Historiador faz releitura da Revolução

Livro ?1932 - Imagens de uma Revolução? desmitifica o maior conflito bélico ocorrido no Brasil no século passado

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

13 de julho de 2008 | 00h00

O historiador Marco Antonio Villa considera que o Movimento Constitucionalista de 1932 não foi devidamente analisado. Há sobre ele um "farto material pouco estudado", como se o tema fosse irrelevante ou estivesse resolvido. O livro 1932 - Imagens de uma Revolução (Imprensa Oficial), a ser lançado na próxima terça-feira, demonstra isso. O volume é recheado de fotos inéditas ou pouco vistas e o texto de Villa vai contra o reducionismo que tem dominado nas leituras de uma guerra que teve 80 mil combatentes - o maior conflito bélico travado no Brasil no século 20.Essas leituras se apresentam em duas abordagens: a dos que vêem 1932 como um gesto heróico de reação ao autoritarismo de Getúlio Vargas e a dos que o caracterizam como reação da oligarquia cafeeira ao poder federal num momento de crise econômica. Villa, por telefone, diz que seu texto faz um "breve balanço" do movimento, mas tem algumas revelações e lança luz sobre a complexidade política daquela situação. "O que as pessoas esquecem é que se tratava de um governo de exceção", aponta. "Havia restrições à liberdade de imprensa, às liberdades individuais, ao direito de manifestação. Não havia Constituição e as eleições eram fraudulentas." Nesse sentido, Villa diz que 1932 significou uma luta pela democracia, sim, em oposição à corrente de historiadores que afirmam que se tratava de um movimento conservador da República Velha; afinal, defendia o voto secreto e o feminino. Villa também mostra que negros não eram discriminados nas tropas.Lembra também que a definição do movimento como "antivarguista" deixa de lado o fato de que Getúlio tinha força em São Paulo - seria eleito senador pelo Estado em 1945. Muitos dos líderes de 1932 estariam no poder durante o Estado Novo, como Alexandre Marcondes Filho, Ademar de Barros e Francisco Costa. Intelectuais paulistas como Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia, que apoiaram o movimento, trabalhariam para Getúlio. O termo "revolução" foi usado no sentido de "movimento armado contra um governo".E Getúlio não tinha, em 1932, o poder que se atribui a ele. "Isso é anacronismo, é fazer história ?post-factum?, porque Getúlio viria a ser muito poderoso." É por aí que se deve entender o papel "decisivo" de políticos gaúchos, principalmente Flores da Cunha. Ele ameaçou apoiar São Paulo em 1932 e Getúlio fez de tudo para dissuadi-lo, inclusive convidando para ser ministro da Justiça. E Getúlio não queria São Paulo com interventores civis de relevo.Entre as revelações está um discurso do poeta Carlos Drummond de Andrade, que trabalhava no Ministério da Educação, sob ordens de Gustavo Capanema, e defendeu nas rádios a luta de Getúlio contra São Paulo. Villa recupera o livro de memórias de Orígenes Lessa, Não Há de Ser Nada, que define como um relato "crítico e irônico", raro na literatura paulista da época ("Quanto mais ia para a retaguarda, mais encontrava valentes"). No livro, em reproduções de jornais como o Estado, é possível ver que a propaganda dizia que a vitória paulista era uma questão de tempo. Não era.

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