Hospital de campanha desafoga postos de saúde

Unidade tem 16 médicos e pode atender até 400 por dia

Eduardo Nunomura, O Estadao de S.Paulo

02 de dezembro de 2008 | 00h00

O supervisor da vigilante Maria do Nascimento, de 28 anos, percebeu a expressão de dor da funcionária e não hesitou em levá-la ao Hospital de Campanha (HCamp) da Força Aérea Brasileira. Grávida, começou a sentir dores na região abdominal, a barriga mexeu menos do que gostaria e o que ela mais temia era sofrer outra perda. A última foi a casa, que ficou debaixo d?água. Nada restou. Daiane Rodrigues da Silva Chagas, de 25, também consultou um médico para tratar sua broncopneumonia. Ambas receberam tratamento e passam bem, inclusive o bebê de 18 semanas. Elas foram as primeiras pacientes da unidade montada pelos militares para ajudar no socorro às vítimas em Santa Catarina. Maria tem um filho de 2 anos, Pedro. Moradora de Salseiro, periferia de Itajaí, ela saiu de casa, no dia 23 passado, com água quase na altura do pescoço. Não teve tempo de levar nada. O fogão e a geladeira, emprestada de uma vizinha, foram parar no quarto. Daiane foi para um abrigo, úmido e sem colchões para todos. Ela, o marido João, de 53, e o filho Pablo, de 9, preferiram voltar para a casa ainda alagada. Temiam saques. Sem cama, usa dois edredons para dormir. Vinda de Porto Alegre há menos de um mês, perdeu até a televisão, o primeiro bem adquirido com o emprego em Itajaí. E acabou doente. "É muita desgraça de uma vez." A Aeronáutica, contudo, teme que os moradores do Vale do Itajaí procurem o HCamp diretamente, como ocorreu em quase todo o dia de ontem, o primeiro dia de funcionamento da unidade. Não há estrutura para atender mais de 400 pessoas por dia. São 80 militares, 37 da área de saúde, sendo 16 médicos das especialidades de pediatria, odontologia, ginecologia, clínica médica e ortopedia. Das 8 às 17 horas, eles vão trabalhar em parceria com a rede pública do Estado, que fará a triagem dos pacientes e encaminhará os casos mais leves. Isso desafogará os postos de saúde das cidades castigadas. Mas será impossível evitar o afluxo de moradores vizinhos ao HCamp, estrutura de 9 toneladas com 40 barracas montadas em um dia. O hospital está num pátio de caminhões na BR-101, no entroncamento com a estrada que liga Itajaí a Blumenau, vizinho a bairros populosos. Ontem, atendeu 85 casos variados, de Itajaí e de outras localidades. CONSEQÜÊNCIASO caminhoneiro Valmor Zanca e sua mulher, Noricélia, de 46 e 42 anos, moram a menos de 500 metros do acampamento militar. Eles e dois filhos não foram vítimas da enchente, mas a família ajudou a remover os escombros da casa da mãe de Zanca, alagada. Depois de se consultarem num hospital particular e receberem receita de um remédio contra febre, decidiram procurar uma segunda opinião no HCamp. A febre do filho Gustavo, de 15, persistia. Os médicos militares diagnosticaram como um possível caso de leptospirose. O jovem foi reencaminhado para internação. "O problema não é a enchente, mas o que vem uma semana depois. Quando deixarem de falar de Santa Catarina, as coisas mais graves começam a acontecer", prevê Zanca. Na cheia de 1983, ele ficou 11 dias na UTI de um hospital privado. Na ocasião, ficou doente três ou quatro dias depois de ter contato com as águas lamacentas. E até hoje não sabe ao certo o que o acometeu. A estimativa da secretária de Saúde do Estado, Carmen Zanotto, é de que o HCamp possa reduzir em até 60% os casos clínicos que acabam sobrecarregando as unidades de saúde municipais. São pacientes com dores no corpo, febre, diarréia. Logo após uma calamidade, a procura pelos serviços públicos explode. E a preocupação médica é evitar que epidemias, como as de leptospirose, toxoplasmose e hepatite, espalhem-se rapidamente pela população. Milhares estão nos abrigos, dormindo muito perto uns dos outros. Até ontem, dez casos de suspeita de leptospirose foram notificados junto à Vigilância Epidemiológica do Estado. Esse número é desatualizado, porque as prefeituras levam um tempo para comunicar os dados à secretaria de Saúde. Mas os pacientes com suspeitas de estarem com a doença, transmitida pelo contato com água contaminada por urina de ratos, devem procurar ajuda médica imediatamente.

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