Hábito da leitura chega ao Campo Limpo de bicicleta

O agitador cultural Binho criou uma ?bicicloteca?, para fazer os cidadãos ?tropeçarem em livros?

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Parece uma típica banca de livros, montada ao lado de um ponto de ônibus movimentado no Campo Limpo, zona sul da capital paulista. "Aqui, meu senhor, pega esse livrinho, é só levar, vai", oferece Luan de Jesus, o atendente. "Quanto custa?", retruca o senhor, imediatamente se esquivando. Em resposta, apenas um sorriso.

Foi no ponto de ônibus na Avenida Carlos Lacerda, na frente do CEU Campo Limpo, que Robson Padial, o Binho - figura conhecida, criador do Sarau do Binho, frequentado pela vanguarda da cultura periférica paulistana -, começou, humilde, a empreitada de "levar livros aos cantos da cidade". Há duas semanas, lançou o projeto Bicicloteca: No Meio do Caminho Tinha um Livro, no qual oferece, de graça, livros a quem não tem acesso a eles. "O cidadão tem de tropeçar no livro. Assim, não larga mais", disse, orgulhoso da criação.

O nome entrega: trata-se de uma biblioteca sobre rodas, iniciativa pioneira na capital - em duas cestas adaptadas na bicicleta de carga, leva cerca de 400 livros, distribuídos a quem quiser. Basta deixar nome, telefone e compromisso de que o devolverá após o fim da leitura.

Nas proximidades dos dois pontos em que foram instaladas as magrelas, perto do CEU e de uma escola pública do bairro - de 191 mil habitantes e duas bibliotecas municipais -, a novidade faz sucesso. Principalmente para quem precisa. Na casa do menino Ederson Santos, de 11 anos, simplesmente não há livros - apenas um único gibi, presente de um vizinho. "Carrego na mochila, para não perder nunca." Estudante da 5ª série, na semana passada pegou o primeiro Monteiro Lobato. "Que capa bonita!", exclamava o garoto, com olhos arregalados. "Vai ser o primeiro de muitos."

Até aqui, 600 livros foram emprestados, cerca de 40 por dia. O acervo, de 4 mil livros, foi conseguido com doações. "Tive a ideia numa ?caminhada literária? até Cananeia. Passávamos de porta em porta, distribuindo livros, então compramos uma bicicleta para carregar", conta Binho. "Aí, deu o estalo."

Além de difundir literatura, as biciclotecas acabam suprindo lacunas. "Procurei na biblioteca da escola um livro sobre cometas, mas não tinha nada. Não imaginava encontrar aqui, antes de pegar o ônibus", disse a estudante Anizia Santos, de 18 anos,com o livro Cometas: da Noite à Ciência nas mãos.

A bicicloteca ficará nos pontos de ônibus da Avenida Carlos Lacerda (nº 678) e da Estrada do Campo Limpo (nº 1.600) por pelo menos seis meses. "O ideal é conseguir apoio para mais bicicletas circularem", disse Binho. "Esse é o sonho, para transformar pela literatura." A conta gotas, está conseguindo: o senhor do início da história, o carpinteiro Antônio Rosa, de 43 anos, que nunca entrou em biblioteca na vida, dessa vez levou o livro Modo de Produção Feudal, de Jaime Pinky - deve ser útil para pesquisa de história, lição de casa no supletivo que cursa.

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