Identificado grupo que fez disparos antes de corrida no Alemão

Bandidos seriam do Comando Vermelho e chegaram de Kombi; Secretaria de Segurança do Rio prepara mudanças no policiamento no complexo

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2013 | 16h21

RIO - O setor de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública identificou os criminosos que fizeram disparos a esmo no Complexo do Alemão, na largada da corrida Desafio da Paz, competição que reuniu 2 mil pessoas no domingo, 26. De acordo com as primeiras informações, o grupo, ligado à facção Comando Vermelho, não é do complexo - os criminosos chegaram à Vila Cruzeiro em uma Kombi.

Os disparos não deixaram feridos e atingiram a sede da Unidade de Polícia Pacificadora da favela. Os nomes dos suspeitos não foram divulgados.

Por causa das recentes demonstrações de força pelo tráfico – na quinta-feira, 23, comércio e escolas foram obrigadas a fechar as portas, em sinal de luto pela morte de um criminoso –, a Secretaria de Segurança prepara mudanças no policiamento no complexo. O secretário José Mariano Beltrame – que estava entre os corredores – passou a tarde reunido com auxiliares.

Segundo a assessoria de Imprensa da Secretaria de Segurança, eles trataram do "redimensionamento" do policiamento no Complexo do Alemão.

Em nota, a secretaria informou que "os detalhes não serão divulgados, mas, (...) serão medidas perceptíveis à toda a população".

A secretaria não confirma a instalação de uma base avançada da UPP na Pedra do Sapo, localidade em que tem ocorrido confrontos entre criminosos e policiais. Na segunda-feira, 27, o policiamento no Complexo do Alemão foi reforçado – o aumento do efetivo foi de 30% (por motivos de segurança, o Coordenadoria de Polícia Pacificadora não informa o número de homens que atuam no conjunto de favelas). Esses policiais foram deslocados de outras UPPs. Escolas, creches, postos de saúde e o comércio funcionaram normalmente.

Para o sociólogo José Cláudio de Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, os episódios recentes no Alemão demonstram a fragilidade do programa de pacificação de favelas. "Mais do que um baque, (a demonstração de força dos traficantes) desmistifica esse programa de segurança, mostra a fragilidade, sua utilização política. É um programa focado, sim, em megaeventos que estão ocorrendo, como Copa, Jornada e Olimpíada. É preciso mostrar cenário para o mundo que há controle de áreas perigosas, mas isso não existe no Rio de Janeiro", afirmou.

Para Alves, as UPPs se mostram fortes em "comunidades menores, mais facilmente controladas". "Mas não se mostra eficaz com a extensão, sua dimensão geográfica, a forma como tráfico se estabeleceu e a incapacidade de se manter força de controle como inicialmente se teve, com Exército e conjunto de policiais muito maior", afirmou.

O governador Sérgio Cabral disse que o Alemão abriga o "centro nervoso" do Comando Vermelho e, por isso, o trabalho é mais difícil. "Depois de tanto anos de abandono, uma comunidade tão grande, onde ali é o centro nervoso do comando de uma facção criminosa, nós não vamos nos iludir que em dois anos e meio nós vamos resolver o problema. Esse é um trabalho permanente", afirmou, após encontro com prefeitos do Rio.

Incidente. O tiroteio foi promovido pelos traficantes às 7h30 de domingo nos vizinhos Complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio. A troca de tiros assustou moradores e atrasou o início do Desafio da Paz, uma corrida anual promovida desde 2011 pela ONG AfroReggae. Não houve feridos, mas dezenas de pessoas que se preparavam para a corrida se esconderam, com medo, e algumas desistiram de correr. Marcada para as 8h, a disputa só começou às 9h.

Ocupado por forças de segurança desde novembro de 2010, o Complexo do Alemão era o principal reduto da facção criminosa Comando Vermelho. Embora hoje disponha de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a região ainda abriga traficantes ligados à facção. O secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, participou da corrida, que teve

2.000 inscritos. O percurso, de 5 km, é semelhante àquele percorrido por criminosos filmados em fuga durante uma operação policial promovida em 2010.

Segundo o coordenador das UPPs, coronel Paulo Henrique de Moraes, houve tiros no Alto da Pedreira, no Complexo do Alemão, e na Vila Cruzeiro, na Penha, em um trecho conhecido como Treze, onde um conteiner da UPP foi metralhado. Segundo o coronel, os disparos partiram de traficantes e não houve confronto. Logo após o tiroteio, PMs vasculharam a área, mas ninguém foi preso. O início da corrida foi autorizado após essa vistoria da polícia.

“O que aconteceu foi uma ação que infelizmente é irresponsável e criminosa, resquício de admiradores de uma facção que se pautou pela banalização da violência. É óbvio que foi uma facção, que, mesmo enfraquecida, acha que com atos assim pode afastar a polícia e o Estado, mas nós não sairemos”, declarou Beltrame. “Eu já estava inscrito na prova e, se fosse corredor, gostaria de ver o secretário de Segurança aqui”, disse Beltrame.

Aos 56 anos, ele completou a prova em 35m36s. O vencedor, Gilberto Lopes, fez o percurso em 17m12s. “Existe toda uma questão simbólica por trás dessa corrida. Mesmo com a tensão inesperada, o que importa é que a prova foi disputada. Seria triste cancelar”, afirmou o coordenador do AfroReggae, José Junior.

Tensão. A última semana foi tensa no Complexo do Alemão. Na quinta-feira, o comércio, 14 escolas e 7 creches não funcionaram por ordem de traficantes. Mais de 11 mil alunos ficaram sem aulas. A ordem dos traficantes foi inicialmente interpretada como um protesto pela morte do suposto traficante Anderson Mendonça, de 29 anos, ocorrida na noite de terça-feira, 21, durante troca de tiros com PMs.

Depois surgiu o boato de que o protesto foi pelo traficante Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, que era chefe do tráfico quando a polícia ocupou o Alemão e teria sido morto no Paraguai durante operação policial. A polícia negou ter conhecimento de sua morte ou prisão.

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