Homens, saias e outras histórias

No Rio, um grupo de pais resolveu protestar contra a decisão de uma das escolas mais tradicionais da cidade, o colégio Pedro II, de acabar com a distinção de uniformes para alunos e alunas

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2016 | 07h29

A semana que passou foi rica em histórias relacionadas à saúde e ao comportamento dos mais jovens. Gravidez precoce, abandono, violência e questões de gênero foram temas que chegaram a lembrar enredo de novela, não fossem eles a dura realidade vivida por adolescentes de todo o País.

No Rio, um grupo de pais resolveu protestar contra a decisão de uma das escolas mais tradicionais da cidade, o colégio Pedro II, de acabar com a distinção de uniformes para alunos e alunas. Para eles, a escola estaria forçando uma “ideologia de gênero”. A notícia é do Estado.

Temas como feminismo e machismo, empoderamento da mulher, violência sexual e igualdade para alunos transgêneros são discussões que passam longe de tentar impor uma ideologia. Por outro lado, são atitudes que podem garantir direitos, dignidade e inclusão de todos. E não é isso que toda escola deveria ensinar?

É simplista e equivocado acreditar que garotos vão começar a usar saia na escola porque não existe mais distinção de uniforme. Vai usar saia, eventualmente, quem se sente melhor dessa forma, casos dos jovens que se percebem inadequados ao seu sexo biológico, uma minoria dentro da escola.

Em vez de protestar, os pais aproveitariam muito melhor seu tempo às vésperas das eleições municipais para criticar e pensar em outros grandes problemas que existem, de fato, no Brasil. Exemplo: em outra escola pública, em Cangaíba, zona leste de São Paulo, um jovem de 21 anos assumiu ter envenenado um doce consumido acidentalmente por seis alunas.

O garoto teria dado de presente para uma menor um pote de creme de chocolate com avelãs misturado com veneno. Ela não gostou do sabor e levou o pote para a escola, onde foi consumido pelas amigas. O garoto teria sido contratado por outro rapaz para envenenar a menina, que move um processo de paternidade contra ele. As informações são do site da rádio Jovem Pan. O rapaz foi preso após a polícia encontrar o veneno em sua casa. O suposto pai e mandante do crime estava foragido até a noite de sexta-feira.

A questão da gravidez precoce com todas as responsabilidades recaindo sobre as meninas e suas famílias, além da distância progressiva do pai da criança, é um fenômeno comum no País. No entanto, essa história chama a atenção pelo requinte de crueldade do rapaz, que pode ter tentado castigar ou eliminar a garota por ela chamá-lo à responsabilidade de ser pai.

Mas foi no Paraná que o tema da gravidez na adolescência ganhou contornos ainda mais dramáticos na última semana. Um bebê foi encontrado em uma caixa de sapato em São José dos Pinhais. A Polícia Civil descobriu que os pais são um garoto de 18 anos e uma menina de 17, que, pasme, são irmãos. A notícia foi publicada pelo site ParanáPortal e divulgada pelo UOL.

Segundo a Delegacia da Mulher e do Adolescente, o relacionamento começou sem que o jovem casal soubesse do parentesco. Os pais teriam se separado quando a mãe ainda estava grávida da garota e perdido o contato. Dezesseis anos depois, sem que soubessem do passado, os jovens começaram a namorar. Já juntos, descobriram que eram irmãos. Continuaram namorando, até que a menina engravidou. Ao saber, o garoto abandonou a irmã.

Ela, então, voltou a se relacionar com um antigo parceiro, com quem já tinha uma filha, e decidiu abandonar o recém-nascido. A garota está sendo autuada por abandono de incapaz e o parceiro atual por coautoria do crime. O irmão e pai não deve sofrer nenhum tipo de processo.

Mais do que o enredo novelesco da história, é importante pensar que essa garota que abandona seu bebê também é vítima de uma tragédia social, que se repete todos os dias por aqui. Abandonada pelo pai, criada pela mãe, sem conhecer sua família, com dificuldade de estabilizar um relacionamento afetivo, se envolve com o próprio irmão, mantém o romance mesmo depois da verdade descoberta e, grávida dele, decide abandonar o filho e acaba sendo autuada por sua atitude.

Em um mundo com essa realidade, em que as principais vítimas são quase sempre as garotas pobres, negras, sem voz, que vivem nas periferias, você não fica com a sensação de que a gente deveria se preocupar em mudar cenários, garantir direitos e proporcionar futuros dignos, questões muito mais importantes do que quem usa ou deixa de usar saias? Eu acho!

* Jairo Bouer é psiquiatra.

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