Homenageado, Alencar esquece rotina hospitalar

Internado desde o final de outubro, ex-vice-presidente passa no teste de resistência: deixa o hospital e vai à Prefeitura ser condecorado por Kassab

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

A terça-feira foi emocionante para o ex-vice-presidente José Alencar Soares da Silva. Logo pela manhã, no seu quarto no Hospital Sírio-Libanês, ele ainda não tinha certeza de sua participação na cerimônia na qual seria homenageado com a Medalha 25 de Janeiro. Estava ansioso, segundo sua esposa, Mariza.

Mais tarde, já examinado e com o sinal verde da equipe do médico Roberto Kalil, que o atende, ele ainda teve medo de que o esforço, após quase 90 dias de internação - interrompidos por duas breves altas - e uma delicada cirurgia no abdome para estancar uma hemorragia, atrapalhassem a aparição em público. Na cerimônia de posse de Dilma Rousseff, Alencar não fora liberado pelos médicos para viajar a Brasília. Acompanhou pela TV.

"Espero que Deus me ajude e eu possa participar bem da solenidade", disse ontem, ao deixar o hospital, às 11h46. Saiu numa cadeira de rodas, sem força sequer para se levantar e se instalar no carro que o aguardava. Não havia cor no rosto e a voz saía muito fraca, mas ainda assim sorriu para os jornalistas e se despediu com uma declaração de fé: "Se Deus quiser, vou tolerar bem". Ao lado dele, no banco de couro do Azera negro, ia uma integrante da equipe médica. Atrás, numa ambulância, mais um médico, um enfermeiro e um socorrista. À frente, em outro carro, três seguranças.

No local da cerimônia, o imponente saguão do Edifício Matarazzo, com paredes revestidas de mármore e um pé direito que deve alcançar dez metros, sua figura pareceu, a princípio, ainda mais frágil. Mas, ao contrário do que temia, não fez feio.

No discurso de agradecimento pela homenagem, a voz ganhou força e ele resolveu deixar no bolso do paletó o texto do discurso já preparado. Falou de improviso por 9 minutos e 40 segundos. Pediu desculpas por não se levantar, lembrou detalhes dramáticos da luta que trava há 13 anos contra o câncer, agradeceu a Gilberto Kassab e provocou risadas ao lembrar uma lição do ex-presidente Lula sobre o tamanho ideal dos discursos: "Devem ser como vestido de mulher: nem tão curtos que nos escandalizem, nem tão longos que nos entristeçam".

Ele só se atrapalhou um pouco quando Dilma Rousseff lhe entregou a medalha: emocionado, não conseguiu sorrir, nem levantá-la para mostrar à plateia.

Estava muito à vontade ao lado de Lula, que, no meio da cerimônia beijou sua cabeça com uma reverência quase filial, e Dilma, que segurava sua mão. Falou abertamente da morte numa passagem do discurso: "Se morrer agora, é um privilégio para mim, porque a situação está tão boa que não tem como melhorar: está todo mundo orando por mim".

Da sede da Prefeitura, o ex-presidente voltou para o hospital, onde seria novamente internado. Mas, na porta, às 13h30, se recusou a sair do carro. Houve uma breve negociação entre ele, sua mulher e Kalil, que, ao final, autorizou sua ida para casa, para almoçar. "Ele estava bem na cerimônia e a situação é estável", explicou Kalil. O comboio seguiu então para a Alameda Itu, nos Jardins, onde Alencar mantém um apartamento que se estende por todo o terceiro andar de um edifício. Pouco antes das 16 horas, outra emoção: ele não voltaria ontem ao hospital. Hoje, os médicos avaliam se o ex-vice pode continuar o tratamento em casa.

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