Histórias de tiros e frutas no Mercado

Estudantes organizam visita monitorada para preservar e divulgar a memória do Mercadão de SP

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

23 de junho de 2008 | 00h00

A estudante de Turismo Fernanda Marques, de 21 anos, encosta no parapeito do mezanino, tendo à sua frente o Mercado Municipal de São Paulo. "Na Revolução de 1932, aqui era usado como depósito de alimentos e armas. Os soldados também praticavam tiro nos vitrais", explica ela. É um ensaio, mas, a partir de amanhã, começa o projeto de visitas guiadas do Mercadão. De terça a quinta, às 9 horas, Fernanda e as estagiárias de Nutrição Renata Delavy, de 22, e Carla Reis, de 24, percorrerão, com um grupo de 15 pessoas, os corredores do Mercadão. A idéia de criar o projeto foi das três, junto com a nutricionista Daniela Freitas Martins. Após a aprovação da diretoria, elas estudaram a história do local e entrevistaram os donos das bancas.A visita começa no mezanino, com a exibição de um vídeo institucional de cinco minutos. Depois, o grupo desce e percorre o Mercadão, parando em 15 boxes para ouvir detalhes sobre os alimentos, sobre o passado do lugar e histórias das pessoas que ali trabalharam. Muitas remetem a 1933, ano da inauguração. É o caso do Queijos Roni, hoje administrado pela quarta geração da família. O negócio teve início com o bisavô de Roque Bruno Tadeu Peta, que trouxe da Itália uma fórmula de ricota. Roque - desde pequeno, conhecido como Roni - cresceu vendo seu avô e depois seu pai trabalhando no Mercadão. Quando este morreu, ele era engenheiro e precisou escolher entre continuar na profissão ou comandar o tradicional negócio. Foi para o Mercado. Roni é um dos comerciantes que oferecem degustação. Ele mesmo busca uma faca e começa a partir pedaços de queijo, enquanto explica os segredos de seu produto. "A gente deixa juntar um pouco de soro na fermentação. Por isso ele fica cremoso", explica. Em outros boxes, os visitantes podem experimentar produtos raros, como o queijo holandês Old Master - um pedaço de 500 gramas custa R$ 240 -, e exóticos, como as frutas jamelão e pitaia. O comerciante Renato Rabelo Batista brinca ao oferecer seus produtos em sua peixaria. "Prova o namorado, que leva esse nome porque é bonitão", diz, segurando o peixe. Batista está no Mercadão desde 1967, quando começou como empregado em uma peixaria. "Eu tinha chegado da Bahia, de um calor infernal, para trabalhar, de bermuda e camiseta, carregando caixas de camarão congelado. Eu tremia, e todo mundo gritava: ?Vai, baiano, vai, baiano", diz ele, hoje dono de seu próprio negócio.Em todas as paradas, as monitoras dão informações nutricionais. Ao passar pelo Empório Orgânico, Renata explica a importância dos alimentos cultivados com fertilizantes naturais. As visitas guiadas pelo Mercadão são gratuitas. Mais informações pelo telefone (0xx11) 3313-7456.

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