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Hospital e 'iglus' viram moradias para 800 famílias de favela do Rio

Até 2007, cubículos no Complexo do Caju eram usados por uma ONG que dava aulas de circo a jovens

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

06 Março 2013 | 12h07

RIO - Há cinco anos, sete famílias se amontoam precariamente em três cubículos em formato oval, uma espécie de "iglus", localizados na Favela Vila dos Sonhos, no Complexo do Caju, zona portuária do Rio. O conjunto de 13 favelas foi ocupado na madrugada do último domingo, 3, pelas forças de segurança, após décadas de domínio do tráfico. Até 2007, funcionou nos iglus uma ONG que dava aulas de circo a jovens da região.

Ironicamente, o nome da entidade - que encerrou as atividades misteriosamente e é investigada pelo Ministério Público Federal - é "Fábrica dos Sonhos". A ONG é suspeita de envolvimento num esquema que teria desviado R$ 20 milhões em precatórios da União. Um dos moradores da Fábrica dos Sonhos é o biscateiro Reginaldo Jerônimo da Silva, de 41 anos.

Após cumprir pena de 2 anos e 4 meses por tráfico e porte ilegal de arma, Reginaldo retornou ao local há duas semanas. Sem canalização de água e esgoto, o cubículo possui dois cômodos: um quarto (que também serve de cozinha) e um banheiro improvisado.

Na terça-feira, por volta de meio-dia, Reginaldo se preparava para o almoço: duas bananas, dois salgados de queijo com presunto e um suco de goiaba (feito com água suja fervida no fogão). Condenado a 6 anos de cadeia, ele está no regime semiaberto e é monitorado por uma tornozeleira eletrônica. Seu "sonho", agora, é conseguir um emprego com carteira assinada.

"Já paguei pelo que fiz. Estava no local errado, na hora errada. Agora quero reconstruir minha vida. Mas com passagem pela prisão e essa tornozeleira, fica difícil, né?", ressalta Reginaldo, pai de 9 filhos que moram com sua ex-mulher no Complexo da Maré, vizinho ao Caju. A "Fábrica dos Sonhos" fica na parte alta da Vila dos Sonhos, nos fundos do Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, fechado pelo governo do Estado desde 2008. O nome da comunidade, surgida há cerca de dez anos, foi inspirado na ONG.

As aulas circenses eram dadas numa lona, que ficava localizada atrás dos iglus. Feitos de alvenaria, os iglus eram utilizados como refeitório e pela parte administrativa da "fábrica".

O local onde ficava a lona também foi invadido: atualmente há várias residências no terreno. "Saíram muitos profissionais de circo daqui. Alguns trabalham no Exterior até hoje. Era uma coisa linda, mas infelizmente virou moradia", diz o presidente da Associação de Moradores da Vila dos Sonhos, Francisco Balbino, de 45 anos.

Dom Pedro II. Após a interrupção das atividades do hospital pelo governo do Estado, o terreno de cerca de 20 mil metros quadrados foi invadido. Atualmente vivem quase 800 famílias no local, segundo Balbino. O prédio principal do hospital, que também está ocupado por famílias sem-teto, foi inaugurado em 9 de novembro de 1889 pelo imperador Dom Pedro II, seis dias antes da Proclamação da República.

Em 3 de julho do ano passado, o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, e o presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop), Ícaro Moreno, estiveram no local e anunciaram a construção de apartamentos no terreno, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

As famílias invasoras seriam removidas e receberiam aluguel social até a entrega dos imóveis. Entretanto, sete meses depois, não há nenhum sinal de obras no local. "Falaram para os moradores abrirem conta bancária para receberem o aluguel social, mas até agora nada aconteceu. Ligo para a Emop e não me dão qualquer explicação", afirmou Balbino.

Outro lado. A Secretaria estadual de Saúde informou que caberia à Emop se pronunciar sobre as obras. Em relação ao fechamento do hospital, a Secretaria disse que os pacientes que eram tratados na unidade foram transferidos para o Hospital Federal dos Servidores, no centro da cidade.

Já a Emop informou que o terreno onde funcionava o hospital pertence à União, e que o projeto ainda está em negociação com o governo federal. Os órgãos não se manifestaram sobre o estado de abandono do prédio do hospital inaugurado no século 19.

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