PM Ambiental
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Helicóptero do Ibama cai no Pantanal e piloto morre no acidente

Aeronave comandada por Mauro Tadeu da Silva Oliveira, de 52 anos, apoiava o trabalho de combate a incêndio na região

André Borges, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 10h36
Atualizado 01 de dezembro de 2020 | 20h26

BRASÍLIA – Um helicóptero do Ibama caiu nesta segunda-feira, 30, quando sobrevoava a região do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, em Porto Jofre, no Mato Grosso. O piloto da aeronave, que era funcionário da empresa contratada para prestar serviços de helicóptero ao Ibama, morreu no acidente. Mauro Tadeu da Silva Oliveira, de 52 anos, era coronel da reserva do Corpo de Bombeiros. Ele era piloto desde 2005, com mais de 5 mil horas de voos. Deixou mulher e dois filhos.

O piloto tinha acabado de deixar em solo, na cidade de Porto Jofre, três tripulantes que havia transportado e partiu novamente sozinho para fazer o transporte de água - a aeronave apoiava o trabalho de combate a incêndios na região. Pouco tempo depois, Oliveira chegou a enviar uma mensagem de rádio, onde dizia que enfrentava problemas. “Tô caindo, tô caindo”, disse o piloto, segundo informação confirmada pela assessoria do Ibama.

Os três tripulantes que estavam em solo, em uma área isolada, acabaram ficando sem comunicação por um período. Como o helicóptero não retornou à base às 15h, como estava previsto, a chefia do Ibama acionou o protocolo de busca e salvamento junto à Aeronáutica, que mandou uma aeronave. Teve início uma busca pelo helicóptero.

A aeronave modelo Bell BH06 Long Ranger só foi encontrada na manhã desta terça-feira. Segundo o Ibama, não houve explosão ou fogo. O helicóptero caiu dentro de curso d’água, de ponta cabeça. O corpo do piloto estava preso, dentro da aeronave. Não há informações sobre o que teria causado o acidente e o helicóptero será periciado pelo Centro de Investigações da Aeronáutica.

O Ibama não possui helicópteros próprios. Trata-se de equipamentos alugados de terceiros. Neste último trimestre do ano, o órgão vinha atrasando uma série de pagamentos à empresa prestadora do serviço. Em outubro, as contas em aberto com helicópteros chegavam a R$ 5 milhões.

Em agosto, o Ibama decidiu reduzir o número de helicópteros que aluga para vigiar o desmatamento e as queimadas no Pantanal e Amazônia. Por determinação do Ministério do Meio Ambiente para diminuir gastos, o órgão passou a contar com quatro aeronaves para auxiliar na vigilância de uma área de 5 milhões de quilômetros quadrados. Até então, havia seis aeronaves. Servidores que atuam no setor afirmaram à reportagem que os equipamentos operam no limite, dadas as limitações das máquinas.

O responsável pelo setor alertou que as reduções trariam consequências graves para o trabalho de fiscalização, mas foi exonerado uma semana depois de encaminhar uma série de ofícios nesse sentido. Os seis helicópteros são utilizados para fiscalizar todo o País. Em época de seca, quando os incêndios proliferam na região Norte, as horas de voo dos equipamentos aumentam significativamente.

Sob o argumento de que é preciso reduzir os gastos, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, determinou ao Ibama que fizesse mais cortes, limitando o aluguel a somente quatro aeronaves porque o orçamento dos helicópteros não pode ultrapassar o custo anual de R$ 60 milhões.

Com o número atual de seis helicópteros, cada um já tinha a missão de fiscalizar cerca de 833 mil km², mais de três vezes o Estado de São Paulo. Com quatro aeronaves, esse volume sobe para 1,25 milhão de km². É como se um único helicóptero fosse usado para sobrevoar todo o Estado do Pará. O contrato atual, de seis aeronaves, vence em fevereiro do ano que vem.

Julio Cesar Basile, comandante da Força Aérea aposentado pela Polícia Federal, disse à reportagem que a redução no número de aeronaves à disposição para fiscalizar a Amazônia é "uma irresponsabilidade absurda e injustificável".

"Falar de quatro helicópteros para o Ibama fazer esse trabalho é uma vergonha, uma brincadeira. É como dizerem pra você derrubar o Pão de Açúcar com uma colher de sopa nas mãos, tendo 30 dias para isso. Vamos passar ainda mais vergonha lá fora, é um absurdo", disse Basile. "Fico em dúvida até que ponto isso é desconhecimento ou é proposital mesmo, porque tem gente ali que sabe o que está fazendo. Se não é desconhecimento, é sabotagem", afirmou Basile, criador do grupo tático aéreo no Maranhão e responsável pela criação da divisão de helicópteros do próprio Ibama, no ano 2000.

A morte do piloto amplia a tragédia humana causada pelos incêndios criminosos que tomaram a região do Pantanal neste ano, em volume recorde desde o início da série histórica, iniciada em 2009.

Dinheiro não falta

O Ministério do Meio Ambiente já tem aprovada uma ação dentro do Fundo Amazônia, programa mantido pela Noruega e Alemanha, voltada justamente para pagar contas com aeronaves e caminhonetes. Há mais de R$ 63 milhões de recursos a fundo perdido, que já poderia ter sido utilizado pelo Ibama, bastando-se que seja acionado junto ao BNDES, que é o gestor do dinheiro.

O chamado Projeto de Fortalecimento do Controle e do Monitoramento Ambiental para o Combate ao Desmatamento Ilegal na Amazônia (Profisc I-B) recebeu uma verba de R$ 140 milhões em abril de 2018, para ser usada no período de 36 meses. Até dezembro do ano passado foram desembolsados R$ 67 milhões. Neste ano, houve um único saque de R$ 10,2 milhões. Os demais R$ 63 milhões estão paralisados.

Em 9 de setembro, Luciano da Silva Beijo, 36 anos, zootecnista de uma fazenda no Mato Grosso, morreu após ser vítima de incêndio que tomava as terras da fazenda onde trabalhava, na cidade de Cáceres. Ele tentava apagar o fogo, mas tropeçou durante a ação e foi tomado pelo fogo.

No dia 1º de setembro, o analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Welington Fernando Peres Silva, morreu em Goiás, vítima de queimaduras sofridas durante uma operação realizada no Parque Nacional das Emas.

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