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Igreja cometeu 'erros enormes' sobre pedofilia, diz cardeal

George Pell reconheceu que em vários casos não se acreditou nas crianças e que padres eram transferidos de uma paróquia a outra

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

29 Fevereiro 2016 | 11h50

Um dia depois de o Oscar de melhor filme ter ido para Spotlight: Segredos Revelados - que retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres -, o cardeal australiano George Pell foi recebido, nesta segunda-feira, 29, em audiência reservada pelo papa Francisco. No domingo, Pell prestou depoimento a uma comissão de investigação da Austrália e admitiu que, em casos de pedofilia, “a Igreja cometeu erros enormes”.

Não foi revelado o conteúdo da conversa entre o sumo pontífice e o cardeal, que é o atual prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano e já foi arcebispo de Melbourne e de Sydney. Quando chegou ao Hotel Quirinale para mais um depoimento via videoconferência, ele afirmou que tinha total apoio do papa Francisco. Em seu depoimento no domingo, realizado via videoconferência de Roma à Comissão Real da Austrália sobre a Resposta Institucional ao Abuso Sexual Infantil, ele afirmou que o padre Gerald Ridsdale, acusado por dezenas de casos, “foi transferido de paróquia em paróquia em vez de ser denunciado à polícia pelos crimes”. Na avaliação do cardeal, a medida teria sido “catastrófica”.

Pell também afirmou que, muitas vezes, faltou acreditar no que diziam as crianças e que a Igreja teria feito “besteiras”. Ele, entretanto, negou que tivesse qualquer conhecimento das práticas de pedofilia de Ridsdale na diocese de Ballarat - ali, eles foram colegas entre 1973 e 1983. Também no depoimento, o cardeal admitiu que havia boatos de que outro sacerdote, John Day, abusava de menores na mesma diocese. A Igreja, segundo Pell, “estava fortemente propensa” a desmentir qualquer acusação. “Não estou aqui para defender o indefensável”, afirmou o cardeal. “A Igreja cometeu erros enormes e causou graves danos em muitos lugares, desiludindo fiéis. Mas está trabalhando para remediar.”

O depoimento de Pell durou quatro horas - ele repetiu diversas que sua “frágil memória” não lhe permitia recordar datas precisas dos fatos. O cardeal, que tem 74 anos, não pôde viajar à Austrália por motivos de saúde. Sobre ele, vale ressaltar, não pesa nenhuma denúncia de que tenha cometido abusos - seu depoimento tem como objetivo determinar as práticas e respostas adotadas pelas instituições católicas australianas diante das denúncias de pedofilia entre os anos 1970 e 1980 no país. Antes, Pell já havia se desculpado duas vezes pelos abusos cometidos por outros sacerdotes católicos. Padre Risdsdale foi condenado pela Justiça australiana por 138 crimes contra 53 menores.

Vencedor da estatueta principal do Oscar no domingo, Spotlight: Segredos Revelados, de Thomas McCarthy, mostra uma investigação jornalística justamente sobre a prática da Igreja de transferir padres suspeitos de pedofilia para outras dioceses, com o intuito de abafar as denúncias.

Os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja vieram à tona em 2002, quando se descobriu que bispos da área da cidade norte-americana de Boston transferiam os estupradores de uma paróquia a outra em vez de expulsá-los. Desde então foram revelados escândalos semelhantes em todo o mundo, e dezenas de milhões de dólares já foram gastos em indenizações.

Segundo dia. Na noite desta segunda horário de Brasília, manhã de terça-feira na Austrália, o purpurado depôs pela segunda vez à comissão de Justiça australiana. Foi duramente questionado sobre como ele poderia não ter sabido que padre Ridsdale estava abusando de crianças, uma vez que eram da mesma diocese. 

Em determinado período, Pell atuou como consultor do bispo de Ballarat, Ronald Mulkearns - e nesta condição, ele tinha reuniões periódicas com a autoridade, chegando a aconselhá-lo sobre a movimentação dos sacerdotes entre as paróquias de sua jurisdição. De acordo com a comissão, em uma reunião de 1982, na qual Pell estava presente, o bispo Mulkearns afirmou ter conhecimento dos abusos de Ridsdale. Foi nesta reunião que ficou decidido que o padre seria transferido, pela sexta vez, de paróquia.

Pell manteve sua versão. Afirmou que apesar do "conhecimento generalizado" do comportamento de Ridsdale, a ele nada foi dito e ele nada sabia. O purpurado enfatizou esse desconhecimento, mesmo confirmando que foram colegas de paróquia e viveram sob o mesmo teto, em Ballarat. "Nunca soube que ele estava abusando de crianças", afirmou Pell. 

Em um dos momentos mais controversos do depoimento, Pell disse à comissão que o comportamento criminoso de Ridsdale era "uma história triste e sobre a qual nunca me interessei muito". 

O cardeal disse que não acredita que pessoas que desconheçam abusos, como é o caso dele, devam ser responsabilizadas por não proteger as crianças, rebatendo assim a afirmação da comissão de que ele estava "se excluindo das responsabilidades". 

Pell também negou aceitar qualquer responsabilidade pelo fato de que Ridsdale foi transferido de uma paróquia para a outra em vez de ser banido da Igreja. Quando foi colocada a situação de que era improvável que ele não soubesse que a razão pela qual o sacerdote estava sendo transferido frequentemente de paróquia eram os abusos sexuais que ele cometia contra crianças, Pell respondeu que a colocação era "completamente non-sense". 

Pell. Cardeal desde 2003 e nomeado prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano - uma espécie de Ministro da Fazenda - em 2014, Pell já foi apontado como um dos principais opositores do papa Francisco, adjetivo que ele nega. Membro do chamado C9, grupo de cardeais consultores que colaboram com o sumo pontífice nas reformas dentro da Vaticano, o australiano foi um dos signatários da carta enviada ao papa dias antes da abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Família, encontro da alta cúpula da Igreja ocorrido em outubro, no Vaticano. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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