Marco Antônio Carvalho/Estadão
Marco Antônio Carvalho/Estadão

'Hoje, não bato mais. Tenho medo da lei'

Grupos com homens autores de agressão em São Paulo debatem machismo e violência

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2016 | 03h00

SÃO PAULO - B. é o primeiro a chegar ao encontro, que ocorre em uma sala ainda enfeitada com bandeirinhas de São João aos fundos de um casarão em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. São 17h45 de uma segunda-feira quente de julho e, sem que ninguém pergunte nada, o advogado alto e robusto já sentado em uma das cadeiras ao fundo diz: “É difícil, cara. Difícil ser julgado por aquilo que te ensinaram a fazer por 30 anos, um modo de se comportar”. B. bateu na namorada e, por determinação da Justiça, participa do único grupo reflexivo de homens autores de agressão da capital paulista.

A participação no grupo não é obrigatória, mas pode ser levada em consideração pelo juiz no momento da definição da pena. A assiduidade nas conversas aumenta as chances de uma punição mais branda pelo crime cometido. Em Pinheiros, onde ocorre a iniciativa do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde desde 2009, o grupo só recebe autores de delitos considerados leves, como ameaças e lesões corporais sem gravidade. 

O funcionamento de estruturas como essa está previsto pela Lei Maria da Penha, que recomenda a criação de serviços de atenção a homens autores de violência. No Brasil, segundo estimativa do professor Adriano Beiras, do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que conduz pesquisas sobre o assunto, há 40 iniciativas similares. O grupo paulistano se reúne uma vez por semana por duas horas; a presença em 20 encontros são necessários para cumprir a orientação judicial.

Cada encontro tem um tema e, com cadeiras em círculo, o assunto é aberto para debate. O grupo por vezes inicia a conversa por conta própria e os psicólogos que coordenam o trabalho acompanham, intervindo quando necessário. Naquela segunda, após a chegada de outros 11 colegas, um deles toma a iniciativa: “Estou fora de casa desde o fim de semana, ficando com meus pais. Minha mulher começou uma briga porque viu uma mensagem da minha ex no celular, mas não tinha nada a ver. Então, ela veio para cima de mim e eu só saí de perto. Fugi. Se ela chamasse a polícia, eles nem me ouviriam porque já tenho uma ‘Maria da Penha’ nas costas. Essa decisão de sair de perto, aprendi no grupo. Se fosse como da outra vez, a gente tinha brigado feio”.

Alguns demonstram apoio. Muitos ficam calados. A conversa segue para chegar ao caso da atriz Luiza Brunet, cujo ex-companheiro havia sido denunciado por agredi-la na semana anterior e a ocorrência ganhou repercussão na mídia. A agressão foi registrada no Fórum da Barra Funda, onde funciona a vara especializada em violência doméstica da região e de onde são encaminhados todos os homens que participam do grupo. “Será que teremos um milionário entre nós? Vamos torcer”, brinca um em referência ao empresário Lirio Parisotto. 

A relação dos participantes com a mídia é reticente. Alguns demonstram o temor de serem retratados como “monstros” que agridem mulheres. Um senhor gordo, que havia chegado atrasado e puxado uma cadeira ao lado da porta, pede a palavra com a voz empostada: “Olha, eu já apareci no Datena. Me trataram como um verdadeiro monstro, enquanto ela era uma santinha. Admito que na hora perdi a cabeça mesmo e enchi ela de porrada. Me deram um espaço mínimo para explicar minha versão e a história era toda sobre o que ela estava contando. Mostraram até um pé inchado que nem toquei”. E continua: “Tem que ver isso aí. Acho que o homem quando sai do trabalho não vai no carro no caminho de casa pensando ‘ah, quando eu chegar vou bater na minha mulher’, mas a mulher fica em casa só preparando, ‘quando ele chegar, eu vou ficar provocando’”.

B. intervém. Discorda, diz que não se pode generalizar, e pondera: “Do mesmo jeito que o homem perde a cabeça, a mulher também perde. Não acho que ela fique em casa pensando nisso”. Com mais de 10 encontros no grupo, o advogado é a voz da razão entre os mais exaltados, posição que costuma partir dos recém chegados. O grupo funciona de forma aberta, ou seja, integrantes podem começar a participar enquanto outros já estão ali há mais tempo, desde que completem as 20 reuniões.

A equipe é comandada pelo psicólogo Leandro Andrade, que trabalha com grupos reflexivos de homens autores de agressão desde o fim de 2006, meses depois da aprovação da lei. Desde 2009, está no coletivo voluntariamente. Apesar de enxergar um avanço promovido pela implementação da lei, ele se classifica como um “pessimista”. “Os casos de violência ainda são frequentes e acho que ainda muita mulher vai ser agredida e que muita mulher vai ser assassinada.”

Para ele, parte do acirramento da violência pode ser explicado pela ruptura no modelo atual que está sendo promovida pelas mulheres e movimentos feministas. “Trabalhamos com o fato de que há uma dificuldade dos homens de entender a luta das mulheres, as conquistas, e eles ainda tentam enquadrar a mulher no modelo patriarcal, numa lógica hierarquizada”, diz. “E como as mulheres não estão aderindo, não estão concordando, eles entram em conflito, principalmente na gestão do dia a dia, em casa, no cuidado com os filhos, divisão de tarefas. Isso, depois de muitas tensões, acaba gerando muitas vezes violência, não só no espaço doméstico.”

O grupo, Andrade explica, tem objetivo de discutir os valores masculinos, questões de gênero e machismo, visando a atacar a desigualdade. “Estamos aqui não é para criar bons maridos, não é a nossa ideia, nem homens bonzinhos. Não estou aqui para que eles sejam bons homens para as mulheres, quero que eles sejam bons homens para eles, se repensem.”

José. A cerca de 30 quilômetros dali, no centro de Santo André, é o psicólogo Paulo Roberto Cagliari que comanda a roda de conversa do grupo “E agora José?”, em uma sala do 2.º andar da sede da Secretaria Municipal de Segurança. Com 12 homens no espaço, cada qual com uma plaquinha de cartolina pendurada no pescoço indicando o nome, Cagliari adota um tom mais palestral no início da conversa. O tema daquela noite de quarta-feira era “O significado de ser homem”. 

O grupo em Santo André existe desde 2014 e tem os participantes encaminhados a partir do Central de Penas e Medidas Alternativas da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado. A iniciativa em um espaço cedido pela Prefeitura já caminha para virar política permanente na cidade. Ao menos é o que tenta a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que deverá enviar um projeto de lei à câmara para desenvolvimento do grupo. Os encontros funcionam de forma similar ao que ocorre na capital, com 20 encontros.

O perfil lá é tão heterogêneo quanto em Pinheiros: homens com idade de 25 a mais de 60 anos, com profissões das mais diversas, como comerciante, engenheiro, pedreiro, advogado, porteiro, jornalista. E com outra característica em comum: a tendência a se vitimizar. No intervalo da dinâmica, a conversa dos participantes é sobre a gravidade da agressão e a punição adequada: “Eu só puxei ela pelo braço. Agressão seria puxar pelo cabelo e encher de porrada”. O colega completa: “Às vezes dá até vontade de ter batido mais só para receber a pena como a que estamos recebendo”. 

Cagliari avalia que o comportamento pode começar a ser alterado no decorrer das reuniões. “Todo homem que chega aqui para o primeiro encontro, ele nunca acha que fez nada. Porque agredir mulher, dominar a mulher, violentá-la faz parte da cultura, do modelo machista. Então eles não conseguem compreender que aquilo que ele fez é algo considerado crime a luz da Lei Maria da Penha. É difícil esse reconhecimento a priori. Outros se acham injustiçados.”

Tanto o psicólogo em Santo André como o de São Paulo concordam que o tempo estimado, 20 reuniões, é pouco para promover mudanças profundas, mas mantêm a avaliação positiva. O objetivo é, sim, chegar a uma mudança de postura, comportamento. É claro que 20 encontros seria muita pretensão de mudar valores, comportamento que foram adquiridos ao longo da história. É uma pretensão, mas estamos conseguindo alguns resultados bastante significativos”, diz Cagliari.

Leandro Andrade ratifica. “Um indicador não é se o cara sai daqui repensando se ele vai ou não mais bater na mulher. Claro que a gente não quer que isso aconteceça. Mas a ideia é repensar: ‘quais outros tipos de comportamento eu tenho para lidar com a minha masculinidade?’ , lidar com os conflitos. A questão maior é essa”, diz. “É necessário sair de uma lógica dicotômica, de ou é macho ou não é nada, ou é veado, ou é ninguém. Sair dessa lógica para entrar numa lógica mais eclética, com maiores possibilidades de lidar com sua masculinidade.”

A reflexão parece funcionar de diferentes formas nos homens que participam dos encontros. Em Pinheiros, um deles, que chegou a ser preso provisoriamente, diz que tem “medo”. “Hoje, eu não encosto mais um dedo numa mulher. Não é por nada, mas por causa da lei. Hoje, tenho medo de mulher”. 

Para B., a reflexão parece ter ido além. Ele conta ao fim da reunião que sua nova companheira é feminista e que, para a filha, dá diariamente um conselho: “Se um homem um dia encostar em você, vá correndo para a delegacia.’”

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