Twitter/Reprodução
Vídeo compartilhado nas redes sociais mostra agressões a homem negro no estacionamento do Carrefour Twitter/Reprodução

Homem negro é espancado e morto por segurança e policial em Carrefour de Porto Alegre

João Alberto Silveira Freitas tinha 40 anos; dois suspeitos foram presos em flagrante e responderão por homicídio triplamente qualificado

Mariana Hallal, Priscila Mengue e Ana Paula Niederauer, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 01h04
Atualizado 20 de novembro de 2020 | 20h45

Um homem negro foi espancado e morto por dois homens brancos em uma unidade do supermercado Carrefour no bairro Passo D'Areia, na zona norte de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite de quinta-feira, 19, véspera do Dia da Consciência Negra. Um dos agressores era segurança do local e o outro, um policial militar temporário. A vítima, João Alberto Silveira Freitas, tinha 40 anos.

A Polícia Civil do Estado investiga o crime. Os dois homens foram presos em flagrante. O segurança, da empresa Vector, permanece no Palácio da Polícia de Porto Alegre, enquanto o policial foi encaminhado para um presídio da Brigada Militar (BM). Uma manifestação em frente ao supermercado está prevista para as 18 horas desta sexta-feira, 20.

Ao 'Estadão', João Batista Rodrigues Freitas, de 65 anos, lamentou a morte de seu filho. "Nós esperamos por Justiça. As únicas coisas que podemos esperar é por Deus e pela Justiça. Não há mais o que fazer. Meu filho não vai mais voltar", disse. 

À reportagem, o pai descreveu a vítima como um homem tranquilo. "Eles (Freitas e a esposa) frequentavam o mercado quase todos os dias. Ele até me incentivou a fazer um cartão do mercado."

O sepultamento está marcado para as 16 horas desta sexta-feira, 20, no Cemitério São João, no IAPI, também na zona norte da capital do Rio Grande do Sul. O Dia da Consciência Negra não é feriado no Rio Grande do Sul.

Em nota, o Carrefour disse que considerou a morte "brutal" e disse que "adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos". Afirmou também que vai romper o contrato com a empresa responsável pelos seguranças e que o funcionário que estava no comando da loja durante o crime "será desligado". O grupo disse ainda que a loja será fechada em respeito à vítima e que dará o "suporte necessário" à família da vítima (leia mais abaixo).

Em vídeo nas redes sociais, o governador gaúcho, Eduardo Leite (PSDB), disse que o caso deixa a todos "indignados" pelo "excesso de violência que levou à morte de um cidadão, negro". "Todas as circunstância em que esse crime aconteceu estão sendo apuradas para que sejam punidos os responsáveis. Os inquéritos policiais estão sendo levados adiante, com muito rigor", acrescentou. 

Na mesma gravação, a chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul, delegada Nadine Anflor, diz que os dois homens gravados nas agressões responderão a homicídio triplamente qualificado. "Por asfixia,  por impossibilidade de resistência da vítima. As imagens são muito chocantes", comentou. Ela também se refere ao caso como de racismo. "A Polícia Civil hoje dá uma resposta a essa intolerância que aconteceu ontem."

Comandante da Brigada Militar, Rodrigo Mohr Picon, destacou que um policial militar temporário (função exercida por um dos agressores) somente pode realizar funções administrativas e não participativa de policiamento nas ruas. "Ele deve ser retirado da corporação e responder civilmente pelo crime."

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram parte das agressões e o momento que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das gravações, o homem é derrubado e atingido por ao menos 12 socos. Ao fundo, uma pessoa grita "vamos chamar a Brigada (Militar)".

Uma mulher vestindo uma camisa branca e um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação. Ela já foi identificada e será ouvida. Outro registro  mostra a vítima desacordada, enquanto há marcas de sangue no chão.

'Imagens horripilantes'

​Em entrevista ao Estadão, o vice-governador do Rio Grande do Sul e secretário estadual da Segurança Pública, Ranolfo Vieira Júnior, disse  ter ficado chocado com as imagens de agressão. "Sou delegado da Polícia Civil, tenho experiência de 30 anos na área de segurança e os vídeos pra mim falaram por si só. Aquelas imagens são horripilantes. É a denominação que eu tenho para aquilo. Embora tenha experiência, estou chocado, tive dificuldades para dormir", disse.

Ele informou que foi comunicado sobre o crime às 22h20 desta quinta e que acompanhou de maneira remota – por estar com covid-19 – a prisão, investigação e o flagrante. "Ficou determinado a apuração absoluta dos fatos. Já tem dois indivíduos recolhidos, perfeitamente identificados; já houve a atuação em flagrante pela prática de homicídio triplamente qualificado", afirmou.

Para Vieira Júnior, nada justifica a ação dos agressores. "Nós estamos apurando ainda o que ocorreu dentro do mercado. Parece que houve um desentendimento entre a vítima e funcionários do mercado, que de qualquer forma não justifica em nada a ação como um todo", disse.

Segundo o vice-governador, foi instaurado um processo administrativo disciplinar em relação ao caso do policial militar temporário. "É um processo sumário em razão dessa precariedade do contrato com base exatamente no flagrante. No máximo em 10 dias já temos a solução desse caso. Mas acredito que vai ser demitido sumariamente", disse Vieira Júnior.

De acordo com o delegado Leandro Bodoia, plantonista da Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), testemunhas disseram que João Alberto fez "gestos agressivos" dentro do supermercado ao passar as compras no caixa. "Não foi nada muito grave", diz o delegado.

Neste momento, os seguranças foram chamados e o conduziram para fora da loja. A esposa da vítima seguiu dentro do estabelecimento, finalizando a compra.

Segundo Bodoia, câmeras de segurança mostraram o homem desferindo um soco no segurança. Neste momento teria começado uma série de agressões. Uma ambulância do Samu foi ao local e tentou reanimá-lo, mas ele não resistiu.

O delegado afirma ainda que nenhuma arma foi usada no crime. A perícia no local foi realizada no fim da noite de quinta-feira. A polícia vai analisar as imagens de câmeras de segurança e de testemunhas e vai colher depoimentos.

O caso foi encaminhado para a 2ª Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP), sob a responsabilidade da delegada Roberta Bertoldo, que prosseguirá com a investigação dos fatos.

"A gente gritava 'tão matando o cara', mas continuaram até ele parar de respirar", diz testemunha

Vizinho da vítima, Paulão Paquetá contou ao 'Estadão' ter testemunhado as agressões. “Estava chegando no local na hora das agressões. Eu estava a uns 10 metros quando começou. Tentamos intervir, mas não conseguimos”, relata. 

Paulão diz que a esposa da vítima também viu o espancamento, mas foi impedida de intervir. “Ela viu o marido sendo morto.”

Segundo ele, cerca de outros oito seguranças ficaram no entorno da área, impedindo a aproximação das pessoas que tentavam parar com as agressões. “Não pararam. A gente gritava ‘tão matando o cara’, mas continuaram até ele parar de respirar, fizeram a imobilização com o joelho no pescoço do Beto, tipo como foi com o americano (George Floyd, morto por policiais neste ano nos Estados Unidos).”

Presidente da Associação de Moradores e Amigos do Obirici, Paulão estima que as agressões duraram cerca de 7 minutos. Ele diz que motoboys que filmaram a violência tiveram os celulares tomados para não registrar toda a ação. “Quando viram que ele parou de respirar, se apavoraram. Chamaram a Brigada (Militar), que isolou ali e a Samu tentou reanimar.”

Segundo o líder comunitário, a vítima morava no IAPI, bairro nas proximidades do supermercado. “Não é primeira ocorrência do tipo. É a primeira de óbito. Todo mundo sabe que são agressores (seguranças do local) mesmo.”

“É muito difícil. Revolta pela maneira que ele foi morto brutalmente. Ser humano nenhum merece ser agredido daquela jeito, ter a vida ceifada de maneira tão brutal, tão animal.”

João Alberto – ou Beto, como era conhecido – era torcedor do São José, time porto-alegrense da série C do Campeonato Brasileiro. Ele era integrante da torcida Os Farrapos.  Nas redes sociais, o clube lamentou a morte do torcedor. “Mais um caso de violência que escancara a desigualdade de direitos que permeia o dia a dia da sociedade. Seja no futebol ou fora dele, o preconceito estrutural está presente, como uma chaga que cura”, publicou.

Posicionamento do Carrefour

Leia a nota na íntegra:

"O Carrefour informa que adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso. Também romperá o contrato com a empresa que responde pelos seguranças que cometeram a agressão. O funcionário que estava no comando da loja no momento do incidente será desligado. Em respeito à vítima, a loja será fechada. Entraremos em contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário.

O Carrefour lamenta profundamente o caso. Ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio, iniciamos uma rigorosa apuração interna e, imediatamente, tomamos as providências cabíveis para que os responsáveis sejam punidos legalmente.

Para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais".

Na tarde desta sexta-feira, 20, o Carrefour divulgou nova nota afirmando que doará todo o resultado de suas lojas nesta sexta para movimentos de combate ao racismo e que no sábado, 21, todas as lojas abrirão duas horas mais tarde para que, "nesse tempo", sejam reforçados o cumprimento das normais de atuação exigidas pela empresa a seus funcionários e terceirizadas de segurança. Veja a nota na íntegra:

"Após a lamentável e brutal morte do senhor João Alberto Silveira Freitas na loja em Porto Alegre, no bairro Passo D’Areia, o Carrefour informa que:

- Definiu que todo o resultado de lojas Carrefour no Brasil nesta sexta-feira, 20 de novembro, será revertido para projetos de combate ao racismo no país. O valor será destinado de acordo com orientação de entidades reconhecidas na área. Essa quantia, obviamente, não reduz a perda irreparável de uma vida, mas é um esforço para ajudar a evitar que isso se repita;

- amanhã, 21/11, todas as lojas do Grupo em todo o Brasil abrirão duas horas mais tarde para que neste tempo possamos reforçar o cumprimento das normas de atuação exigidas pela empresa a seus funcionários e empresas terceirizadas de segurança;

- estamos buscando contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário neste momento difícil;

- a loja do bairro Passo D’Areia será mantida fechada;

Todas essas ações complementam as decisões já anunciadas de rompimento de contrato com a empresa que responde pelos seguranças envolvidos no caso e de desligamento do funcionário que estava no comando da loja no momento do ocorrido.

Reiteramos que, para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que ocorreu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais."

Posicionamento do Grupo Vector, empresa terceirizada de segurança

"O Grupo Vector, através de seu advogado, vem a público informar que lamenta profundamente os fatos ocorridos na noite de 19/11/2020, se sensibiliza com os familiares da vítima e não tolera nenhum tipo de violência, especialmente as decorrentes de intolerância e discriminação.

Informa que todos seus colaboradores recebem treinamento adequado inerente as suas atividades, especialmente quanto à prática do respeito às diversidades, dignidade humana, garantias legais, liberdade de pensamento, ideologia política, bem como à diversidade racial e étnica.

A empresa já iniciou os procedimentos para apuração interna acerca dos fatos e tomará as medidas cabíveis, estando à disposição das autoridades e colaborando com as investigações para apuração da verdade."

Histórico

Outro fato semelhante aconteceu no supermercado Extra, do grupo GPA, em fevereiro do ano passado. Pedro Gonzaga, um jovem negro de 19 anos, foi imobilizado e morto por um segurança de uma unidade do Rio de Janeiro. Na época, imagens mostravam o segurança deitado sobre o jovem, que estava aparentemente desacordado. As investigações apontaram que a vítima não portava armas e não oferecia risco algum.

Esta também não é a primeira vez que o Grupo Carrefour protagoniza uma história de agressão. Em dezembro de 2018, um outro segurança do supermercado que trabalhava em uma unidade de Osasco (SP) confessou ter envenenado um cachorro e, depois, o espancou até a morte. Meses depois, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) estipulou que o Carrefour deveria pagar R$ 1 milhão em razão dos maus-tratos cometidos pelo funcionário. O fato gerou grande mobilização nas redes sociais..

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‘Nós esperamos por Justiça’, diz pai de homem morto em Carrefour de Porto Alegre

João Batista Freitas conta que filho fazia compras quase todos os dias no supermercado em que foi agredido; 'Esse crime teve um grau de racismo. Não é possível uma pessoa ter tanta fúria de outra pessoa', desabafou

Ana Paula Niederauer e Lucas Rivas, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 11h36
Atualizado 20 de novembro de 2020 | 20h47

PORTO ALEGRE - João Batista Rodrigues Freitas, de 65 anos, lamentou nesta sexta-feira, 20, a morte de seu filho, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, espancado e morto no estacionamento do Carrefour Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegrena quinta-feira, 19, véspera do Dia da Consciência Negra. 

"Nós esperamos por Justiça. As únicas coisas que podemos esperar é por Deus e pela Justiça. Não há mais o que fazer. Meu filho não vai mais voltar", disse ao Estadão

Segundo Freitas, enquanto estava sendo agredido, o filho tentou pedir socorro à mulher, Milena Borges Alves. "Ela me contou que o segurança apertou o meu filho contra o chão, e ele já estava roxo. Fazia sinal com a mão para ela fazer alguma coisa, tirar o cara de cima e um outro segurança empurrou a Milena."

 

Na entrada do Departamento Médico Legal, ele relatou que estava num culto evangélico quando recebeu a ligação da nora pedindo por ajuda no supermercado. “Foi uma coisa horrível. Espero que ninguém passe por isso. Perder o filho daquela maneira, sendo agredido bruscamente por facínoras. Chamar aquilo de segurança é desmerecer os verdadeiros seguranças. Eu não sei o que leva as pessoas a agir desta forma. Para mim este crime teve um grau de racismo. Não é possível, uma pessoa ter tanta fúria de outra pessoa. Espero que a Justiça seja feita”, desabafou.

 “Quando eu cheguei os paramédicos já estavam nos últimos atendimentos. Logo em seguida, ele não teve mais recuperação. Agora, não temos mais o que fazer”, disse emocionado.

À reportagem, o pai descreveu o filho como um homem tranquilo. Além disso, comentou que a vítima e a esposa há anos fazem compras no mesmo supermercado. "Eles frequentavam o mercado quase todos os dias. Ele até me incentivou a fazer um cartão do mercado. Nunca tivemos problemas e nunca discutimos ou batemos em ninguém.”

O sepultamento está marcado para as 16 horas desta sexta-feira, 20, no Cemitério São João, no IAPI, também na zona norte da capital do Rio Grande do Sul. O Dia da Consciência Negra não é feriado no Rio Grande do Sul.

Negro, João Alberto Freitas foi espancado e morto por dois homens brancos, um deles é segurança do local, pela empresa Vector, enquanto o outro é um policial militar temporária que fazia compras no supermercado. 

A Polícia Civil do Estado investiga o crime, tipificado como homicídio triplamente qualificado. Os dois homens foram presos em flagrante. Uma manifestação em frente ao supermercado está prevista para as 18 horas desta sexta-feira, 20.

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram parte das agressões e o momento que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das gravações, o homem é derrubado e atingido por ao menos 12 socos. Ao fundo, uma pessoa grita "vamos chamar a Brigada (Militar)".

Uma mulher vestindo uma camisa branca e um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação. Ela já foi identificada e será ouvida. Outro registro  mostra a vítima desacordada, enquanto há marcas de sangue no chão.

Vizinho da vítima, Paulão Paquetá contou ao 'Estadão' ter testemunhado as agressões. Segundo ele, outros seguranças ficaram no entorno da área, impedindo a aproximação das pessoas que tentavam parar com as agressões. 

“Não pararam. A gente gritava ‘tão matando o cara’, mas continuaram até ele parar de respirar, fizeram a imobilização com o joelho no pescoço do Beto, tipo como foi com o americano (George Floyd, morto por policiais neste ano nos Estados Unidos).”

Paulão estima que as agressões duraram cerca de 7 minutos. Ele diz que motoboys que filmaram a violência tiveram os celulares tomados para não registrar toda a ação. “Quando viram que ele parou de respirar, se apavoraram. Chamaram a Brigada (Militar), que isolou ali e a Samu tentou reanimar.”

Em nota, o Grupo Carrefour considerou a morte "brutal" e disse que "adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos". Afirmou também que vai romper o contrato com a empresa responsável pelos seguranças e que o funcionário que estava no comando da loja durante o crime "será desligado". O grupo disse ainda que a loja será fechada em respeito à vítima e que dará o "suporte necessário" à família da vítima.

Protestos

Uma série de manifestações contra o assassinato brutal de João Alberto estão previstas para ocorrer em Porto Alegre. Pela manhã, os cinco vereadores negros, eleitos no último domingo, realizaram um ato em frente ao Carrefour. A maior bancada negra eleita da história da capital prestou solidariedade aos familiares e amigos da vítima e disparou contra o racismo estrutural do Brasil. Na manifestação, a vereadora mais votada, a professora negra Karen Santos (PSOL).

“Ontem à noite, nós fomos surpreendidos por este assassinato brutal, que é algo reincidente em um país que assassina todos os dias jovens negros e pessoas negras. É uma política genocida. A nossa intenção hoje, antes de tudo, é prestar solidariedade e empatia e dizer que não importa a gente ter cinco vereadores (negros) eleitos, se a gente vai seguir dentro de um país racista, com o racismo institucionalizado. O que aconteceu no Carrefour não é uma ação isolada”, afirmou. No fim da tarde, um novo protesto também está marcado para ocorrer em frente ao hipermercado. 

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Morte no Carrefour: 'A gente gritava tão matando o cara, mas continuaram até ele parar de respirar'

João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi morto no estacionamento de supermercado de Porto Alegre; vizinho diz que outros seguranças impediram testemunhas de parar agressões

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 09h48

Vizinho da vítima, Paulão Paquetá contou ao Estadão ter testemunhado o empancamento e a morte de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, em um supermercado Carrefour de Porto Alegre na noite de quinta-feira, 19. “Estava chegando no local na hora das agressões. Eu estava a uns 10 metros quando começou. Tentamos intervir, mas não conseguimos”, relata. 

Paulão diz que a esposa da vítima, um homem negro, também viu o espancamento, mas foi impedida de intervir. “Ela viu o marido sendo morto", lamenta. 

Segundo ele, cerca de outros oito seguranças ficaram no entorno da área, impedindo a aproximação das pessoas que tentavam parar com as agressões. “Não pararam. A gente gritava ‘tão matando o cara’, mas continuaram até ele parar de respirar, fizeram a imobilização com o joelho no pescoço do Beto, tipo como foi com o americano (George Floyd, morto por policiais neste ano nos Estados Unidos).”

Presidente da Associação de Moradores e Amigos do Obirici, Paulão estima que as agressões duraram cerca de 7 minutos. Ele diz que alguns motoboys que filmaram a violência tiveram os celulares tomados para não registrar toda a ação. “Quando viram que ele parou de respirar, eles se apavoraram. Chamaram a Brigada (Militar), que isolou ali e a Samu tentou reanimar.”

Segundo o líder comunitário, a vítima morava no IAPI, bairro nas proximidades do supermercado. “Não é primeira ocorrência do tipo. É a primeira de óbito. Todo mundo sabe que são agressores (seguranças do local) mesmo.”

“É muito difícil. Revolta pela maneira que ele foi morto brutalmente. Ser humano nenhum merece ser agredido daquela jeito, ter a vida ceifada de maneira tão brutal, tão animal.”

O homem foi espancado e morto por dois homens brancos no estacionamento do Carrefour Passo D'Areia, na zona norte da capital gaúcha na véspera do Dia da Consciência Negra. Informações preliminares apontam que um dos agressores é segurança do local, pela empresa Vector, e o outro é um policial militar temporário que fazia compras no local. Ambos foram detidos. Uma manifestação em frente ao supermercado está prevista para as 18 horas desta sexta-feira.

Ao 'Estadão', João Batista Rodrigues Freitas, de 65 anos, lamentou a morte de seu filho. "Nós esperamos por Justiça. As únicas coisas que podemos esperar é por Deus e pela Justiça. Não há mais o que fazer. Meu filho não vai mais voltar", disse. 

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram parte das agressões e o momento que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das gravações, o homem é derrubado e atingido por ao menos 12 socos. Ao fundo, uma pessoa grita "vamos chamar a Brigada (Militar)".

Uma mulher vestindo uma camisa branca e um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação. Ela já foi identificada e será ouvida. Outro registro  mostra a vítima desacordada, enquanto há marcas de sangue no chão.

À reportagem, o pai descreveu a vítima como um homem tranquilo. "Eles (Freitas e a esposa) frequentavam o mercado quase todos os dias. Ele até me incentivou a fazer um cartão do mercado."

O sepultamento está marcado para as 16 horas desta sexta-feira, 20, no Cemitério São João, no IAPI, também na zona norte da capital do Rio Grande do Sul. O Dia da Consciência Negra não é feriado no Rio Grande do Sul.

Em vídeo nas redes sociais, o governador gaúcho, Eduardo Leite (PSDB), disse que o caso deixa a todos "indignados" pelo "excesso de violência que levou à morte de um cidadão, negro". "Todas as circunstância em que esse crime aconteceu estão sendo apuradas para que sejam punidos os responsáveis. Os inquéritos policiais estão sendo levados adiante, com muito rigor", acrescentou. 

Na mesma gravação, a chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul, delegada Nadine Anflor, diz que os dois homens gravados nas agressões responderão a homicídio triplamente qualificado. "Por asfixia,  por impossibilidade de resistência da vítima. As imagens são muito chocantes", comentou. Ela também se refere ao caso como de racismo. "A Polícia Civil hoje dá uma resposta a essa intolerância que aconteceu ontem."

 

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Veja outros casos de agressões a negros no Brasil neste ano

Vereadora foi atacada por perfil falso e publicitário foi agredido no centro de São Paulo

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 11h59

Nos últimos meses, casos de agressão e ameaças a negros ocuparam o noticiário. Primeira negra eleita vereadora na cidade de Joinville (SC), Ana Lucia Martins (PT) foi alvo de ataques racistas nas redes sociais nesta semana. Um perfil falso, de pessoas que se dizem membros de uma denominada “juventude hitlerista”, publicaram mensagens de ódio e com ameaças de morte. “Agora só falta a gente m4t4r el4 e entrar o suplente que é branco (sic)”, dizia uma das mensagens. Ela registrou boletim de ocorrência.

No dia 4 de outubro, o publicitário Robson Vieira, de 33 anos, foi agredido com socos e chutes por três homens enquanto passeava com o seu cachorro na Rua Martins Fontes, na Consolação, região central de São Paulo. A agressão foi filmada por moradores de um dos prédios vizinhos e as imagens ganharam repercussão, com pedidos de punição aos agressores. Eles foram detidos, mas liberados após registro da ocorrência na delegacia. 

Robson afirmou em rede social que o motivo da agressão foi o fato de ser gay e negro. "Eu estava passeando na rua e eles começaram a me insultar me chamando de negro safado e vieram para cima de mim", diz. 

No Rio de Janeiro, o jovem Matheus Fernandes, de 18 anos, foi ao shopping para trocar um relógio que daria de presente ao pai. Entregador de comida por aplicativo, ele foi rendido e ameaçado por dois homens que se identificaram como policiais enquanto aguardava atendimento em uma loja do Ilha Plaza Shopping, na Ilha do Governador (zona norte do Rio), em 6 de agosto.

“Eles tiraram foto minha, e eu senti que tinha alguma coisa errada”, contou o entregador em um vídeo divulgado pelas redes sociais. “Eles vieram falar que eu era suspeito de furto, porque estava com um relógio, mesmo tendo a etiqueta e a nota fiscal. Aí disseram que eu sou suspeito de furto, e começaram a me segurar, empurrar, balançar. Quando menos esperei, o rapaz da camiseta vermelha me deu uma banda, sacou a pistola pra cima de mim, botou a pistola aqui (aponta a cabeça), pensei que ele ia me matar. Eu comecei a gritar, para ver se alguém que me conhecia tomava alguma providência".

Mais casos

 Em agosto deste ano, funcionários de uma unidade do Carrefour no Recife (PE) cobriram com guarda-sóis e caixas de papelão o corpo de um promotor de vendas que morreu durante o trabalho. O supermercado continuou em funcionamento. 

Em setembro do ano passado, um jovem negro de 17 anos foi torturado após ter sido flagrado roubando uma barra de chocolate no supermercado Ricoy, na Zona Sul de São Paulo. A vítima relatou ter sido despida, amordaçada, amarrada e na sequência ter sido torturada com um chicote de fios elétricos trançados. A Justiça de São Paulo inocentou os ex-seguranças Davi de Oliveira Fernandes e Valdir Bispo dos Santos da acusação de tortura.

Em fevereiro do ano passado, um jovem negro de 19 anos morreu após ser asfixiado por um segurança no supermercado Extra, na unidade da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. No mês seguinte, um homem negro de 38 anos foi torturado e filmado por funcionários do supermercado Extra do Morumbi, zona sul da cidade de São Paulo. Ele tinha tentado furtar um pedaço de carne. Os seguranças o amarraram, tiraram suas calças e deram choques e vassouradas.

Também em março do ano passado, Luis Carlos Gomes, negro, tomou uma lata de cerveja no interior da unidade do Carrefour do bairro Demarchi, em São Paulo. Mesmo após informar que iria pagar pelo item consumido, foi perseguido e agredido por um segurança e o gerente do supermercado. Ele teve múltiplas fraturas.

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Autoridades e famosos lamentam morte de homem negro no Carrefour; caso repercute fora do País

João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado e morto no estacionamento de supermercado de Porto Alegre; dois suspeitos foram presos em flagrante e responderão por homicídio triplamente qualificado

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 13h14

A morte de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, homem negro espancado e morto no estacionamento de um supermercado Carrefour da zona norte Porto Alegre na quinta-feira, 19, foi lamentada por autoridades e personalidades nas redes sociais, como mais um exemplo de violência racial no País. 

O caso também ganhou repercussão internacional, em que foi destacado que ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta-feira, 20, data que é feriado em alguns locais do País, mas não no Rio Grande do Sul. No Brasil, a hashtag #VidasNegrasImportam é uma das mais utilizadas desde o início da manhã, assim como a #JusticaporBeto.

No Twitter, o Instituto Marielle Franco, criado pela família da vereadora morta no Rio, lamentou o caso. “Mais uma pessoa negra que é assassinada em um supermercado, um dia antes do dia da consciência negra. Até quando nossas vidas serão descartáveis assim? O Carrefour tem que responder por racismo e assassinato!”, diz a postagem.

O presidente do Congresso Nacional e do Senado, Davi Alcolumbre, lamentou o caso. "No Dia da Consciência Negra, o assassinato brutal de João Alberto Freitas, espancado até a morte por seguranças de um supermercado, em Porto Alegre, estarrece e escancara a necessidade de lutar contra o terrível racismo estrutural que corrói nossa sociedade."

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), publicou a hashtag #VidasNegrasImportam e escreveu: “O Dia da Consciência Negra amanheceu com a escandalosa notícia do assassinato bárbaro de um homem negro espancado em um supermercado. O episódio só demonstra que a luta contra o racismo e contra a barbarie está longe de acabar. Racismo é crime!”

Também ministro do STF, Alexandre de Moraes chamou o caso de “um bárbaro homicídio”. “Escancara a obrigação de sermos implacáveis no combate  ao racismo estrutural, uma das piores chagas da sociedade. Minha solidariedade à família de João Alberto.”. O ministro Luiz Fux, presidente do STF, iniciou a sessão da corte desta sexta-feira, 20, pedindo um minuto de silêncio pela morte de João Alberto. 

O presidente Jair Bolsonaro não comentou sobre o caso até as 13 horas desta sexta-feira. Por enquanto, dois ex-presidentes se manifestaram. “O racismo é a origem de todos os abismos desse país. É urgente interrompermos esse ciclo”, disse Luiz Inácio Lula da Silva. Já Dilma Rousseff postou: “Só haverá paz e democracia plena quando o racismo estrutural for enfrentado, punido e destruído e a sociedade aprender que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.”

O governador de São Paulo, João Doria, também se manifestou no Twitter. "Causa repulsa e indignação o espancamento até a morte de um homem negro em Porto Alegre. No Dia da Consciência Negra, estas cenas de racismo demonstram o quanto precisamos evoluir para termos uma sociedade mais justa e igualitária". A diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, afirmou que autoridades, empresa e sociedade civil devem se unir na luta contra o racismo. "É preciso transformar a revoltante morte de João Alberto em medidas efetivas de igualdade racial, afinal Vidas Negras Importam".

A sambista Teresa Cristina questionou: “Quantos mais terão que morrer, Carrefour?”. O rapper Rashid, por sua vez, chamou o caso de “uma covardia nesse país onde parece haver carta branca pra matar caso a pele da vítima seja escura”. Já a atriz Leandro Leal lamentou: "O racismo existe, oprime e mata!!! Até quando??"

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi ao Twitter se manifestar sobre o crime ocorrido na noite de ontem em um supermercado Carrefour em Porto Alegre (RS) e pedir o combate à cultura do ódio. “Em nome da Câmara dos Deputados, envio meus sentimentos à família e aos amigos do João Alberto Silveira Freitas”, escreveu.

“Queria poder dizer q é uma grande ironia um preto ser espancado até a morte bem às vésperas do dia da consciência negra, mas não. Até quando vamos ter que lutar pra sobreviver como se não fosse um direito, apesar de todos os nossos deveres? Não há o que celebrar”, postou a cantora Ludmilla.

O jornal Washington Post publicou uma notícia da agência Associated Press, com o título “Morte na véspera do Dia da Consciência Negra no Brasil desperta indignação”. A notícia também repercutiu em outros veículos internacionais, como o portal ABC News, Yahoo! UK e outros. 

O texto lembrou de outros dois episódios ocorridos recentemente em unidades do Carrefour. Em agosto, o corpo de um funcionário que morreu durante o trabalho foi coberto por guarda-sóis enquanto uma unidade do Recife seguiu funcionando normalmente. Em 2018, um segurança de uma unidade de Osasco matou uma cachorra que estava no estacionamento.

Nesta manhã, manifestantes foram até a frente do supermercado, mas um protesto maior está previsto para as 18 horas. A vítima será sepultada às 16 horas desta sexta-feira, 20, no Cemitério São João, no IAPI, também na zona norte da capital do Rio Grande do Sul.

O homem foi espancado e morto por dois homens brancos no estacionamento do Carrefour Passo D'Areia, na zona norte da capital gaúcha na véspera do Dia da Consciência Negra. Informações preliminares apontam que um dos agressores é segurança do local e o outro é um policial militar temporário que fazia compras no local. Ambos foram detidos e responderão por homicídio triplamente qualificado. Uma manifestação em frente ao supermercado está prevista para as 18 horas desta sexta-feira.

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram parte das agressões e o momento que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das gravações, o homem é derrubado e atingido por ao menos 12 socos. Ao fundo, uma pessoa grita "vamos chamar a Brigada (Militar)".

Uma mulher vestindo uma camisa branca e um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação. Ela já foi identificada e será ouvida. Outro registro  mostra a vítima desacordada, enquanto há marcas de sangue no chão.

Ao 'Estadão', João Batista Rodrigues Freitas, de 65 anos, lamentou a morte de seu filho. "Nós esperamos por Justiça. As únicas coisas que podemos esperar é por Deus e pela Justiça. Não há mais o que fazer. Meu filho não vai mais voltar", disse. 

O pai descreveu a vítima como um homem tranquilo. "Eles (Freitas e a esposa) frequentavam o mercado quase todos os dias. Ele até me incentivou a fazer um cartão do mercado."

Vizinho da vítima, Paulão Paquetá contou ao 'Estadão' ter testemunhado as agressões. Segundo ele, outros seguranças ficaram no entorno da área, impedindo a aproximação das pessoas que tentavam parar com as agressões. 

“Não pararam. A gente gritava ‘tão matando o cara’, mas continuaram até ele parar de respirar, fizeram a imobilização com o joelho no pescoço do Beto, tipo como foi com o americano (George Floyd, morto por policiais neste ano nos Estados Unidos).”

Em nota, o Carrefour disse que considerou a morte "brutal" e disse que "adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos". Afirmou também que vai romper o contrato com a empresa responsável pelos seguranças e que o funcionário que estava no comando da loja durante o crime "será desligado". O grupo disse ainda que a loja será fechada em respeito à vítima e que dará o "suporte necessário" à família da vítima.

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Candidatos à prefeitura de Porto Alegre lamentam morte de João Alberto

Além de Melo e Manuela, prefeito da capital também prestou solidariedade aos familiares da vítima

Lucas Rivas, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 13h48

Em meio à comoção causada pela morte cruel de João Alberto Silveira Freitas nas dependências do Carrefour, os dois candidatos à prefeitura de Porto Alegre repudiaram o fato ocorrido na noite passada. No Dia da Consciência Negra, Sebastião Melo (MDB) e Manuela D’Ávila (PCdoB), que disputam o segundo turno das eleições, mencionaram a importância de ampliar as políticas de combate ao racismo. Além deles, o prefeito Nelson Marchezan Junior (PSDB) também prestou solidariedade aos familiares da vítima.

“No dia da consciência negra, um grito por justiça. Não é possível calar frente ao racismo que mata milhares de pessoas negras diariamente. A bancada negra, que ocupará a Câmara, está no Carrefour cobrando responsabilização e prestando solidariedade à família da vítima. #justicaporbeto”, publicou Manuela no Twitter.

“Continuar refletindo e combatendo ideias, atos e manifestações racistas é construir uma sociedade baseada no respeito. Com oportunidades iguais para todos, temos fé que o mundo vai evoluir pelo melhor caminho. #DiaDaConsciênciaNegra #TamoJuntoPortoAlegre #Melo15 #ReagePortoAlegre”, postou Melo.

Pelo Twitter, o prefeito Marchezan lamentou o fato ocorrido e manifestou apoio aos familiares de João Alberto. “Meus sentimentos à família e amigos do João Alberto Freitas. Neste Dia da Consciência Negra, em que deveríamos celebrar o povo negro e refletir sobre igualdade e respeito, infelizmente acordamos com esta notícia lastimável. Não podemos aceitar este tipo de violência”, escreveu.

Negro, João Alberto Freitas foi espancado e morto por dois homens brancos, um deles é segurança do local, enquanto o outro é um policial militar temporário. Os dois foram presos e responderão por homicídio triplamente qualificado, por asfixia e impossibilidade de resistência da vítima.

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Nas redes sociais, usuários organizam boicotes e protestos contra Carrefour

Internautas também organizam protestos em frente a unidades da companhia nesta sexta-feira, no Dia da Consciência Negra

Circe Bonatelli, Dida Sampaio e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 14h06

A morte de um homem negro espancado por dois homens brancos - um segurança, da empresa Vector, e um policial militar - em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre (RS) enfureceu cidadãos nas redes sociais, que passaram a defender boicote à rede varejista e organizar protestos em frente a unidades da companhia nesta sexta-feira, 20, Dia da Consciência Negra.

Os usuários do Twitter rechaçaram a nota oficial do Carrefour Brasil com explicações sobre as medidas tomadas após o ocorrido. Até o começo da tarde, havia cerca de 3,5 mil comentários com xingamentos e acusações pelo novo episódio de violência nas imediações da companhia.

As manifestações de revolta partiram de perfis variados nas redes sociais. O ator e comediante Leandro Ramos (do grupo Choque de Cultura) sugeriu um boicote ao Carrefour, numa postagem com 10 mil curtidas na rede social. "Então, como é que a gente vai fazer pra organizar um boicote sério ao Carrefour?", escreveu Ramos.

O fundador da MRV, maior construtora residencial do País, Rubens Menin, também condenou o ocorrido, porém sem citar nomes. "Deprimente caso da morte de homem negro por seguranças no supermercado do RS, exatamente no dia da consciência negra. Até quando???", postou o empresário.

O perfil Favelado Investidor, do jovem Murilo Duarte, que também é bastante conhecido na comunidade do fintwit, fez postagem com xingamento à rede varejista e teve mais de 2 mil curtidas.

O ex-juiz e ministro da Justiça, Sergio Moro, lamentou que em pleno Dia da Consciência Negra, o destaque do noticiário é o espancamento e morte de um cidadão negro em um supermercado. "A violência racial não pode mais ser tolerada. Que os assassinos sejam punidos com rigor. Minha solidariedade aos familiares e amigos", postou Moro.

A crescente repercussão negativa nas redes sociais pode vir a impactar o desempenho no Carrefour no Brasil, faltando uma semana para a Black Friday, uma das datas de maior movimento para o varejo nacional.

Protestos são organizados em todo o País

No fim da manhã, representantes de movimentos sociais e vereadores negros eleitos para a Câmara Municipal de Porto Alegre se reuniram para uma manifestação em frente à unidade do Carrefour onde o caso de violência aconteceu. A candidata do PCdoB que está no segundo turno da corrida eleitoral na capital gaúcha, Manuela D'Ávila, se manifestou dizendo que não é possível se calar diante do racismo e apoiou o protesto que cobrava responsabilização do Carrefour e prestava solidariedade à família da vítima.

Nas redes sociais, internautas se mobilizam para realizar um protesto popular em frente ao Carrefour onde ocorreu o assassinato, no bairro Passo d'Areia, na zona norte da capital gaúcha, às 18 horas.

Em Brasília, um grupo de manifestantes também protestou em uma unidade do Carrefour na Asa Sul da capital federal. Cerca de 50 pessoas fizeram um ato no estacionamento em frente ao supermercado, localizado na quadra 402. Em seguida, percorreram os corredores internos do supermercado com cartazes e gritando palavras de ordem como "não consigo respirar" e "fascistas, não passarão".

O grupo também pedia "Justiça para Beto", em referência a João Alberto Silveira Freitas, agredido até a morte em Porto Alegre. "Não faça compra no Carrefour. Você pode morrer", dizia um dos cartazes carregados pelo grupo. Em Brasília, não houve resistência dos seguranças do supermercado contra os manifestantes.

Segundo participantes, o protesto havia começado um pouco antes, em frente à sede Fundação Palmares, que fica próxima do supermercado. Os manifestantes criticam a decisão do atual presidente do órgão, Sérgio Camargo, de não celebrar o Dia Da Consciência Negra, e de retirar diversos nomes da lista de personalidades negras do País. O grupo levava cartazes com as fotos de alguns deles, como o do abolicionista do século 19 Luiz Gama, da cantora Elza Soares e da sambista e deputada estadual Leci Brandão (PCdoB-RJ).

 

Em São Paulo, um ato convocado também pelas redes sociais está programado para as 16 horas. A previsão dos manifestantes é se encontrar em frente ao Masp, na Avenida Paulista, e seguir em marcha até o Carrefour da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

No Rio, os manifestantes pretendem também se encontrar às 16 horas, em frente a uma unidade do Carrefour na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, zona norte da cidade.

 

 

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'Não existe racismo no Brasil', diz Mourão ao comentar morte de homem negro no RS

Vice-presidente lamentou morte de homem espancado em estacionamento do Carrefour em Porto Alegre e disse que o que existe no Brasil é 'desigualdade, fruto de uma série de problemas'

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 14h49
Atualizado 20 de novembro de 2020 | 19h25

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta sexta-feira, 20, lamentar a morte de um homem negro espancado por seguranças em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, mas disse que o ocorrido não pode ser classificado como um episódio de racismo. "Digo com toda a tranquilidade para você: não existe racismo no Brasil", afirmou Mourão.

João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi agredido até a morte na noite desta quinta no em uma loja da rede. Um dos agressores era segurança do local e o outro, um policial militar temporário. Ambos brancos. O crime ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta.

"Digo isso porque já morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá", disse Mourão ao negar a existência do racismo no Brasil. "Aqui existe desigualdade. Fruto de uma série de problemas", completou.

O vice citou que viveu no país norte-americano no fim da década de 1960 e, na época, ficou impressionado com políticas segregacionistas.  "Na minha escola, quando eu morei lá, o pessoal de cor andava separado. Eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso." 

Mourão afirmou que a maior parte das "pessoas de cor" são de "nível mais pobre" e citou que a sociedade brasileira é "misturada". "Grande parte das pessoas, vamos colocar assim, de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidades da sociedade moderna, são gente de cor. Apesar de nós sermos uma sociedade totalmente misturada, é só tu olhar a minha lata aqui né", disse, indicando sua própria cor de pele. Durante a campanha eleitoral, o vice informou à Justiça Eleitoral ser de origem "indígena".

Apesar da afirmação do vice-presidente, dados do Atlas da Violência no País mostram que as taxas de assassinato entre a população negra no País é maior que o de não negros. Um estudo  do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que enquanto o índice de homicídios de pretos e pardos cresceu 11,5% na última década, chegando a 37,8 por 100 mil habitantes, e a de não negros caiu 12,9%, com uma taxa de 13,9. 

Mourão não é o único no governo a negar a existência de racismo no País. O presidente Jair Bolsonaro já afirmou que "racismo é algo raro no Brasil" e nomeou na Fundação Palmares o jornalista Sérgio Camargo, que também adota postura negacionista em relação ao tema.

Camargo sempre manifestou desprezo pela agenda da Consciência Negra. Em conversa com dois servidores, a que o Estadão teve acesso, no dia 30 de abril, ele classificou o movimento negro como “escória maldita”, que abriga “vagabundos”, e chamou Zumbi de “filho da puta que escravizava pretos”. Ele chegou a retirar o nome de artistas que contribuíram com a cultura do País da lista de personalidades históricas da Palmares. Excluiu, por exemplo, os nomes de Gilberto Gil, Milton Nascimento, Leci Brandão e Martinho da Vila.

“Não tenho que apoiar agenda consciência negra. Aqui não vai ter, vai ter zero da consciência negra. Quando cheguei aqui, tinham eventos até no Amapá, tinha show de pagode no dia da consciência negra”, disse Camargo na conversa com os funcionários, que foi gravada.

Esta não é a primeira vez que o vice emite opiniões polêmicas sobre negros. Em 2018, quando ainda era candidato na chapa de Bolsonaro, Mourão disse que o Brasil "herdou a cultura de privilégios dos ibéricos, a indolência dos indígenas e a malandragem dos africanos". A declaração teve repercussão negativa e adversários políticos, como a ex-ministra Marina Silva (Rede), o acusaram de racismo.

Damares Alves

Mais cedo, também do governo federal, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, se solidarizou e colocou a pasta à disposição da família de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anosNas redes sociais, Damares disse que as imagens do ocorrido causam "indignação e revolta".

 "Nós do @mdhbrasil estamos trabalhando para que nenhum pai de família, ou quem quer que seja, passe por situação semelhante. Aqui trabalhamos com os direitos humanos das vítimas de crimes, política que está em formulação e será em breve apresentada", disse. Nesta sexta-feira, 20, Damares tinha reunião prevista com o presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. O chefe do Executivo ainda não se pronunciou sobre o caso.

 "A vida de mais um brasileiro foi brutalmente ceifada no estacionamento de um supermercado, no Rio Grande do Sul. As imagens são chocantes e nos causaram indignação e revolta", escreveu a ministra.

 "Chega de violência, chega de tanta barbárie. Temos muito trabalho pela frente para mudar essa realidade no país", declarou. Ela ressaltou que seu ministério está disponível para "prestar toda assistência necessária" à família da vítima. " "Sintam-se abraçados por nós", acrescentou. A ministra também parabenizou a polícia gaúcha "pela rápida resposta e prisão dos responsáveis". A Polícia Civil do Estado investiga o crime. Os dois homens foram presos em flagrante.

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Laudo médico aponta que João Alberto morreu por asfixia, delegada diz não ver 'cunho racial'

Homem negro de 40 anos morreu após ser espancado por um segurança do Carrefour em Porto Alegre

Lucas Rivas, especial para O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2020 | 16h42

PORTO ALEGRE - Assim como o norte-americano George Floyd, João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, pode ter sido morto por asfixia, conforme indicou o primeiro resultado da necropsia realizada pela perícia em Porto Alegre. O homem, negro, foi espancado por seguranças do hipermercado Carrefour, na noite desta quinta-feira, 19.

Após colher os primeiros depoimentos, a delegada responsável pelo caso, Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, recebeu, na tarde desta sexta, os médicos legistas para elucidar as causas da morte de João Alberto. Durante as agressões, a vítima também foi imobilizada pelos vigias, com o joelho de um deles nas costas.

“O maior indicativo da necropsia é de que ele foi morto por asfixia, pois ele ficou no chão enquanto os dois seguranças pressionavam e comprimiam o corpo de João Alberto dificultando a respiração dele. Ele não conseguia mais fazer o movimento para respirar”, informou.

Além dos dois presos envolvidos na morte de João, a delegada adianta que outros envolvidos estão sendo investigados por omissão de socorro. “Duas ou mais pessoas podem ser implicadas por não terem impedido que as agressões continuassem. Foi uma ação completamente desproporcional e atípica para pessoas que exercerem essa atividade”, disse Roberta Bertoldo.

Racismo estrutural

 Durante o dia, a delegada disse não ter indícios de se tratar de um caso de racismo. "Até este momento, não deslumbramos nada de cunho racial. Não temos nenhum indicativo por essa motivação", disse. Conforme a chefe de Polícia do Estado, delegada Nadine Anflor, a investigação segue apurando os fatos para ver se também houve motivação racial no crime. "Com o racismo estrutural da nossa sociedade, estamos apurando se houve motivação no crime da noite passada"

A informação preliminar de que João Alberto teria sofrido um ataque cardíaco enquanto era agredido pelos vigilantes não pôde ser constatada pela perícia. Dois seguranças terceirizados do Carrefour, Giovane Gaspar da Silva, policial militar temporário, e Magno Braz Borges foram levados para prisão. Os dois serão indiciados por homicídio triplamente qualificado – por motivo fútil, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

No caso de George Floyd, que algumas pessoas relembraram ao saber da violência da ocorrência em Porto Alegre, uma autópsia independente encomendada pela família da vítima determinou que a causa de sua morte foi "asfixia por pressão constante".

Polícia Federal vai suspender carteira de vigilante

A Polícia Federal informou que irá suspender a carteira nacional de vigilante de Magno Braz. A PF esclareceu que ele atua como segurança profissional, mas “não há registro na Polícia Federal de seu vínculo profissional com a empresa contratante. A Carteira Nacional de Vigilante, documento expedido pela Polícia Federal, será suspensa". A PF também pontuou que o PM envolvido no assassinato não possui Carteira Nacional de Vigilante.

A instituição confirmou que o Grupo Vector está com cadastro regular e foi vistoriada no fim de agosto, não tendo sido identificadas irregularidades em seu funcionamento. Em função do crime, será feita fiscalização extraordinária na empresa pela Polícia Federal. "Caso confirmadas as irregularidades, a Polícia Federal poderá autuar e empresa e suspender a autorização de funcionamento", diz a nota.

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