Histórias de quem retrata o poder

Vazios na galeria de governadores paulistas intrigam; Serra está próximo de ser o 1.º a ser registrado ainda no cargo

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

29 Agosto 2009 | 00h00

Em 120 dias terá início o processo de criação do retrato oficial do governador José Serra (PSDB), a ser instalado no Palácio dos Bandeirantes, em galeria que abriga - ao longo de um corredor e de duas escadarias de mármore - 29 retratos dos líderes máximos do executivo estadual. Será a primeira vez que a imagem de um governante ficará pronta antes do fim do mandato, desde a criação da galeria, no governo Paulo Egydio Martins (1975-1979). Ao correr olhos pela cronológica fileira de líderes - ... André Franco Montoro, Orestes Quércia, Luiz Antônio Fleury Filho... -, percebe-se que o último quadro pendurado, no alto da escadaria norte, é de Mário Covas, instalado em 2002. O que acaba trazendo dúvidas: por que ainda não há quadro do ex-governador Cláudio Lembo? E onde está o retrato de Geraldo Alckmin?Nas galerias de pinturas do Palácio dos Bandeirantes, da Assembleia Legislativa, da Câmara Municipal - por trás das imagens das figuras públicas, há histórias para contar. Para responder questões como a que diz respeito às lacunas entre os governadores, o Estado ouviu os pintores de autoridades, artistas obrigados a entrar na agenda política em busca de uma pose ou lutar por raras sessões de fotos. Há casos em que, na impossibilidade de encontrar o retratado, os pintores escolhem uma fotografia - vale 3 x 4 - e, a partir dela, copiam a imagem a ser imortalizada.Aconteceu com Ary Queiroz de Barros, arquiteto e artista plástico, contratado pelo governo do Estado em julho de 2006 para retratar Geraldo Alckmin (2001-2002; 2003-2006). Barros tinha 70 dias e o contrato assinado era de R$ 20 mil. Alckmin, afastado do governo para fazer campanha, corria o País em busca de votos para presidente da República. Passou julho, correu agosto, chegou setembro. "Ninguém encontrava o Alckmin. Falei com o Palácio e avisei que tomaria a liberdade de escolher a foto", conta Barros, da casa-ateliê no Morumbi. "Escolhi a melhor que havia. O contrato ia vencer."Em duas semanas, começou e terminou a pintura. Pouco antes do fim do contrato, soube que Alckmin estava em São Paulo e, segurando retrato de 81 x 120 centímetros, foi até o escritório do ex-governador, na Avenida 9 de Julho, acompanhado do então diretor do acervo artístico e cultural do Palácio, Angelo Ponzoni Neto. "O Alckmin viu o retrato e virou as costas. Disse que não aceitaria e nos deixou na sala de espera", conta Barros. A pedido do diretor do acervo, o contrato foi prorrogado. E o retrato de Alckmin com fundo verde - candidato renegado à galeria do Palácio - foi guardado na casa-ateliê. Continua lá, apoiado numa parede.O contrato de Barros acabou prorrogado outras três vezes: para novembro de 2006, maio de 2007 e dezembro de 2007. "Não queria fazer sem uma foto do governador e o Palácio não a mandava." A meio caminho do fim do contrato, Barros recebeu, da Casa Civil do governo do Estado, uma salvadora foto de Alckmin. Jogou um fundo vermelho e, em menos de um mês, finalizou o que pensou ser o próximo quadro oficial do governador do Estado. Mas ouviu nova negativa. "O Alckmin alegou não ter autorizado a fotografia que a Casa Civil enviou.Eu fiz minha parte. A Casa Civil enviou, era a foto oficial." O governo, então, desistiu: pagou o pintor e prometeu que "o imbróglio se resolveria em breve". Um ano e meio depois, o segundo retrato de Alckmin continua na reserva técnica do acervo, num prédio anexo ao Palácio.Procurado desde a tarde de quinta-feira por meio da Assessoria de Imprensa, Geraldo Alckmin, hoje secretário de Desenvolvimento do governo Serra, não se pronunciou até as 21 horas de sexta. Entre funcionários do acervo artístico e cultural do Palácio, o quadro de Alckmin é assunto tabu. A única que fala a respeito é a atual curadora, Ana Cristina Carvalho. "É complicado. Temos de aliar representação fiel do governador à qualidade da arte. Às vezes, mexe com a vaidade."Na tentativa de solucionar o problema, Alckmin recorreu à família: no ano passado, pediu à cunhada, a artista Judith Ribeiro de Carvalho - irmã de sua mulher, Lu Alckmin -, para criar o quadro. Enviou a obra ao palácio e, agora, cabe ao Conselho Consultivo do acervo decidir qual pintura - o segundo quadro de Barros, contratado e pago pelo governo, ou o retrato de Judith - complementará a galeria. "Vamos chegar a um consenso. Se a opção for pelo quadro enviado pela família, encontraremos outro local para o quadro do Ary Barros, em outra casa de cultura", disse Ana Cristina. Segundo a curadora, uma reunião do conselho será marcada para "os próximos dias" para discutir a questão.O imbróglio emperrou também o quadro de Cláudio Lembo (governador entre março e dezembro de 2006), ainda não iniciado, mas com pintor e processo jurídico definidos. "Será contrato de 120 dias com o pintor Gregório Gruber e, depois, já iniciaremos o retrato de José Serra. Nesse tempo, resolveremos a questão do Alckmin", promete Ana Cristina. "É para evitar problemas assim que decidimos fazer os retratos com o governador em exercício."?MÃE RÚSSIA?A ideia de criar uma galeria no Palácio dos Bandeirantes, segundo relata o ex-governador Paulo Egydio Martins, de 81 anos, surgiu numa viagem de negócios à extinta União Soviética. "Questionei os dirigentes comunistas: por que mantinham relíquias do czarismo? Disseram que tudo era a ?Mãe Rússia? e isso não me saiu da cabeça", conta Martins. Anos depois, nomeado governador pelo presidente Ernesto Geisel, colocou o projeto em prática. Apenas seis pintores foram responsáveis por todos os retratos dos governadores. O recordista, pintor de 14 quadros, é o artista Mário Gruber, amigo de infância do governador Martins. Para retratar as autoridades, tomou por base até fotos 3 x 4. "Para completar os que faltavam, retratei 13 governadores de uma vez. Era o único jeito..."Um dos quadros de Gruber também acabou rejeitado, o de André Franco Montoro (1983-1987). "Ele não gostou da cor bege da camisa e também de não estar sorrindo. Mas ninguém na galeria sorria", diz Gruber. O novo quadro, criado por Sérgio Ferro, o levou à marca inédita: entre todos os retratados desde Prudente de Moraes (1889-1890), Franco Montoro é o único a mostrar os dentes.Na Assembleia Legislativa - cuja galeria exibe retratos dos 55 presidentes pintados por artistas como Luiz Fiore e Joseph Trabulsi -, atualmente, há novo pintor titular. É Marcus Cláudio Uva de Caldas, de 52 anos, membro da nova geração de retratistas, que viu em galerias oficiais um filão. "Percebi que poucos faziam e me ofereci", conta. Distribuiu currículo nos palácios e, até aqui, já pintou oito quadros na Assembleia e outros três na Câmara. "Participei de reunião com assessores e tirei foto na brecha entre um discurso e outro", conta."Mas não se leva posições políticas para a tela. Retratar autoridade é como retratar qualquer um." Na Câmara Municipal, a galeria de 33 retratos já foi alvo de protestos. Na década de 1990, o retrato de Eduardo Suplicy (presidente em 1988) apareceu com um rasgão de 10 centímetros, resultado do "ataque" de um manifestante. "Assustou todo mundo, a guarda foi reforçada", conta uma antiga funcionária do acervo. "Mas, nesse campo, é difícil escapar de algum problema."

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