontros sigilosos. Não é recomendável", afirmou o presidente da OAB. "A melhor conduta, num momento desses, não deveria ser essa."

Reportagem publicada ontem pelo Estado revelou que Gurgel escondeu um encontro que teve com Arruda no dia 2 de setembro do ano passado. A reunião sigilosa ocorreu fora da sede da Procuradoria-Geral da República e sem a presença dos advogados do ex-governador. A conversa foi sobre o esquema de corrupção no DF, mas Gurgel não o relatou nos autos do inquérito conduzido pela subprocuradora Raquel Dodge no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ela, aliás, ficou de fora do encontro.

Uma semana depois dessa reunião, o ex-governador concedeu uma entrevista à revista Veja, só publicada na semana passada, em que menciona nomes de parlamentares do DEM, seu ex-partido, que teriam sido ajudados financeiramente por ele durante sua gestão no governo do Distrito Federal. Somente Gurgel tem competência para investigar deputados e senadores.

Audiência. O deputado Chico Alencar quer que o procurador inclua o teor dessa reunião com Arruda no inquérito sobre o caso. "A narrativa do encontro tem de estar nos autos. Não foi um encontro entre amigos", argumentou. "Vamos pedir uma audiência, que não seja secreta, com o procurador para nos informarmos em que pé estão as investigações do mensalão do DEM", anunciou Alencar.

Ele pretende reunir um grupo de parlamentares para o encontro com Gurgel. No início da semana, o deputado vai procurar os senadores Cristovam Buarque (PDT-DF), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Taques (PDT-MT), que é procurador de carreira. "Há notícias de que procedimentos espúrios podem estar prosseguindo no Distrito Federal", ressaltou Alencar.

Ao Estado, Gurgel confirmou a reunião, realizada no gabinete do procurador Alexandre Camanho, que não tem ligação com o caso. Justificou ter se tratado de "conversa preliminar" que, na avaliação dele, não deveria ser transformada em depoimento.

Citados por Arruda na entrevista à Veja, os deputado ACM Neto (DEM-BA) e Rodrigo Maia (DEM-RJ) evitaram opinar sobre o encontro dele com Gurgel. "Não tenho como avaliar isso", alegou Maia. "Esse é um assunto do próprio Ministério Público", observou ACM Neto. Presidente do DEM na época em que estourou o escândalo, Maia tem repetido que todas as doações recebidas pelo partido nas eleições foram contabilizadas e entregues à Justiça Eleitoral.

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