Homem atira em 5 parentes e se mata

Em depressão, ex-seminarista matou a mãe e disparou contra a mulher e os 3 filhos - eles estão em estado grave

Brás Henrique, FRANCA, O Estadao de S.Paulo

25 Outubro 2008 | 00h00

Helder Massucato Rezende, de 45 anos, atirou na cabeça da mãe, da mulher e dos três filhos, ontem, antes de se suicidar. A tragédia aconteceu na casa dos pais dele, no centro de Franca, região de Ribeirão Preto. Sua mãe, Lourdes Massucato Rezende, de 74 anos, morreu. Sua mulher e os três filhos, com perda de massa encefálica, estavam, até as 20h30 de ontem, em estado gravíssimo na Santa Casa local, respirando com a ajuda de aparelhos. O único que escapou dos tiros é Augustinho Rezende de Araújo, de 78 anos, pai do autor dos disparos. Segundo um parente que pediu anonimato, ele tinha ido a um açougue. Helder e a família moravam na casa de Augustinho havia 15 dias. O motivo era o estado depressivo de Helder, que jamais trabalhou. Na adolescência, estudou Teologia e Filosofia. Ex-seminarista, teria até realizado casamentos, embora não tivesse sido ordenado padre. Depois, namorou a cabeleireira Valéria Gomes Freitas, hoje com 37 anos, com quem teve as gêmeas Letícia e Júlia, de 11, e Alexandre, de 7. Mas ele teve problemas com alcoolismo pelo menos até um ano atrás, e parentes de Valéria (que sustentavam a família, com ajuda de Augustinho) disseram à polícia que ele também usava drogas. A tragédia aconteceu por volta de 9h15. Parentes e vizinhos ouviram tiros. O comerciante José de Souza Andrade, de 53 anos, cunhado de Helder, mora ao lado e mantém seu estúdio fotográfico em frente. Ao lado do estúdio mora José Augusto, o terceiro filho do corretor de imóveis Augustinho, que sustenta boa parte da família com a renda de cerca de 30 casas alugadas. "Não foi crime financeiro ou passional, foi um momento de loucura. É um psicopata que estava com muita depressão", disse Andrade. José Augusto, abalado, não quis falar. Andrade foi o primeiro a chegar. Ele viu Valéria caída na sala, que tinha sido revirada. Acreditando que Helder estivesse armado, chamou o resgate, que encontrou as gêmeas num dos quartos, o menino no outro e Lourdes e Helder no corredor, mortos. A PM cercou as redondezas, acreditando que o autor dos tiros pudesse estar vivo e em fuga. Helder usou um revólver calibre 32, gravado com o nome do pai (que teria porte). "Ele tinha dupla personalidade (bipolaridade) e não aceitava ser medicado. E mesmo quando estava bom, era agressivo", disse Andrade. "Ele era inteligente, mas perigoso", emendou o cunhado. Outro parente conta que "ele era bacana, esclarecido, com boa cultura, mas nunca trabalhou. Ele só falava de Deus e dizia que, quando o pai morresse, daria a herança para creches, ajudaria os pobres. Mas ele mesmo sempre foi ajudado". Para ele, Helder era "esquisitão", difícil de manter um diálogo prolongado e consistente. Mas via Helder sempre levando e buscando as filhas na escola. Para esse parente, que ficou sabendo da tragédia pelo rádio, o desfecho pode ter tido relação com o fato de Helder não ter se tornado padre. A família até evita falar disso. "Vi fotos dele fazendo dois casamentos", assegurou. O vizinho Ramon Capel Berdu afirmou que presenciou Helder celebrando um casamento há mais de 20 anos. Ao voltar para casa, Augustinho viu a multidão. "Ele matou a mãe e a família", teria dito a José Augusto, segundo o parente. Augustinho, em choque, foi levado à Santa Casa, onde foi sedado; depois, foi para a casa de Andrade. "Ele falou que, se mulher tivesse morrido, também morreria", disse o parente. "Ele está lúcido, mas com extremo ódio do filho e sentindo a perda da mulher, que cuidava deles e de seus medicamentos para hipertensão e diabetes", explicou Andrade. Os corpos de Helder e Lourdes serão sepultados hoje. O parente acredita que Augustinho não vá ao velório. O delegado do Setor de Homicídios da Delegacia de Investigações Gerais, Márcio Murari, disse que ouvirá parentes e vizinhos. Parentes de Valéria informaram a Murari que Helder tomava medicamento controlado, para depressão. Murari não crê em crime premeditado. O neurocirurgião Sinésio Grace Duarte operou Valéria, Júlia e Alexandre - pela extensão de seu quadro clínico, a menina Letícia não foi operada. Segundo Duarte, as crianças estavam, ontem, em coma profundo. "As cirurgias foram apenas para uma limpeza no local e parada do sangramento." Valéria teve períodos de consciência na chegada ao hospital e, apesar da penetração do projétil no crânio, seu estado é "relativamente bom" - mas ainda há risco de morte.

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