Wether Santana/ Estadão
Wether Santana/ Estadão

Hora de esperar. Mas não deixe o samba morrer

Como diz a marcha: 'Este ano não vai ser igual àquele que passou...' Ideal é ficar em casa

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2021 | 05h00

Bato ponto nas lojas de suco do Leblon desde a infância. Certa vez, era madrugada, batia aquele lanche usual, quando pela TV, que transmitia o desfile da Sapucaí, vimos entrar a Mangueira. Muita gente que passava na rua parou e bateu os olhos na TV. Gente começou a se acumular no balcão. A Verde e Rosa desfilava, e todos paravam para ver. 

Essa magia não tem explicação racional. Passa pela alma, fantasia, memória. Todos precisam checar como foi o desfile da Mangueira. Todos precisavam checar como foi o samba da Portela, como foi a provocação genial e direta de Joãosinho Trinta, qual foi a inovação de Fernando Pinto, Paulo Barros, o que nos ensinou Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, o legado de seu Nenê da Vila Matilde, Rosa Magalhães.

Como foi o andamento da bateria do Mestre Thobias, da Vai-Vai, a paradinha do Mestre André, e a levada funk do Mestre Jorjão, da Viradouro. Quem não gosta de samba bom sujeito não é. Quem não gosta de carnaval nem se quer sonhou.

Num camarote, no espaço reservado a cadeirantes, me colocaram ao lado da dona Zica, que estava numa cadeira de rodas. Ela assistiu a todo desfile sem sair do lugar e sem tirar os olhos da passarela. 

Comentava a evolução durante a passagem de todas as escolas. Tensa: “Fecha, fecha, muito espaço.” Me olhava, buscando meu apoio. Eu concordava com tudo: “Muito espaço!” Curiosamente, quando entrou a Mangueira, ela se calou. Não deu um palpite. Para não dar zica. Que momento...

Canta o ano de 2021: “Antes de me despedir, deixo ao sambista mais novo, o meu pedido final: não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar.” Não pode acabar. A festa pagã serve para expurgar todas as dores, repartir alegria e tristeza, dividir sentimentos. 

Numa escola se samba, da destaque ao apoio, do surdo ao pandeiro, da passista ao puxador, todos são fundamentais. Foi o primeiro local em que o gênero não tinha a menor importância, a tirar LGBTQIA+ do gueto, a juntar rico com pobre na mesma ala, um desfilando e pagando a fantasia feita pelo outro.

Foi onde a história do Brasil foi contada, dos navegadores aos imigrantes, os tipos humanos foram representados, de indígenas a astronautas, o folclore requisitado, a África e a cultura iorubá exaltadas, e nossos problemas sociais amplificados. Debateu-se a violência, o Estado de direito e laico, a desigualdade social, a censura, a opressão. Trouxe admiração e indignação. 

Carnaval mostra a essência brasileira. Mexe com a alma do País. Melhora a autoestima. Gringos pagam para ver. É das poucas coisas pelas quais somos lembrados e admirados no mundo todo. Nos enche de orgulho.

As ruas são tomadas. Em São Paulo, o Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta nasceu em 2009 na casa de amigos baladeiros, amantes da diversidade, noite paulistana, Baixo Augusta. Nasceu e foi perseguido pela Prefeitura. Nasceu sendo caçado. Descemos ilegalmente a Bela Cintra, amigos e conhecidos, seguindo uma batucada. Entramos na Rua Augusta, paramos o trânsito de domingo e fomos da balada Sonic ao Studio SP. Não tinha mais que 200 pessoas.

Muitos tiveram a mesma ideia. O carnaval de rua de São Paulo estava no subconsciente. Tinha dentro de todos o desejo de conquistar as ruas e praças da cidade que amamos e escolhemos para viver.

A elite conservadora, liderada pelo prefeito Kassab, voltou a caçar no ano seguinte, cercou ruas, botou polícia, espremeu blocos em terrenos baldios. Não queriam “baderneiros” nas ruas. Imagine, só?! Pessoas alegres, pulando e dançando. Em São Paulo não se brinca, se trabalha. Respeite o descanso do trabalhador.

Cada bloco já tinha milhares de seguidores. A cada ano, mais blocos, mais foliões. Em 2020, foram mais de 575 blocos oficiais. E de tudo: bloco que toca punk, música da paulistana Rita Lee, Caetano, Belchior, funk, frevo. Tarado Ni Você, Agrada Gregos, Ritaleena, Domingo Ela Não Vai, Vou de Táxi, Tô de Bowie e Ilú Obá De Min, com 300 percussionistas mulheres, desfila pelas ruas com seus orixás em pernas de pau, para preservar e divulgar a cultura negra.

Juntaram 15 milhões nas ruas. Cervejarias disputaram patrocínios, entraram em concorrência. Setor hoteleiro e de bares e restaurantes contabilizaram lucros. A elite política se modernizou e organizou o carnaval. No mesmo desfile, Haddad pulava na pipoca, enquanto Covas Jr., no carro de som.

Blocos foram valorizados, assim como o carnaval. São Paulo é do trabalho e diversão, seus malas! O presidente e um dos idealizadores do Bloco Augusta, Ale Youssef, virou secretário da Cultura. Do samba no pé ao comando, regendo.

Porém, como diz a marchinha: “Este ano não vai ser Igual àquele que passou,/ Eu não brinquei,/ Você também não brincou,/Aquela fantasia,/ Que eu comprei ficou guardada,/E a sua também, ficou pendurada.” Este ano, está combinado: vamos ficar em casa e nos preservar. O carnaval vai ter de esperar. 

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