''Houve um recuo político e aumento do artificialismo''

Presidente do comitê financeiro da campanha do PSDB, José Gregori diz ver um "artificialismo" exacerbado na campanha eleitoral deste ano. "Houve um recuo do setor político e um crescimento do artificialismo cenográfico vindo dos marqueteiros", declarou ao Estado. "O problema é que para ser marqueteiro, além do talento profissional, você tinha que ter militância partidária. Senão fica sempre meio artificial", disse.

Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Para o secretário especial de Direitos Humanos da prefeitura paulistana, há uma "nuvem hipnótica" no País que alimenta a ideia de que a eleição já está definida. Ele ataca as pesquisas, o marketing e a despolitização.

Nesta semana, o comitê de Serra enviará outra prestação de contas parcial ao Tribunal Superior Eleitoral. Desta vez, diz Gregori, a receita será "cinco ou seis" vezes maior que a da prestação anterior, quando foram declarados apenas R$ 3,6 milhões de arrecadação. "Desde o começo, disse que não seria uma campanha na baba."

Na semana passada, o sr. disse que a ideia de que a eleição já está resolvida cria um "cheiro de pré-fascismo". O que quis dizer?

Uma eleição tem de ser aproveitada minuto a minuto. Os três candidatos com viabilidade são figuras com passado de luta democrática. Agora o período eleitoral estabelece diferenças. Estou indignado porque vejo que a 34 dias da eleição, não há mais o que fazer, a não ser esperar a posse? Só o fascismo ou qualquer regime autoritário pré-determina resultados. Estamos transformando esse mês antes da eleição num espetáculo de celebração e conformismo. As pesquisas, que são mero indicativos, se transformaram em instrumentos decisórios. A eleição é um ato complexo, não aritmético. Precisamos quebrar essa nuvem hipnótica. Os "vencedores" não devem se dirigir à apoteose nem os "vencidos" cruzar os braços para curtir a derrota.

A oposição cruzou os braços?

Falo de maneira geral. É o que vejo. A gente sente nas ruas que esses 30 dias serão um excesso de algo que já está feito.

O PSDB é conhecido por não ter militância forte. Também não fez oposição clara a Lula. Serra resistiu a se colocar como governador de oposição. Esse imobilismo não seria reflexo disso?

Poderia dizer que sim, mas não daria a resposta total. Isso é consequência da "despolítica" dos últimos anos. As pessoas esperam os programas da TV e diante deles tomam as decisões de acordo com as pesquisas. São os dois protagonistas dessa eleição. A política é diálogo, debate. Os candidatos não apresentam totalmente suas mensagens porque acham que as pesquisas são soberanas. Os que as pesquisas favorecem já se consideram vitoriosos e passam a repartir o pão. Está tudo errado.

Inclusive a campanha tucana?

É uma campanha que está enfrentando, mais do que qualquer outra, as consequências dessa onda. A democracia que construímos tem segmentos. Não tem o criador de determinado assunto. FHC é o homem do Real, mas sem Itamar Franco não conseguiria fazer o Real, que foi muito bem manejado por Lula. Essa dialética democrática precisa ser explicada para o eleitor. E não está sendo.

E a campanha esconde FHC.

O problema é que para ser marqueteiro, além do talento profissional, você tinha que ter militância partidária. Ter vivido em concreto a história de um País. Senão fica sempre meio artificial. No tempo do Rui Barbosa, Juscelino, Jânio Quadros, não tinha marqueteiro. O sujeito ia para os comícios e apresentava as plataformas. Não tinham esses momentos de realidade edulcorada, em que se transforma o Brasil num país perfeito, como se fosse a Disneylândia. Tem uma incidência de artificialismo que precisa ser desfeita.

O programa na TV do Serra trouxe uma favela cenográfica.

Corrigiu no segundo programa.

Foi uma atitude equivocada?

É a parte profissional que o marqueteiro, seja o dele ou seja de outro candidato, tem como receita. Eles não têm culpa. Houve um recuo do setor político e um crescimento do artificialismo cenográfico vindo dos marqueteiros. Eles deveriam apenas dar um certo colorido a um quadro feito pelos políticos.

Não acha que a "nuvem hipnótica" existe porque as pessoas não querem mudança? Consideram que suas vidas estão melhores.

Se tem uma visão que não é censurável, mas é de curta distância, de uma democracia utilitarista, tudo bem. Estou bem, logo o País está bem. Mas se você vir o País como um todo, vê as feridas. Temos que corrigir essa deturpação. Nessa eleição, por exemplo, Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) não vai ter um voto, com as ideias dele um pouco fora de lugar. Mas ninguém pode negar que a presença dele é um fator de respeitabilidade.

Na semana passada, Serra pediu aos coordenadores mais infraestrutura. Falta dinheiro?

Não. Na minha parte, a tesouraria, o que foi programado entrar e sair está nos conformes. Desde o começo, disse que não seria uma campanha na baba, que o governo teria muito mais facilidade de fazer a campanha que a oposição. Essas coisas estão se comprovando na prática. Mas posso dizer que as coisas estão em dia. O que se esperava arrecadar arrecadou-se dentro da perspectiva e das dificuldades por ser oposição. O que tinha que gastar gastou.

Por que o sr. diz "dificuldades por ser oposição"? Há algum constrangimento dos empresários em doar para a oposição?

Constrangimento, não. O problema é que hoje a sua atividade econômica depende maciçamente do governo federal. Surge naturalmente uma maior facilidade de arrecadação no governo federal que na oposição. Mas o combustível financeiro necessário para a navegação eleitoral está tendo.

Integrantes da cúpula partidária disseram que o diretório nacional não estaria repassando recursos para a campanha, daí a arrecadação baixa, de R$ 3,6 milhões, na primeira prestação.

Os R$ 3,6 milhões foram dos dez primeiros dias. Hoje as cifras são diferentes. Os recursos vêm tanto do comitê financeiro como do partido. Tanto um quanto o outro estão cumprindo suas obrigações. Não tem notícia de ninguém que tem deixado receber. Também não tem notícia de ninguém que a gente imaginava que iria contribuir e não contribuiu.

Mas e a polêmica interna de que tucanos estavam segurando dinheiro para os tucanos?

É polêmica. Não é real.

O sr. tem conhecimento dos R$ 4 milhões que teriam sido arrecadados por pessoa ligada ao partido e que teriam sido desviados.

Li num blog, depois numa revista. Não tenho um alfinete para acrescentar nem para retirar. Não sei quem é essa pessoa, nunca ouvi o nome dessa pessoa (Paulo Preto, ex-diretor da Dersa), desconheço totalmente que tivesse havido essa arrecadação para a campanha. O que sei é que desde do dia 9 de julho constituímos o comitê financeiro e que não tem um centavo que tenha deixado até agora de ser justificado. Tanto na parte que entra quando na que sai. Do ponto de vista deste comitê financeiro, imaginar que alguém poderia ter recolhido R$ 4 milhões e não recolheu, é absolutamente delirante.

De quanto será a arrecadação na próxima prestação?

Será mais que o quíntuplo. Cinco ou seis vezes a primeira. Mas a cifra exata ainda não tem.

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