Hotel Popular atrai 134 hóspedes na 1ª noite

Pela primeira vez nos últimos oito anos, o paraibano Iran Régis Barbosa dormiu em uma cama. Pagou R$ 1,00 pela estadia, com direito a roupa de cama e banho, sabonete, pasta e escova de dentes. Mas não comeu o café da manhã oferecido - pão com manteiga, biscoitos e suco de frutas. Saiu às 4 horas porque precisava chegar cedo ao trabalho. Aos 61 anos, ele faz biscates para camelôs do Largo da Carioca. "Pago contas, faço depósitos, jogo no bicho", explica. Barbosa foi uma das 134 pessoas que passaram a primeira noite no Hotel Popular.O local foi inaugurado ontem pela primeira-dama do Estado, Rosângela Matheus, para abrigar trabalhadores que pernoitam nas ruas porque não têm dinheiro para a condução de volta para casa. Somente nove dos 28 quartos para mulheres ficaram vagos ontem. "Foi tranqüilo, silencioso. Tinha até ventilador de teto", disse Barbosa, mais conhecido como Careca. Dormiu tão bem que nem percebeu que o governador Anthony Garotinho fez uma visita surpresa aos primeiros hóspedes do Hotel Popular. Para passar a noite ali, Careca teve de driblar a administração. A hospedagem é destinada àqueles que têm casa, mas dormem nas ruas durante a semana por falta de dinheiro para a passagem. Há oito anos, o "boy dos camelôs", como ele se apresenta, passa as noites sob a marquise da lanchonete Bob?s, no Largo da Carioca, centro do Rio."Não menti meu endereço. Eu disse: Largo da Carioca em frente ao Bob?s. Eles me deixaram ficar", contou. Careca conseguiu a vaga porque não tem o que o subsecretário de Ação Social, Ricardo Bittar, chama de "vínculos afetivos com a rua". Ele tem documentos, a barba aparada, unhas cortadas e roupas limpas, lavadas aos domingos no chafariz da Carioca. "Durmo na rua porque foi o único lugar que sobrou. Mas era bom ter uma casa, um lugar para voltar. Agora eu tenho aqui", diz, referindo-se ao hotel.Careca teve como vizinho de quarto o vigia Reinaldo da Costa, de 63 anos, que vestiu terno e gravata para passar a noite no Hotel Popular. "Eu gosto de andar bem vestido, nem no trabalho eu uso uniforme", garantiu. Ele usava terno marrom, camisa laranja e uma gravata com motivos infantis. Morador da Vila São Miguel, na Baixada Fluminense, Costa trabalha num condomínio de luxo na Estrada da Gávea. Com "trânsito favorável", leva duas horas e meia para chegar a sua casa. Resolveu dormir no Hotel Popular para economizar R$ 7 diários com transporte. "Vai ajudar no leite do menino", explicou.A inauguração do Hotel Popular também atraiu curiosos. A digitadora Cristiane Mourão, de 21 anos, viu imagens do hotel na televisão e decidiu arriscar. "Vim para saber como é. Se for confortável posso até passar a dormir aqui para economizar o dinheiro da passagem", disse. Ela mora em Nova Iguaçu e gasta R$ 5 por dia. A fila para passar a primeira noite no Hotel Popular começou a se formar às 16h30 de ontem. Eram muitos homens e poucas mulheres, suados depois de um dia de trabalho. Alguns levavam bolsas com muda de roupa. Outros, enquanto esperavam, comiam o pão que guardaram do almoço no Restaurante Popular Betinho, instalado na Central do Brasil, vizinho ao hotel, que tem refeições a R$ 1. Os hóspedes preencheram ficha na recepção, apresentaram documento de identificação e receberam o "kit higiene". As bolsas foram revistadas - é proibida a entrada de bebidas alcóolicas e armas. Os hóspedes acomodaram-se em pequenos cubículos separados por divisórias. Cada um deles é mobiliado com cama de solteiro e mesinha de cabeceira. As portas têm cortinas cor-de-rosa ou lilás nos alojamentos femininos, e azuis nos quartos para homens. Há cinco vagas para deficientes físicos e banheiros coletivos com chuveiros.O subsecretário Bittar, idealizador do projeto, estava emocionado. "Esse é um trabalho preventivo, para evitar que as pessoas se percam, criem laços com a rua", disse. Nove mendigos pediram vagas no hotel e foram levados para abrigos. A Fundação da Infância e Adolescência encaminhou três famílias para alojamentos do Estado.

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