Herança de Mestre Salu

Um dos grandes responsáveis pela preservação e pela consolidação da diversificada cultura popular pernambucana, Manoel Salustiano da Silva, o Mestre Salu, morto em agosto do ano passado, deixou um legado que terá continuidade. A certeza é dada por 11 dos seus 15 filhos - nascidos de 9 mulheres - que herdaram sua arte da genética, convivência e ensino e selaram com ele, antes da sua morte, o compromisso de levar adiante as conquistas e criações do mestre: o cavalo-marinho Boi Matuto, o maracatu de baque solto Piaba de Ouro, a Casa da Rabeca do Brasil, na Cidade Tabajara, em Olinda, ponto de encontro de folguedos e música popular, as oficinas de dança e confecção de instrumentos e O Show Sonho da Rabeca Encantada, que Salu compôs há dois anos com a participação dos filhos-artistas. "Tudo o que ele aprendeu na faculdade da vida repassou para os filhos e cada um de nós tem um dom", afirmou Maria Imaculada, de 26 anos. "Um tem talento para a dança, outro para o improviso, outro para a música, outro é bom no bordado, outro na articulação", observa. "Com esse somatório, a família Salu representa todo o conhecimento do mestre."Imaculada, dançarina, deu entrevista ao lado de alguns dos irmãos quando se preparava para apresentar O Show Sonho da Rabeca Encantada, no palco do Fortim, em Olinda, na sexta-feira à noite, na abertura oficial do carnaval pernambucano, que tem Salu entre seus homenageados. O espetáculo é um painel dos folguedos populares nordestinos que Salu tanto lutou para preservar - ciranda, pastoril, coco, caboclinho, cavalo-marinho, maracatu de baque solto. "Tudo o que sabemos foi ele quem ensinou", afirmou Cleiton, de 31 anos, mestre de maracatu, artesão e autor de toadas. "Sem ele ficou muito difícil, mas deixou a gente pronto." FILHOSO mesmo espírito agregador e solidário que marcou a participação de Salu na arte popular foi estendido dentro de casa, na relação com os filhos. Embora de mulheres diferentes, todos são unidos e não escondem a veneração e o fascínio pelo pai, que sempre os teve junto a si e os levava para as "sambadas" (ensaios de cavalo-marinho) ou para participar de brincadeiras de outros mestres. "Ele tratava todo mundo de forma igual e ajudava a todos os mestres e artistas populares que estivessem em situação difícil", observou Pedro, o oitavo filho, músico, dançarino e produtor do show. Reconhecido como excelente dançarino, Pedro teve sua formação já acrescida de técnica. Em trocas com o multiartista Antonio Carlos Nóbrega, ensinava os passos e posturas dos folguedos populares e aprendeu técnicas corporais, de respiração e visão cênica. Ex-presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Leda Alves, amiga que acompanhou a trajetória do mestre, destaca que Salu tinha grande perspicácia e a capacidade de ver para onde cada filho podia ir. Ela exemplifica com um fato que testemunhou quando Welington, o Dinda, o 12º filho de Salu, hoje com 20 anos, tinha 4 anos e não se encaixava, num determinado momento, nas atividades praticadas pelos irmãos mais velhos. "Para integrar, dar o senso de utilidade e participação à criança, Salu determinou que Dinda ficasse encarregado de colocar a linha na agulha usada pelos outros filhos que trabalhavam na confecção de indumentárias."Salu era o eixo, era "o galo da casa", segundo os filhos, e ninguém podia falar mais alto que ele, que delegava, cobrava, convocava, era bravo e disciplinador. Semianalfabeto, de família pobre, Salu herdou do pai, João Salustiano, que ainda vive, o gosto pela rabeca. Aos 8 anos, acompanhava o pai nos encontros de cavalo-marinho ao mesmo tempo em que já trabalhava no corte da cana-de-açúcar, em Aliança, na zona da mata. A arte, dedicação e amor pelos folguedos populares o levaram a superar barreiras. Recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi reconhecido pelo seu "notório saber" pelo Conselho de Cultura de Pernambuco e em 2001 recebeu, do governo federal, o título de comendador da Ordem do Mérito Cultural. Era considerado o embaixador da cultura popular pernambucana.TALENTO"Salu tirava um som da rabeca que ninguém tirava", frisa Leda Alves. "Ele voava ao dançar, interpretando personagens do cavalo-marinho." Aos 41 anos, o mestre descobriu que tinha mal de Chagas, que afeta o coração. Passou a usar marca-passo e foi proibido de dançar. O impedimento não o paralisou. Se não podia mais dançar, podia tocar, cantar, passou a fazer rabeca, indumentárias e adereços para o maracatu e outros folguedos. Salu foi responsável pela criação da Associação dos Maracatus de Baque Solto, primeira categoria popular a ter uma entidade de classe. Ao nascer, a associação era integrada por nove maracatus de baque solto, também conhecido como maracatu rural, que tem no caboclo de lança, com seus chapéus coloridos e chocalho nas costas o personagem de mais destaque. Hoje, são 105 maracatus de baque solto no Estado, 95% deles na zona da mata norte. Leda Alves atesta: "Por mais forte que seja a nossa cultura, ela estaria menos rica se não fosse Salu."

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