Histórias corriqueiras servem como inspiração

Manoel Ferreira e Ruth Amaral passam boa parte do dia sentados no sofá da sala, assistindo TV, ao lado de mais de 20 troféus de canção do ano e reis do rádio conquistados com as marchinhas de carnaval. E contam que a inspiração para os sucessos vêm de fatos banais, do cotidiano. "São quase sempre coisas corriqueiras. Isso facilita que o povo lembre das canções", explica Manoel. "E, se Deus quiser, vai lembrar ainda por muito tempo."Para comprovar, basta pedir que o casal conte a história da letra de qualquer uma das marchinhas. A "bruxa", de A Bruxa Vem Aí, era uma mulher manca (na base do saci) que sempre aparecia nas noites de carteado do pessoal da rádio. "Coitada, era só ela chegar que alguém dizia: ?Olha a bruxa aí chegando?. Como era manca, juntei com a idéia do saci, pulando em uma perna só", explica o compositor.A Pipa do Vovô, por incrível que pareça, surgiu sem malícia: Ruth viu na revista Cruzeiro a fotografia de um senhor atrapalhado tentando ensinar o neto a empinar papagaio. E pensou: "Isso dá marchinha." Levou a idéia a Manoel, que colocou sua dose de veneno na história - "A pipa não deu nem uma subidinha." A música é cantada há quase 40 anos nos bailes do Brasil inteiro. "Já podemos ser considerados clássicos", diz Ruth. Transplante Corintiano foi, digamos, assim, um insight. Em dezembro de 1967, Manoel estava em seu AeroWillis branco de estofamento vermelho, descendo a Avenida São João, no centro, quando ouviu notícia na rádio de que o primeiro transplante de coração havia ocorrido na África, realizado pelo médico sul-africano Christiaan Barnard. Corintiano, lembrou do sofrimento causado pelo jejum de títulos do seu time - o Corinthians não ganhava nada desde 1954. "Juntei uma coisa com a outra, falei com a Ruth quando cheguei em casa e pronto: deu marchinha", lembra Manoel. Outro sofrimento, a queda do time para a segunda divisão, também não deve passar em branco. Sem planos de parar de compor, a dupla adianta que já está elaborando uma nova canção para o time do coração. "Vamos fazer uma marchinha dedicada à volta para a primeira divisão", promete Ruth, sem perder a fé.

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