Hospital das Clínicas vai precisar de mutirões para dar conta de cirurgias

Incêndio nos ambulatórios pôs na fila de espera mulheres com suspeita de câncer de mama e grávidas de risco

Fabiane Leite e Emilio Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

O incêndio que parou o prédio dos Ambulatórios do Hospital das Clínicas de São Paulo, na véspera do Natal, deixou para trás uma lista de pacientes que precisavam de cirurgias eletivas - as que não são de emergência, podem ser agendadas com antecedência, mas que, quanto mais demoram, mais comprometem a qualidade de vida dos doentes, prolongando sua agonia. Segundo a direção do HC, até 50 cirurgias eletivas eram realizadas todos os dias no centro cirúrgico da unidade nessa época.Duas das principais divisões do HC, a de Ginecologia e Obstetrícia e a de Urologia, já cogitam a realização de mutirões em 2008 para dar conta da demanda acumulada de operações, um problema crônico no centro médico, decorrente da falta de organização e de preparo da rede de saúde - o que ficou mais evidente agora. Por ser um centro de excelência, o Hospital das Clínicas assume demandas de todos os cantos da cidade - e até do País.Um total de 34 salas de cirurgia do 9º andar do Prédio dos Ambulatórios foram comprometidas pela fuligem e pela pane elétrica trazidas pelo fogo. Ainda não se sabe até que ponto os equipamentos podem ter sido afetados. Até o fim da semana passada, não se sabia quando voltariam a funcionar - a expectativa da administração era para fevereiro. Operações de emergência continuaram a ser realizadas, mas em outros prédios do complexo hospitalar.No caso da divisão de Ginecologia, a situação é mais preocupante, pois há uma fila de dez mulheres, incluindo principalmente pacientes com suspeita de câncer da mama que não foram operadas na semana passada. "Normalmente, íamos operar entre Natal e ano-novo. Agora, vamos aumentar o número de atendimentos e fazer mutirões para atender à demanda", admitiu o responsável pela divisão, Edmund Baracat, professor-titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP.A divisão já vinha organizando mutirões para dar conta da demanda de outros procedimentos, até mesmo de pacientes que não são do hospital. Em setembro de 2007, por exemplo, atendeu 500 mulheres de regiões pobres da capital paulista que precisavam de exames de papanicolau e mamografia. UROLOGIASegundo Antônio Lucon, chefe-clínico da Divisão de Clínica Urológica do HC, pelo menos dez homens, principalmente com problemas benignos de próstata, precisarão ter cirurgias reprogramadas. Também pessoas com disfunção erétil estão na fila. "Felizmente são poucos. Provavelmente a solução será fazer um mutirão."A situação das gestantes de alto risco é mais preocupante. Na quarta-feira, uma paciente - grávida de 17 semanas e com câncer de ovário - seria operada no HC. "No dia marcado para a cirurgia, não tinha como atendê-la, pois o centro cirúrgico estava fechado", diz o ginecologista e obstetra Waldemir Rezende.A saída encontrada foi marcar a operação para o Hospital Pérola Byington, também referência em saúde da mulher. Mas a paciente não aceitou. Sente-se mais segura se for operada no Hospital das Clínicas. O prazo para que essa cirurgia seja feita é até a 20ª semana de gravidez. "Vamos esperar essas três semanas, mas realmente não acredito que até lá o fluxo para as cirurgias esteja normalizado", diz o médico. Esse é apenas um dos casos de atendimento feitos nos hospitais universitários, o HC entre eles. Com a interdição parcial do Prédio dos Ambulatórios, o destino de outros é incerto.

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