IC não acha indício de confronto e indica execução na Castelinho

Conforme laudos, supostos integrantes do PCC não participaram de tiroteio, mas foram mortos em rodovia

Josmar Jozino, JORNAL DA TARDE, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

Laudos do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo e depoimentos de testemunhas indicam que os 12 assaltantes mortos por policiais militares na Operação Castelinho, em 5 de março de 2002, não participaram de tiroteio, mas foram executados. Conforme os exames da perícia, não havia nenhuma gota de sangue em 14 das 16 armas que a PM disse ter encontrado com os mortos. Juntos, eles levaram 61 tiros e - ao contrário do arsenal apreendido - ficaram encharcados de sangue.Oito mortos estavam num ônibus, dois numa caminhonete D-20 e dois numa Ford Ranger roubadas. A operação aconteceu na praça de pedágio localizada no km 12,5 da Rodovia Senador José Ermírio de Moraes, a Castelinho, no interior paulista. De acordo com a PM, os 12 homens eram integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), iriam assaltar um avião-pagador em Sorocaba e morreram durante confronto. No entanto, laudos do IC e depoimentos de testemunhas apontam para outra versão.A Operação Castelinho foi planejada e coordenada por policiais militar do Grupo de Repressão e Análise aos Delitos de Intolerância (Gradi). O grupo foi criado em meados de 2001 pela Secretaria da Segurança Pública para combater as discriminações de raça, sexo e religião.Laudos assinados pelos peritos criminais Isaías Wanderley Carvalho e Sonia F. L. Montefusco atestam que nas 14 armas apreendidas pela PM não havia presença de sangue. Apenas em duas foram detectadas "impregnação de substância hematoide". Além disso, exames residuográficos apuraram sinais de pólvora nas mãos de apenas 3 dos 12 mortos.Para a promotora de Justiça Vânia Maria Tuglio, os laudos e os depoimentos de testemunhas indicam que os 12 homens foram executados - e não mortos em tiroteio. "Não tenho dúvidas de que houve uma execução planejada e desejada." Vânia denunciou à Justiça 53 PMs e os presidiários Marcos Massari, o Tao, e Gilmar Leite Siqueira pelos 12 homicídios triplamente qualificados. O processo corre na Vara do Júri de Itu, no interior. TESTEMUNHASEm depoimento à Polícia Civil, aos promotores Alfonso Presti e Vânia e também à Justiça, testemunhas disseram que não viram sinais de sangue no arsenal. Uma delas é o delegado José Humberto Urban Filho. Ele trabalhava na Seccional de Sorocaba no dia das mortes.Urban Filho estava na praça de pedágio. Em depoimento à Polícia Civil em 3 de outubro de 2003, ele afirmou que as armas apreendidas pelos policiais estavam sobre um pano, expostas no chão, ao lado de uma viatura. Disse ainda não se recordar de ter visto manchas de sangue nas armas.O motorista de caminhão Ednei Marcos da Silva, de 33 anos, passou pelo pedágio naquela manhã. Ele desceu da cabine e se escondeu atrás do veículo, até que um policial militar o mandou ficar deitado no chão. Mesmo assim, Silva visualizou o ônibus no qual estavam os oito homens.Silva não viu nenhuma arma com os ocupantes do coletivo. Assim que se deitou no chão, começaram os disparos. Depois de 20 minutos, ele viu as armas que seriam dos mortos. "Estavam acondicionadas em cima de um pano. Não vi mancha de sangue nas armas", afirmou à juíza Roberta Virgínio dos Santos.Já o motorista de ônibus Antonio dos Santos, de 62 anos, disse à Polícia Civil ter visto o passageiro de uma das caminhonetes ser abordado por um PM e deitar-se no chão de bruços. Depois ouviu tiros. O homem abordado foi um dos 12 mortos. Outro motorista, Luiz Sergio Rosa, de 50 anos, afirmou à Justiça ter visto um homem ser retirado do ônibus e alvejado na sequência.BAGAGEIROEverardo Tanganelli era o delegado-seccional de Sorocaba e também foi à praça do pedágio. Ele entrou no ônibus no qual os oito homens morreram. Em depoimento à Polícia Civil, o delegado contou que no corredor do coletivo havia muito sangue e, por isso, teve de dobrar a calça. Afirmou que alguém posicionado no corredor do ônibus poderia ter efetuado os disparos para baixo.Tanganelli viu algumas armas de grosso calibre sobre um pano e outras numa caixa ao lado de uma Blazer da PM. Ele disse que o armamento foi colocado na viatura e depois "foi praticamente negado por PMs o acesso às armas". Segundo depoimento de outra testemunha, as armas apreendidas estavam no bagageiro do ônibus. Essa testemunha afirmou que a munição era de festim. CRONOLOGIAFevereiro de 2002Os presos Gilmar Leite Siqueira e Marcos Massari, escolhidos no ano anterior, e dois agentes do Gradi se infiltram no bando dos 12 homens liderados por Djalma Coban, Luciano, Sacola e Gerson. No dia 25, os infiltrados se reúnem com os assaltantes na Praça de Alimentação do Shopping Tatuapé, na zona leste da capital, para convencê-los a roubar R$ 28 milhões de um avião-pagador em SorocabaNo dia 27, os infiltrados e os criminosos Luciano, Sacola, Djalma e Gérson vão ao aeroporto para conhecer o sistema de segurança . O assalto é agendado; na operação seriam usadas a picape Ranger e a D-20 roubadas e o ônibus clonado para transportar a quadrilha e armas. Uma Parati faria a escolta. No dia seguinte, o Gradi conclui que o pedágio é ideal para a abordagemEm 5 de março, 100 PMs de Choque, Rota e Polícia Rodoviária interceptam o grupo

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