Homem que pulou no Pinheiros reencontra menino no Natal

Duas semanas depois de salvar o pequeno Rafael, de três anos, o analista de sistemas Adriano Levandoski de Miranda, de 27 anos, reencontrou a criança na véspera do Natal. Durante o almoço, em sua casa no Embu das Artes, ele presenteou o garoto com o mesmo trenzinho que deu ao filho Matheus, de dois anos. No dia 9 de dezembro, data de seu aniversário, Adriano saiu de casa rumo ao trabalho, no Credicard Hall, próximo a Ponte João Dias, na zona sul da capital paulista. Ele, que entra às 9 horas no trabalho, estava atrasado quando, às 9h45, presenciou a queda de Janaína Barbosa de Souza, de 26 anos, da ponte, com o filho no colo. Para salvar a criança, o jovem pegou a moto de uma das pessoas que pararam no local para ver o que estava acontecendo e entrou nas águas poluídas do rio. Apesar de ser chamado de herói, palavra repetida diversas vezes por Bárbara, sua mãe, Adriano nega a alcunha e diz que ajudar as pessoas é algo "natural" para ele.Como foi que você decidiu entrar no rio para resgatar o Rafael? Era para eu ter descido no terminal Santo Amaro, mas eu resolvi descer na estação João Dias. Resolvi ir a pé, queria andar. Era dia do meu aniversário e apesar de estar atrasado, resolvi ir caminhando. Quando comecei a subir a ponte vi uma mulher despencando com uma criança no colo. Ela bateu na água e afundou. Depois vi a cabeça dela e da criança, mas eles afundaram de novo. Corri para o meio da ponte, mais ou menos de onde ela tinha saltado, para ver o que tinha acontecido, mas eles desapareceram, ficaram com as cabeças para fora, mas em um ponto que não dava para vê-los. Foi quando atravessei para a outra pista da ponte e começou a juntar gente para ver o que tinha acontecido. Não dava para pular lá de cima, é muito alto e se você observar tem uma montanha de lama, é perigoso. Acho que foi um pouco de instinto paterno, de pensar que se fosse meu filho alguém deveria ajudar também. Eu não sei, não sei como uma mulher, que não pode ser chamada de mãe, tem coragem de pegar uma criança que não consegue se defender, e fazer uma coisa dessas.E como você fez para ir até a beira do rio? Uma das pessoas que estava olhando o que tinha acontecido tinha uma moto, que estava com a chave no contato. Eu pedi e ele disse que não. Quem iria emprestar uma moto para um desconhecido? Mas mesmo assim eu peguei a moto e fui, na contramão, até a alça de acesso à marginal. Deixei a moto ali, pulei a mureta e só fui parar para ver o que estava fazendo quando estava dentro do rio. Depois pedi desculpas para o dono da moto, disse que não queria ter roubado, mas não deu em nada.E como você conseguiu tirar o Rafael de dentro do Pinheiros? Entrei no rio e apoiei no meu ombro. Tentei subir o barranco, mas não consegui, daí veio uma pessoa que me ajudou, me deu uma força, me puxando para sair lá de dentro.E ele estava acordado? Os olhos dele estavam fechados. Coloquei ele no chão e ele tossiu, foi quando eu virei ele de lado e comecei a bater nas costinhas dele. O Rafael começou a vomitar bastante água, arregalou os olhos e agarrou minha camisa. Depois de uns cinco minutos chegou o resgate, que levou ele para o Hospital Regional Sul, em Santo Amaro. Você foi com ele para o hospital? Primeiro a viatura da Polícia Militar me trouxe até em casa. Tomei um banho, troquei de roupa e fui até o hospital tentar ver o Rafael, mas como ele estava sendo medicado, não deu. Do hospital tive que ir para a Delegacia, onde fiquei até por volta das 18 horas, no 11º DP de Santo Amaro, onde o caso foi registrado.E depois de tudo isso você viu o Rafael? Ele veio aqui em casa dia 24, com o pai e a namorada do pai. Ele brincou com meu filho, fizeram bagunça e ele até dormiu. Eu dei um trenzinho igual ao do Matheus para ele.E qual foi a reação do pai dele? No dia, ele me deu um abraço na delegacia. No dia 24 foi a primeira vez que eu revi os dois. Aqui a gente conversou, eles almoçaram e eu fiquei sabendo que o Fabio está tentando conseguir a guarda do Rafael para ele. Mas mesmo que não fosse Natal eu gostaria de ver o Rafael, para saber como ele está, conhecer um pouco melhor. Se eu puder ajudar em alguma coisa, vou tentar.Como foi depois que tudo aconteceu e você começou a ser chamado de herói? Acho normal ajudar as pessoas. Não sei por que de me chamarem de herói e falei que não queria ser chamado assim. Não imaginei que o caso teria tanta repercussão. Recebi até carta de autoridades, mas não quis aparecer em eventos públicos. O problema é que as pessoas estão tão acostumadas com a violência que quando acontece alguma coisa boa, pensam que é algo extraordinário, de outro mundo. Quando vêem imprensa na casa de uma família humilde, começam a imaginar que alguém morreu, que mataram alguém, a maioria das pessoas pensa assim. E no trabalho? É verdade que você recebeu aumento por ter salvado o Rafael? Se eu for ter aumento vai ser como reconhecimento do meu trabalho, pela minha competência. Realmente tinha um aumento previsto para julho, estamos em dezembro e até agora ele não veio. Pode ser que ele venha no ano que vem, ou talvez só depois. É só uma previsão, mas se eu receber vai ser pelo meu trabalho e não por ter entrado no rio para salvar o Rafael. O que de fato aconteceu foi que tanta gente começou a me procurar que eu tive que trocar o número do celular para conseguir trabalhar. A empresa me deu outro número e, pela quantidade de gente que queria falar comigo, tive que pedir ajuda para a assessoria de imprensa da empresa, mas só isso. Sua esposa, a Juliana, chegou a dizer que você gosta de ajudar as pessoas. É verdade? Eu acho difícil as pessoas verem as coisas e fingirem que nada está acontecendo. Quando chego em casa e vejo que tem uma pessoa comendo a comida que está em um saco para o cachorro da rua, não vou deixar. Eu vou e dou um prato de comida. Não tem como você não ajudar. Outro dia também tinha um senhor andando com umas sacolas pesadas, ele andava dois metros e parava, mais dois metros e parava. Eu estava de carro, então levei ele até a casa dele. E as pessoas da sua família, como viram tudo isso? A mãe de Adriano intervém na conversa: Eu fiquei preocupada, achei que podia ter acontecido alguma coisa para ele, por ter tomado água suja. Nem almocei naquele dia, fiquei com o coração fechado. Mas quando vi que ele estava bem, fiquei sem saber o que falar, flutuando. Eu chorava, ria, tinha vontade de gritar, de contar o que ele tinha feito. Fui até o mercado e contei pra a moça ´sabe por que estou contente? Porque meu filho é herói, aquele que está aparecendo na televisão´. Foi muito gostoso. Adriano - mas eu acho normal. Não consigo ver alguém precisando de ajuda e ficar sem fazer nada. E você pretende ver o Rafael mais vezes? Mais para frente. Quem sabe um almoço, um jantar. Quero manter o contato, caso ele precise de ajuda.E a mãe dele, você tem notícias? Não conheço a mãe dele, só sei que outros dois rapazes tiraram ela do rio. Tudo o que sei é o que a imprensa fala. Parece que ela foi solta e vai responder o processo em liberdade.

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