Há 25 anos, militar arriscou a vida para salvar uma grávida e seu bebê

Durante a enchente de 1983, Sérgio Bambini pilotou helicóptero em condições adversas para resgatar mulher

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

29 Novembro 2008 | 00h00

Desta vez, o tenente-coronel da Aeronáutica Sérgio Pedro Bambini, de 67 anos, não esteve em Blumenau ajudando a salvar vítimas das inundações. Na reserva há três anos, ele acompanhou tudo de sua casa em Brasília, e a preocupação aumentava cada vez que via uma imagem da tragédia. O alívio só veio quando recebeu o telefonema de Levi Hülse, de 25, contando que ele e sua mãe, Maria Teresa, de 52, estavam bem e não tinham sido atingidos pela enchente. Bambini e os Hülse não têm parentesco e, até poucos anos atrás, nem eram amigos. Mas as histórias se encontraram há 25 anos, em um dos resgates mais dramáticos da enchente de 1983 no Vale do Itajaí.Durante a madrugada do domingo, dia 10 de julho, Maria Teresa, então com 27 anos, sentiu as dores aumentarem e teve certeza de que seu filho nasceria a qualquer momento. Ela e o marido, David Hülse, com 30, saíram no meio da forte chuva rumo à casa de uma médica, que improvisou um consultório e atendeu os moradores do bairro Itoupava Norte, morro de Blumenau que ficou isolado com a alta das águas. Na época, se costumava fazer partos em casa, mas o quadro de Maria Teresa era grave e foi a própria médica que alertou que eles precisariam ir para um hospital. "O David saiu correndo no meio da chuva, mas sem saber muito o que fazer", diz Maria Teresa. Aquela região estava sem telefone, água e energia elétrica. Foi com um radioamador que ele entrou em contato com o 23º Batalhão de Infantaria, onde estavam os helicópteros trazidos para o resgate. Sérgio Bambini, que era subcomandante da base aérea de Santa Maria (RS), coordenou o início das operações e determinou, logo que chegou à cidade, que nenhuma aeronave decolaria enquanto não houvesse condições de segurança."Chovia forte e as nuvens estavam na altura dos prédios. Decolar significava voar baixo, desviando deles", diz o militar. Mas ele próprio assumiu o risco para tentar resgatar a grávida, junto com três companheiros. No morro, os moradores faziam fogueira com pneus para mostrar onde pousar.Quando o helicóptero modelo UH-1H chegou, Maria Teresa embarcou com a médica. David também tentou entrar, mas os oficiais impediram. A aeronave decolou em direção ao hospital Santa Catarina, o único que tinha uma área não alagada para descer. O trajeto foi feito rapidamente, mas o pouso levou mais tempo, pois era preciso descer entre altas palmeiras. "O rotor do helicóptero ia abrindo espaço entre as árvores", diz Bambini. Uma maca veio rapidamente e levou Maria Teresa para dentro do hospital. "Durante 20 anos eu fiquei na dúvida sobre o que tinha acontecido com aquela mulher." O parto foi demorado e complicado, mas às 7 horas nascia Levi Hülse.O problema então era a falta de alimentos, que levou a um racionamento no hospital. Cada pessoa tinha direito a uma refeição por dia. "A preocupação das mães não era com elas. Tínhamos medo de não conseguir amamentar os filhos", diz Maria Teresa. Além disso, a chuva continuava forte e impedia que as roupas das crianças secassem. Em uma tentativa desesperada, as mães costumavam deitar sobre as fraldas de pano. Como seus pais moravam perto e na região do hospital os telefones estavam funcionando, Maria Teresa decidiu sair com Levi na terça-feira pela manhã. Não chovia naquele dia, mas as ruas estavam alagadas e seu pai e irmão foram buscá-los de canoa. Os dois homens se revezavam no remo. O que não estava fazendo força erguia os fios dos postes para que Teresa e o filho não esbarrassem neles. "Tinha muita gente com barco a motor. Meu pai ficava gritando e pedindo pelo amor de Deus para não passarem perto da gente ou a canoa ia virar." Depois de 15 minutos sobre a água e uma pequena caminhada, Maria Teresa chegou com Levi à casa de seus pais, de onde só saiu quando a água baixou.DIÁRIODavid tentava manter a esperança, embora tivesse quase certeza de que tinha perdido a mulher. Quando o helicóptero voltou ainda no domingo para trazer a médica, as notícias que ele ouviu davam conta de que o quadro de Maria Teresa era grave e que ele devia se preparar para o pior. Religioso, começou a rezar e trabalhou durante horas ajudando os vizinhos que tiveram casas destruídas. Tudo para não pensar no que tinha acontecido. Os únicos momentos em que a realidade retornava era quando escrevia em seu diário, anotações que começaram pouco depois de Maria Teresa embarcar no helicóptero. Na terça de manhã, ele decidiu se aventurar para descobrir o que tinha acontecido com sua mulher. Acompanhado de um amigo, ele saiu do bairro isolado e driblou algumas áreas alagadas, passando pelo meio da mata nativa que cobre os morros de Blumenau. Quando não havia outro jeito, entravam na água gelada, que em muitos locais chegava até o pescoço. Quando a profundidade era maior, pediam ajuda para quem tivesse uma canoa. Dessa forma, avançaram por cinco horas e, ao meio-dia, chegaram ao Hospital Santa Catarina. Maria Teresa e Levi já não estavam mais lá. Mas ele conversou com os médicos, escutou notícias sobre o estado de sua mulher e detalhes dos primeiros momentos de seu filho. E também chorou. Descarregou todo cansaço, dor e frustração dos últimos dias. Mas isso durou pouco, porque ele próprio se interrompeu e decidiu ir para a casa de seus sogros, na Rua Araranguá, onde reencontrou sua mulher e finalmente conheceu seu filho. Os três permaneceram juntos até fevereiro deste ano, quando o professor universitário David Hülse morreu, vítima de câncer.Quando se completaram 20 anos da enchente, em 2003, a Câmara de Vereadores de Blumenau homenageou o então tenente-brigadeiro Sérgio Pedro Bambini com o título de cidadão blumenauense. Ele contou em seu discurso a história do resgate da mulher grávida e disse que o desfecho era uma dúvida que o acompanhava desde então. No final, o militar foi às lágrimas ao conhecer Levi.

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