Histórias de mulheres no Alemão viram filme

Documentarista conviveu com moradoras do complexo de favelas; ?Encontrei guerreiras?, diz

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

11 de março de 2009 | 00h00

A fotógrafa e documentarista Dafne Capella passou dois meses convivendo com mulheres do Complexo do Alemão, conjunto de favelas na zona norte do Rio marcado pela guerra entre policiais e traficantes. Ouviu a história de mulheres que cresceram ali, outras que conseguiram se mudar, mas ainda trabalham no morro - e dramas como o da mãe que teve o filho atingido por bala perdida, preso como traficante e que acabou recebendo pedido de desculpas judiciário, após provar ser inocente. O resultado é o documentário Elas da Favela, que está sendo distribuído na Europa pela Anistia Internacional."Encontrei mulheres guerreiras, pessoas muito dignas, que se esforçam para garantir educação para os filhos, para evitar que se envolvam com o tráfico." O fio condutor do Elas da Favela são duas líderes comunitárias - Lúcia Cabral, de 42 anos, e Renata Trajano, de 29.As duas enfrentam escadarias íngremes e entram em becos para apresentar as mulheres do Alemão. Entre elas está a doméstica Josicleide Urbano, de 42. Ela conta que, certa vez, ao chegar do trabalho em dia de tiroteio, entrou pelas vielas, apesar da ordem dos policiais de descer o morro. Quando chegou em casa, viu o filho Ivo, de 17 anos, desmaiado, atingido por um tiro no braço. "Dos oito dias em que ficou preso, dois foram em delegacia. Meu filho era inocente e estava no meio de adultos criminosos." Hoje, Ivo não fala sobre o assunto nem deixa que toquem no braço. "Fiz questão que ele fosse receber o pedido de desculpa por escrito."O documentário não trata apenas da violência. Bruna, filha de Lúcia, aparece aos 18 anos, grávida. A mãe é filmada distribuindo camisinhas como bolsista do projeto de saúde sexual da Fundação Ford. "Minha filha tem informação, acesso ao preservativo, mas quis engravidar. Não adianta ter informação se é o desejo da pessoa."Dafne foi convidada pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, para fazer uma série de documentários. Elas da Favela foi o primeiro. "A intenção é que o documentário seja apresentado antes de debates, em escolas, associações", diz Dafne. Os próximos trabalhos serão sobre o sistema educacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) e o processo eleitoral.

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