Iglus de Guadalupe vão parar em livro

Casas construídas há 60 anos estão em ?Penso Subúrbio Carioca?, que propõe intervenções em ?bairros distantes?

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Um conjunto de casas chama a atenção na Rua Calama, em Guadalupe, zona norte do Rio. São construções em formato de semiesfera, que lembram iglus. Mas ao contrário dessas moradias erguidas nas regiões mais frias do planeta, as casas-balão, como são conhecidas, foram construídas no calor do subúrbio carioca. Eram parte de uma experiência habitacional para população de baixa renda, que não seguiu adiante.

Sessenta anos depois que as primeiras unidades foram concluídas e encheram toda a Rua Calama, algumas poucas casas ainda resistem. E mereceram a atenção de um dos escritórios de arquitetura que aceitaram o desafio da editora Ana Borelli - tiveram de pesquisar a história e as peculiaridades de bairros do "outro lado da cidade" e propor intervenções. As ideias que surgiram foram reunidas no livro Penso Subúrbio Carioca, o primeiro da Editora TIX, dirigida por Ana, que será lançado no dia 15, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema.

Para obter aquele formato de casa, inflava-se um balão de lona plástica, portas e janelas eram demarcadas com formas de madeira e tudo isso era revestido por uma tela metálica e recoberto por cimento. Havia do "balão pequeno", de quarto e sala, ao "balão grande", de três quartos.

"Foi uma espécie de laboratório habitacional. Por conta da 2ª Guerra, ficou-se cinco anos sem construir casas populares. E, terminada a guerra, o governo federal procurou modelos de casas para construir", explica o professor Milton Teixeira, estudioso da história da cidade. "O subúrbio foi escolhido para ser esse laboratório, mas as casas eram infernalmente quentes e o projeto não foi adiante."

A rua de "iglus" não duraria muito. Moradores driblaram as deficiências do projeto, sujeito a infiltrações, com coberturas de telhas de amianto ou alumínio. Outros fizeram "puxadinhos", unindo sua casa-balão a uma construção convencional. Teve ainda quem "cortasse" o iglu ao meio, transformando-o em galpão. Um deles hoje é utilizado para comércio de material de construção. A maioria deu lugar a casas convencionais.

A costureira Juraci do Nascimento Rocha, de 63 anos, e o marido, o aposentado Manoel da Rocha, de 68, não quiseram saber de demolir sua casa-balão. "A rua de ponta a ponta era de casa-balão. Muita gente derrubou, mas eu não. É uma moradia sui generis", diz Rocha. Quando criança, Juraci debochava os colegas da escola que moravam na rua. "Não podia imaginar que viria morar aqui. E fiquei muito feliz quando nos mudamos, 30 anos atrás. Foi quando deixamos o aluguel."

O casal fez um "puxadinho" e hoje o iglu integra uma casa maior. Para evitar infiltração, tiveram de usar uma tinta especial que faz a casa ficar prateada. Por dentro, a casa tem paredes abauladas, o que faz com que os moradores tenham alguma dificuldade na disposição de móveis. As paredes que dividem os cômodos são retas, mas não chegam ao teto.

A família de Oswalteia Cavalcante de Freitas, de 67 anos, foi a primeira a mudar para a casa-balão. "Eu tinha 7 anos e estranhei muito morar num lugar com paredes redondas. A casa tinha eco. Quando meu pai morreu, colocamos a casa abaixo e fizemos essa. Não me arrependo", conta. Segundo ela, a situação ficou pior depois de uma explosão no paiol do Exército, em 1958. "O deslocamento de ar fez com que a casa rachasse. Chovia dentro."

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