Historiadores informais mantêm acervo online de imagens da cidade

Um grupo de apaixonados se dedica a resgatar a memória do Rio em fotografias e filmes. Garimpeiros, freqüentam sebos, bibliotecas, feiras, arquivos nacionais e internacionais em busca de imagens. O resultado do trabalho desses historiadores informais está em sites, fotologs e no YouTube. "O Brasil é conhecido como o país sem memória. Talvez, se conhecêssemos um pouco mais do que foi nossa cidade, cuidaríamos melhor do que temos", diz o advogado André Decourt, de 36 anos.Decourt mantém desde 2003 o fotolog Foi um Rio que Passou, onde publica fotografias de regiões da cidade que tiveram a arquitetura muito modificada. As fotos recentes são de uma certa Praça da Piaçava, Humaitá, cimentada nos anos 60 para a criação de praça de pedágios nunca concretizada. Para abastecer sua página, que tem cerca de 1.200 imagens e está prestes a virar site, Decourt já recorreu até mesmo ao lixo. "Já achei toda a vida de uma senhora, com certidão de nascimento e passaporte inclusive, além das fotografias, jogados fora, em Copacabana", diz. Outros pesquisadores amadores inspiraram-se no fotolog de Decourt. Páginas foram criadas por temas. O engenheiro João Novello, de 47 anos, dedica-se à aviação em Voando para o Rio. O perito em pneus Claude Fondeville, de 61 anos, especializou-se em art déco no Arqueologia do Rio de Janeiro. Há ainda o Saudades do Rio, do médico Luiz Darcy, de 59 anos, e o Saudades do Rio - O Clone, mantido por um certo "Administrador Desconhecido". Já o Carioca da Gema, mantido pelo produtor Roberto Tumminelli, de 39 anos, exibe fotos de famílias."As fotos de Augusto Malta e Marc Ferrez são lindas, mas eu costumo dizer que são fotos oficiais. Nos álbuns de família, é possível recuperar hábitos, modos de vestir e ângulos da cidade que são pouco conhecidos", afirma Tumminelli. Entre suas fotos preferidas está uma seqüência do encalhe do navio San Martin, em 1918, na Praia de Copacabana. O registro foi feito por seu bisavô. "Nunca vi essas imagens em nenhum outro lugar. E foi feito logo depois do incidente", comentou.Os historiadores informais do Rio não se limitam a postar fotografias. Investem em pesquisa. Claude Fondeville recupera a história das construções art déco, as plantas e muitas vezes fotografa o edifício nos dias de hoje, para comparação. "Já fui consultado até por estudantes alemães", conta o francês, no Brasil desde os 5 anos.O grupo começou a se corresponder por e-mail. Criou-se uma confraria. Eles até trocam "figurinhas". Fotos da família de João Novello podem ser vistas no Saudades do Rio. Quem encontra uma imagem de aviões encaminha para o engenheiro. "Nossos fotologs não têm interesse comercial. A idéia é que uma imagem levante uma discussão."

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