'Há naturalizaçãoda corrupção'

No próximo domingo, Boris Fausto estreia como articulista no caderno Aliás, do Estado; foco inicial será eleição

Entrevista com

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Boris Fausto, historiador e ex-professor de Ciência Política da USP

Entender o Brasil de hoje seguindo as linhas do processo histórico. Essa é a proposta da série de artigos que o historiador paulista Boris Fausto, de 79 anos, publica no Estado, a partir da semana que vem. As reflexões, enfocando as transformações pelas quais passa a sociedade brasileira em suas conexões com o mundo, frequentarão uma vez por mês as páginas do caderno Aliás, que sai aos domingos.

Na entrevista a seguir, o historiador fala de seu novo projeto no Aliás e discute a sucessão presidencial. Para ele, saem da órbita do eleitor temas como corrupção e inflação para dar lugar à política externa. A esse respeito, vê "megalomania" do Itamaraty na proposta de acordo com o Irã, considera "oportunista" o convite do presidente Lula para acolher a iraniana condenada à morte e diz haver "um clima de pressões contra a livre expressão" na América Latina.

Qual será o mote da série de artigos?

As pessoas em geral têm atração por história, mas a conhecem muito pouco. A coluna pode contribuir para a sua divulgação. Eu não diria que se entende o presente a partir do passado: dificilmente a história se presta para explicar diretamente o presente. Mas não há dúvida de que as linhas básicas do processo histórico ajudam a entender o mundo onde vivemos.

Que temas serão tratados?

Nos próximos meses, pretendo escrever sobre o processo eleitoral. Há grandes temas que permanecem ao longo da história e podem ser tratados em perspectiva comparada: como o eleitorado brasileiro viu a questão da corrupção em diferentes momentos da história? Ou a corrupção, hoje, ainda importa ao eleitor?

Como o sr. responderia à questão?

Essa agenda sumiu porque, embora a corrupção tenha crescido nos últimos anos - essa é a minha opinião -, o fato é que houve um momento estratégico no qual ela foi muito importante, na crise do mensalão. Ali, ela fez cair muito a popularidade de Lula e do governo, mas por várias razões esse momento muito agudo passou. E o tema esvaziou-se. Em paralelo, vinham vindo o Bolsa-Família, as políticas de crédito, de aumento real do salário mínimo... Hoje, o que importa na decisão do eleitor é quais ganhos materiais e pessoais ele teve. E, quanto aos políticos, cristalizou-se a opinião de que todos roubam. Houve uma naturalização da corrupção.

Pode-se notar certa semelhança nas plataformas dos dois principais candidatos à sucessão de Lula, em que ambos evitam tocar em temas sensíveis. O debate nacional empobreceu ou isso é consequência da conclusão da transição democrática do País, que tem hoje economia e instituições mais estáveis?

Uma coisa é o que os candidatos fazem, outra é o que viriam a representar no poder. A democratização avançou muito, mas ela não se completa. Não só pela desigualdade, que continua, mas também por ameaças à liberdade de imprensa - um tema que o Estadão conhece bem. Há um clima na América Latina, naturalmente não em toda, mas a Venezuela é um exemplo claro disso, de pressões contra a livre expressão. Esse é um tema que merece ser posto com clareza nos debates eleitorais. O que é "controle social da mídia"? A gente quer uma pluralidade de jornais, certamente. Mas os jornais controlados, não. No terreno da economia se chegou a um razoável consenso e a situação é boa. No passado, falar da inflação era inevitável. Agora não é mais.

Um tema que não fazia parte das campanhas até este ano é diplomacia. Ele será decisivo?

Ainda não sabemos o peso que a discussão sobre política externa terá nos debates eleitorais. O tema apareceu porque o Brasil ganhou outra dimensão como emergente, potência média, o nome que se queira dar. E ganhou dimensão porque, aos olhos do governo, o presidente Lula tem prestígio externo - e Dilma deve explorar isso -, embora tenha perdido parte dele em seus últimos posicionamentos. Do ponto de vista da oposição - e concordo com isso -, um dos pontos fracos do governo Lula é a política externa. Ela está presente quando ele apoia o "companheiro Ahmadinejad" ou diz que vai salvar aquela moça, se ela estiver causando algum "incômodo". É uma piada.

Como o sr., autor de um ensaio sobre história comparada na América do Sul, vê a situação no continente? O Brasil conseguiu se firmar como potência regional?

O Brasil tem plenas condições de ser uma potência regional, mediar conflitos e conduzir negociações. Agora, para isso, seria necessária uma política de Estado diferente da que se está fazendo. Apoiar a Venezuela em circunstâncias tão difíceis, e é sabida a simpatia que os dirigentes do PT têm pelo país, é algo que perturba o papel mediador para a nossa diplomacia. Quem tem simpatia por uma figura como Hugo Chávez está ameaçado de escorregar seriamente. E a pretensão muito grande do Brasil faz com que o foco na região venha em segundo lugar.

Por outro lado, empenhou-se em uma negociação com o Irã e a Turquia e entrou na polêmica sobre a iraniana condenada à morte, Sakineh Ashtiani.

O conflito no Oriente Médio é tão antigo e complexo que foi uma espécie de megalomania supor que o Brasil de repente desatasse esse nó. Já no caso de Sakineh, eu diria que o comportamento do Brasil é errático e oportunista. Primeiro, Lula disse que intervir a favor da moça seria "uma avacalhação". De repente descobriu que os direitos humanos eram algo importante? Não dá para acreditar nisso. Em plena campanha eleitoral, diante da pressão interna e externa em defesa dessa pobre moça, o presidente se oferece para recebê-la. Alguém deve ter dito a ele, e o ministro Franklin Martins é um bom palpite: "Presidente, já imaginou a cena? A iraniana descendo do avião abraçada ao senhor?" (risos).

No livro O Poder e o Sorriso o sr. analisa a construção do mito Getúlio Vargas. Quando assumiu a Presidência, Fernando Henrique manifestou explicitamente o desejo de superar o modelo getulista. Hoje, vê-se Lula exaltar a Era Vargas. Em que nível essa herança permanece viva?

Seria preciso fazer uma pesquisa para saber a que está associado o nome Getúlio Vargas para a população. Suponho que esteja ligado à legislação trabalhista, mas posso estar errado. Já ouvi uma pessoa simples dizer, quando perguntei quem era Getúlio, "é aquele que foi ditador?". Muita água passou debaixo da ponte e o Brasil do tempo do Getúlio era muito diferente do que existe hoje. O PTB, que era tributário da herança política de Vargas, hoje tem muito pouco a ver com ela. A própria construção do Partido dos Trabalhadores, em seus anos de postura radical, esvaziou a herança getulista. Mas resiste um traço, quando uma figura personalista ao extremo, com um prestígio enorme, se projeta... E diria que se pode ver hoje também uma presença grande do Estado não na economia, mas na tentativa de modelar a cultura: um certo dirigismo ideológico que encontra resistência em uma sociedade mais complexa como a brasileira hoje.

Há quem identifique uma tendência ao estatismo no atual governo.

Depois de falarem em "privataria" e em uma porção de outras coisas antes de chegarem ao governo, a verdade é que vemos hoje o mundo da grande empresa no Brasil mais vigente e sem controles ou regulamentação do que em qualquer outro momento. É como disse Lula: "Eu ensinei capitalismo aos capitalistas". O que é, em boa medida, uma verdade. Na área econômica, a empresa privada avançou muito em associação com pedaços do Estado, partidos, PT, fundos de pensão e formou uma nova configuração. Mas que o Brasil vá se lançar à estatização novamente não acredito.

Se nos últimos anos, políticas de redução da miséria e a expansão do crédito proporcionaram um crescimento de setores médios, por outro, relatório da ONU mostrou que o Brasil tem o terceiro pior índice de desigualdade do mundo. O que falta fazer?

Lembro-me de um artigo do Wanderley Guilherme dos Santos dizendo que é tão difícil reduzir a desigualdade, que talvez fosse melhor insistir em estratégias de desenvolvimento para que todo o mundo cresça.

Que tema o sr. pretende tratar no artigo de estreia?

Quero escrever sobre estilos de campanha do passado e de hoje, algo que mudou mais do que permaneceu. No fim dos anos 40, início dos 50, para começar não existia a televisão, não havia pesquisa eleitoral e nem a massa de votantes que temos hoje. A oratória e o palanque pesavam bastante, bem mais do que hoje - quando os candidatos vão às ruas apenas para proporcionar "imagens de cobertura" aos telejornais. A diferença para o eleitor, já que a metáfora do futebol se tornou constante no Brasil, seria entre o cidadão que assistia ao jogo no estádio e o torcedor de televisão. Naquele tempo, o público discutia a partida com o cidadão ao lado, discordando, concordando, dando sua opinião. Hoje, o sujeito olha, liga ou desliga a TV, mas não participa.

QUEM É

Autor do clássico A Revolução de 30 - Historiografia e História, é bacharel em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco e mestre em história pela USP. Professor aposentado do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ganhou o Prêmio Jabuti de 1995 na categoria livro didático com História do Brasil

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