Há racismo no atendimento aos negros no SUS, diz ministro

O ministro da Saúde, Agenor Álvares, admitiu que há racismo no atendimento a negros no Sistema Único de Saúde(SUS). Essa discriminação se reflete em diagnósticos incompletos, exames que deixam de ser feitos e até na ausência do toque ao paciente, disse o ministro, citando pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz. "Esse racismo cria condições muito perversas que temos de combater fortemente. Queremos construir uma nova cultura e criar valores de solidariedade e tolerância em relação à população negra", afirmou o ministro, que participou nesta quinta-feira, 26, da abertura de seminário no Rio em que foram discutidas as bases para a nova Política Nacional de Saúde da População Negra. De acordo com Álvares, o objetivo desse programa é reduzir a incidência de Aids, tuberculose, hipertensão arterial, câncer cérvico-uterino, mortalidade materna, que têm prevalência sobre a população negra em comparação com a branca. "Se a prevalência dessas doenças é caracterizada pela falta de atendimento, essa é uma falha que temos de corrigir", afirmou. Álvares informou que o combate à discriminação inclui cursos de capacitação profissional aos médicos, enfermeiros, atendentes de instituições credenciadas ao SUS, além do incentivo à denúncia de mau atendimento à Ouvidoria Geral do Sistema Único de Saúde. A ação inclui Estados e municípios. O ministério vai destinar ainda R$ 3 milhões para 60 projetos de pesquisa que têm como foco a saúde da população negra. Os recursos serão distribuídos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. "A consolidação dos preceitos constitucionais do SUS só estará completa quando não for necessário termos de estabelecer políticas específicas para segmentos específicos da nossa população", afirmou o ministro. De acordo com a coordenadora do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do ministério, Ana Costa, o governo tem alguns dados que são indicativos do preconceito no atendimento aos negros. A taxa de mortalidade materna, por exemplo, é mais que o dobro para mulheres pretas, em comparação com as brancas (4,79 e 2, 09 mulheres por 100 mil habitantes, respectivamente). As taxas de mortalidade por contaminação de HIV também são maiores entre negras (12,29 mulheres por 100 mil habitantes) do que entre brancas (5,45), segundo dados referentes à Região Sudeste. Militantes do movimento negro comemoraram a postura do Ministério da Saúde. "O SUS foi criado para servir o cidadão, mas na verdade serve de acordo com a classe social, a cor. À medida que as novas políticas forem implantadas, acredito que vamos reverter a forma como a população negra é atendida do posto de saúde aos hospitais de alta complexidade", afirmou a coordenadora da ONG Criola, Lúcia Xavier. EstudoÀs negras e pardas, menos alívio para as dores do parto normal, e mais dificuldade na busca por atendimento médico. A constatação é de um dos estudos citados nesta quinta pelo ministro da Saúde, realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, no período entre 1999 e 2001.Depois da análise dos prontuários médicos e de entrevistas com 9.633 grávidas atendidas no município do Rio em maternidades públicas, conveniadas com o SUS e particulares, eles descobriram, por exemplo, que a anestesia foi amplamente usada em todos os grupos raciais. Porém, a proporção de mães que não tiveram acesso ao procedimento foi maior entre as negras e pardas, respectivamente, 21,8% e 16,4%.Elas também penaram muito mais na peregrinação até a sala de parto. A proporção das que não conseguiram ser atendidas na primeira maternidade procurada foi de 31,8% entre as pretas, e 28,8% entre as pardas. Já entre as mães de cor branca a taxa é expressivamente menor, de 18,5%. Entre as mulheres que tinham, pelo menos, o ensino médio completo, 78,5% das brancas consideraram a assistência ao parto ótima. Entre as pretas, porém, caiu para 55,9%. A diferença surge novamente quando avalia-se a assistência ao bebê: 77,8% ante 55,2%. E, mais uma vez, revela-se na análise do pré-natal: 76,9% das brancas o consideraram ótimo. Entre as negras, a satisfação atingiu uma proporção bem menor: 55,9%.A pesquisa demonstrou ainda outras faces do racismo na saúde. Durante a gestação, as mulheres brancas declararam ter sido menos acometidas por sífilis e doenças hipertensivas, que podem ser identificadas durante o pré-natal. Entre as negras, a incidência de problemas de pressão alta foi 50% maior do que a encontrada entre as brancas. Além disso, as médias de peso ao nascer do bebê estavam relacionadas à raça e ao grau de instrução das mães. Quanto menos educação e mais escura a cor da pele, menor a quantidade de gramas do recém-nascido. Matéria alterada às 20h28 para acréscimo de informações

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.