Idas e vindas revelam a falta de gosto pela política

O vaivém de posições da presidente Dilma Rousseff com seus interlocutores no Congresso tem sido visto pela base como demonstração de fragilidade na articulação e despreparo político. A prorrogação do prazo, por 90 dias, de pagamento das emendas parlamentares ao Orçamento de 2009 serviu para acrescentar mais um episódio na coleção de idas e vindas.

Denise Madueño, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2011 | 00h00

Nas negociações do projeto do Código Florestal, ocorreu situação semelhante. O governo bateu o martelo e avisou aos ruralistas que manteria a data de início das sanções a desmatamentos ilegais de vegetação nativa, previsto para 11 de junho, mas, às vésperas do fim do período concedido aos proprietários para se adequarem à lei, a presidente concordou em estender o prazo até o fim do ano.

No mês passado, os senadores aliados ficaram sem entender qual orientação deveriam seguir no projeto que acaba com o sigilo eterno. Quando era ministra da Casa Civil, Dilma defendeu o fim dessa possibilidade. Neste ano, porém, orientou a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, a negociar com a base no Senado uma mudança no texto aprovado pelos deputados para garantir o sigilo eterno de parte dos documentos.

Essa posição atendia à pressão dos senadores e ex-presidentes Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), presidente do Senado. A decisão, no entanto, não durou muito tempo, a ponto de haver o recuo do recuo. Agora, a orientação é aprovar o projeto que prevê o prazo máximo de 50 anos de sigilo para papéis ultrassecretos.

Mais recente, o recuo no caso do decreto de cancelamento dos restos a pagar provocou críticas dos aliados. "Foi um desgaste desnecessário para a presidente", disse um líder da base. Ele afirmou que Dilma poderia ter se antecipado e prorrogado o prazo, e que a coordenação política, nesse caso, não serviu de proteção nem de anteparo para a presidente, que é sua função. "Era óbvio que o decreto seria prorrogado."

"É uma incompetência danada. Não se pode vir a público antecipar coisas que ainda serão ajustadas", afirmou um líder da base. Na avaliação de outro aliado, a presidente revela não ter aptidão para a política. "Ela não gosta nem sabe fazer política." Aliados sugerem cautela antes da definição de posições para evitar a necessidade de recuo. "Todos somos passíveis de erros, muitas vezes provocados pela celeridade na decisão. Ao mesmo tempo, isso mostra a capacidade de voltar atrás para corrigir o erro", disse o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

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