Há 1 ano, pais de soterrados foram avisados do risco

Os pais dos meninos Jean Carlos, de 3 anos, e Jonas Josué, de 8, que morreram soterrados em Itaquera, na zona leste de São Paulo, tinham sido avisados pela Prefeitura de que a casa onde viviam corria o risco de desabar. A notificação aconteceu em agosto do ano passado. Quando técnicos da Prefeitura chegaram para retirar a família, a mãe se trancou no imóvel com os quatro filhos e passou dois dias sem sair de casa. Na época, três casas vizinhas foram derrubadas. Ontem, os meninos foram enterrados.

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

"Eles resistiram porque estavam desempregados e não tinham aonde ir. As assistentes sociais chegaram até a oferecer ajuda de custo para que fossem embora, mas eles não aceitaram", disse a dona de casa Vanessa Pontes Pisa, de 30 anos, amiga da família. "Nós não tínhamos uma casa para ir", explicou o pai, o pintor Jean Carlos Ferreira, de 32.

A advogada Vanda Ferreira Venancio, para quem a mãe das crianças trabalha como diarista, afirmou que a família já tinha passado uma temporada em um abrigo da Prefeitura. Segundo ela, há cerca de cinco anos eles foram retirados de uma área de risco. "Jonas foi atropelado na frente do abrigo e por pouco não morreu. A mãe ficou traumatizada e por isso resistia tanto em ir para um abrigo. Mas ela não foi negligente", disse Vanda.

O pai das crianças mostrava o único bem que conseguiu recuperar: um relógio de pulso que comprou para Jonas.

ORIENTAÇÃO

Segundo o coronel Orlando Rodrigues Camargo Filho, coordenador da Defesa Civil de São Paulo, os moradores não podem ser obrigados a deixar suas casas. "As pessoas são orientadas e os imóveis, interditados. É o que podemos fazer."

Porém, em casos gravíssimos, quando os moradores estão em uma área de extremo risco e se recusam a deixar o local, a Prefeitura pode registrar um boletim de ocorrência. "É uma maneira de se resguardar numa futura fatalidade", explicou Camargo Filho.

Já as pessoas que aceitam a transferência de local são encaminhadas para casas de parentes, albergues, incluídas em programas habitacionais ou recebem auxílio-moradia.

O geólogo da Defesa Civil Ronaldo Malheiros Figueira explica que a situação das áreas de risco de São Paulo, como morros, encostas, margens de córregos e rios, é agravada pelos próprios moradores, que depositam lixo em local inadequado e colaboram para a erosão do solo.

COLABOROU FELIPE ODA

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