Hora a hora, a eleição na maior cidade do país

Ontem o domingo foi diferente para 8,4 milhões de eleitores paulistanos. Confira momentos protagonizados por alguns deles, de norte a sul da capital

Flávia Tavares, Rodrigo Brancatelli, Vitor Hugo Brandalise, Marcelo Godoy, Isadora Peron, Paulo Sampaio e Cristiane Bomfim, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2010 | 00h00

Do Jardim Paulista, na zona sul, ao Jardim Romano, na leste. Da eleição no maior local de votação de São Paulo - o Mackenzie, na região central - aos votos dos presos no cadeião de Pinheiros, na zona oeste. Do mesário mais antigo aos eleitores de outras cidades que votaram em trânsito, numa estação de metrô. Por todo o dia, em diferentes regiões da capital, o Estado flagrou conversas, situações e personagens deste 3 de outubro, dia em que 8,4 milhões de paulistanos foram às urnas.

6h10

Duas horas antes de os portões se abrirem no Instituto Mackenzie - maior local de votação do Estado, com 19.704 eleitores -, o segurança José Roberto Drudi, de 57 anos, já estava plantado na frente da universidade, sem se incomodar com o vento forte ou a garoa fria. "Cheguei cedo para terminar cedo. Ainda vou trabalhar o dia inteiro, não quis me atrasar", justificou. Ele levou 45 segundos para entrar na cabine, apertar as 25 teclas dos candidatos escolhidos e sair. "Não acho que exagerei. É para não ter chance de acontecer algo errado", disse o segurança, que saiu de casa, em Artur Alvim, na zona leste, às 5h10.

8h

As celas se abriram às 8 horas. Os primeiros eleitores foram algemados e, sob escolta, caminharam em fila até a seção eleitoral. Começou assim o dia de votação do Centro de Detenção Provisória 3 (CDP-3), em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Pela primeira vez, os presos tiveram o direito de votar no País. Em São Paulo, 1.865 foram às urnas espalhadas em 31 dos 148 presídios do Estado. Em quatro grupos de dez, os presos foram retirados de suas celas. Cada dezena de detentos ia para uma das quatro seções eleitorais instaladas no CDP-3. A maioria levava cola com os números dos candidatos e gastava cerca de 30 a 40 segundos para votar. De acordo com o juiz-corregedor dos presídios, Ulysses Gonçalves Junior, a votação dos presos terminou às 11h30. Ao todo, 137 pessoas votaram nas quatro urnas do CDP. Nem todos os presos provisórios - os que ainda não têm condenação definitiva - puderam votar. "Conseguimos garantir esses direitos a cerca de 10% dos presos e adolescentes internados. Fizemos o que era possível", afirmou o desembargador Walter de Almeida Guilherme. No Estado existiam 52 mil pessoas que poderiam ter sido cadastradas para votar. No total, além dos 1.865 detentos, 2.615 adolescentes da Fundação Casa garantiram esse direito. Um dos problemas que restringiram o voto nos presídios foi a segurança. Unidades que abrigam criminosos perigosos, por exemplo, ficaram de fora da eleição.

10h15

Quatro jovens foram abordados por policiais militares na entrada de uma seção eleitoral no Brooklin, zona sul, por estarem usando nariz de palhaço. Os policiais pediram para eles tirarem o adereço de plástico antes de votar e nenhum incidente foi registrado.

10h30

Na Escola Estadual Professor Laerte Ramos de Carvalho, em Cidade Dutra, na zona sul, um exemplo claro da vontade de votar. Dois lances de escada entre o térreo e as cabines de votação tornavam impossível o percurso até as cabines de votação para a cozinheira Neoci Silva Paiva, de 57 anos, cadeirante há 11 meses. "Quando viram que tinha uma escada, os mesários sugeriram que eu justificasse o voto", ela contou. "Mas eu é que não ia perder o voto. Acordei cedo, no frio, para chegar ao colégio e justificar?" Tanto insistiu que dois mesários carregaram seus 60 quilos escada abaixo e esperaram até que ela terminasse. "Meu voto é luminoso, nunca errei o candidato."

11h15

"Me ajuda, me fala qualquer número aí!" Lidija estava muito aflita. Já fazia uns 3 minutos que ela estava diante da urna, no Colégio Rio Branco, em Higienópolis, região central, e não conseguia concluir seu voto. A presidente da seção pacientemente explicava que não podia dar orientações sobre os números de candidatos. "A média dos outros eleitores tem sido um minuto e meio, mas temos de ser pacientes", disse a mesária. A professora Lidija finalmente terminou de votar e saiu lamentando: "É muito cargo. E eu não queria errar e votar em algum bandido ou sequestrador."

11h45

Diz o ditado que política, futebol e religião não se discutem. Mas pelo menos ontem o padre, acostumado a tratar de religião diariamente, sentiu-se à vontade também para falar de política. Na missa da Igreja São Luís, na Avenida Paulista, o pároco Emmanuel Araújo orientou os fiéis no sermão: "Somos convocados a definir o futuro do País. Rezemos para que as eleições sejam tranquilas e os resultados, promissores para a nação."

11h50

Na estreia do voto em trânsito, muitos eleitores tiveram dificuldade para confirmar suas escolhas. Vários deles chegaram às zonas eleitorais especiais sem o cadastramento obrigatório e acabaram frustrados. Outros, por falta de informação ou atenção, acabaram errando o local em que deveriam votar. Foi o caso da bancária Tereza Aguiar, de 44 anos, que foi à Estação Paraíso do Metrô, um dos três locais de votação em trânsito da capital paulista. Em sua requisição, constava o direcionamento para a Estação República. "Vi o nome (da estação), mas achei que poderia ir a qualquer outro lugar", afirmou a bancária. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 80.494 pessoas solicitaram o voto fora de seus domicílios de origem - delas, 12.750 foram às urnas na cidade de São Paulo.

12h

Marcelo (nome fictício), de 18 anos, votou ontem pela primeira vez. Usava uniforme azul e chinelos de dedo. Decidiu ir às urnas porque crê que as coisas precisam mudar. Há um ano está internado na Unidade Abaeté da Fundação Casa, na Vila Maria, zona norte. Foi apreendido por roubo. "Não quero mais ver ladrão tomando decisões importantes." Era meio-dia quando a urna soou o sinal de confirmação do último voto de Marcelo. "Minha parte eu fiz", disse. A Fundação Casa tem cerca de 6,8 mil internos. Destes, 2.231 decidiram votar.

12h15

Em 51 anos de experiência, o mesário mais antigo de São Paulo, Arthur Victor Brenneisen, de 81, continua querendo saber. "Não entendo como tem gente que acorda às 5 horas para chegar logo na zona eleitoral e votar em branco." Corretor de imóveis aposentado, seu Arthur foi convocado para ser mesário em 1959 e gostou. Nas outras 50 vezes, ele se ofereceu para trabalhar. Hoje é presidente da Seção 49, da Zona Eleitoral 248, em Itaquera, zona leste. Considerado ali uma verdadeira instituição, ele é observado orgulhosamente pela filha e pelo neto dentro da seção. "A gente não poderia estar aqui, mas eu sempre trago o almoço dele", explica Sandra.

12h30

Boca de urna é um conceito um tanto elástico no Jardim Romano, na zona leste. O bairro ficou conhecido em São Paulo depois das enchentes que o deixaram alagado por dois meses entre o fim de 2009 e o começo deste ano. Mesmo com a presença da Polícia Militar, dezenas de crianças distribuíam santinhos e pediam votos para candidatos. João Henrique, um garoto magrinho, jogava bola no meio da rua com dois amigos. Cada vez que a bola corria para mais longe e o jogo precisava ser interrompido, ele tirava do bolso um bolo de santinhos de um candidato a deputado estadual e entregava para quem passava. "Com o dinheiro que meu pai ganhou para distribuir esses papéis, ele prometeu me dar um presente", contou. Na Rua Capachós, local que ficou famoso depois de ficar submerso por dias a fio, ninguém sequer falava em eleição. "Pra quê? Não vai mudar nada...", dizia Augusta Lourenço, de 19 anos, mãe de duas crianças. Na época das enchentes, Augusta foi obrigada a abandonar sua casa e dormir por uma semana e meia no alojamento provisório montado na Escola Municipal Armando Cridey Righetti - mesmo lugar utilizado ontem para a votação. "Foi só aparecer algum outro problema por aí que esqueceram da gente. As chuvas vão voltar e aí? De que adianta votar se sempre se esquecem do povo?"

13h40

Em pleno shopping Pátio Higienópolis, um cidadão chamava a atenção ao caminhar calmamente ostentando uma estrela do PT no peito. "Não sou filiado, sou simpatizante. Mas o Lula convocou a militância e eu não tenho vergonha de usar a estrela", disse Eduardo Paes, de 29 anos, que dá palestras e treinamentos motivacionais em empresas.

14h

Aos 45 do segundo tempo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que, para votar, o cidadão não precisava levar o título de eleitor, apenas um documento oficial com foto. Mas nem todos os mesários entenderam a regra do jogo... Várias pessoas conseguiram chegar até a urna eletrônica apenas com o título de eleitor na mão. Esse foi o caso do gerente de vendas Adriano Belo Ramos, que votou na Escola Estadual Visconde de Taunay, no bairro do Limão, zona norte. Apresentou apenas o título de eleitor, sem que ninguém lhe pedisse outro documento.

14h30

Sem lei seca no Estado, os bares de São Paulo não precisaram se importar em disfarçar os copos de cerveja pelas mesinhas, como virou costume em outras eleições. "Depois de votar, já estamos no bar para afogar as mágoas", dizia o estudante de Direito Paulo Roberto Medeiros, que bebia com dois amigos na Vila Madalena, zona oeste

15h

Uma guerra é travada entre os bravos garis e a sujeirada que forra as ruas de São Paulo no dia da eleição. Ontem, as 31 subprefeituras recrutaram 2.639 soldados da vassoura e 249 caminhões-tanque nas trincheiras imundas nos arredores das escolas onde havia votação. Francisco Pereira, que lutaria contra o lixo montado em um dos caminhões, estava triste. "Não consegui votar, estava muita fila", lamentou. "Tomara que tenha segundo turno." A guerreira Josefa, por sua vez, estava orgulhosa de ter votado conscientemente e tranquila para enfrentar a batalha. "Estamos acostumados e prontos para a luta", afirmou a varredora de Garanhuns, cidade do presidente Lula. Os dois sairiam do posto que fica atrás do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na região da Avenida Paulista. Só ali foram convocados 50 garis a mais e cinco caminhões.

15h50

Com sujeira no rosto e nos braços, escondidos em meio a papelões e cobertores sujos, até os jovens da cracolândia se tornaram alvo de promessa dos candidatos nessas eleições, de deputados estaduais a presidente. Para os usuários que dormem na Rua Dino Bueno, no entanto, o dia de ontem passou incólume, como qualquer outro domingo. "Eu não tenho nem RG, ficou na casa da minha mãe em Araraquara", dizia um jovem franzino. "E nem sei quem tem para votar."

16h30

O delegado da Polícia Federal Nelson Régis Júnior rodou, com mais três colegas, mais de 250 quilômetros pela zona oeste da cidade. "Não registramos uma ocorrência sequer", comemorava. Bem diferente dos dias em que patrulhava as eleições no Amapá. A cena que mais o impressionou foi a de uma moto que passou na frente de uma fila, em uma seção eleitoral, e atirou dinheiro nos eleitores.

17h02

Silvia Stela Negrete estava convicta de que faltava um minuto. Estava errada. A porta da PUC se fechou e a psicóloga de 48 anos perdeu a chance de votar. Lamentou muito. O atraso foi por causa de problemas de saúde. "Estava internada e ainda tive de levar meu filho ao Aeroporto de Cumbica."

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