EFE/EPA/VINCENZO PINTO
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Igreja destruiu arquivos sobre abusos sexuais, diz cardeal alemão

Declaração foi feita durante cúpula que discute assunto no Vaticano. Protestos pediram medidas efetivas contra os criminosos

Agências internacionais, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 00h55

A Igreja Católica destruiu arquivos sobre autores de abusos sexuais, reconheceu neste sábado, 23, o cardeal alemão Reinhard Marx durante a cúpula do Vaticano sobre a luta contra esses crimes. “Os arquivos que documentaram esses atos terríveis e indicam os nomes dos responsáveis foram destruídos, ou até sequer chegaram a ser produzidos”, declarou o presidente da Conferência Episcopal Alemã.

A denúncia gerou imediata reação de uma das organizações de defesa das vítimas presentes em Roma para a reunião. “Isso é ilegal”, comentou indignado o americano Peter Isely, fundador da End Clergy Abuse (Acabem com o abuso clerical, em tradução livre), enquanto participava de uma marcha neste sábado no coração de Roma para exigir medidas imediatas.

“O abuso sexual de crianças e jovens se deve, em um parte não insignificante, ao abuso de poder da administração”, disse o religioso alemão, em sua fala aos integrantes da cúpula, entre eles 114 presidentes de conferências episcopais de todo o mundo convocados a falar sobre o silêncio e o encobrimento dos abusos.

“No lugar de punir os culpados, as vítimas foram repreendidas e silenciadas”, lamentou Marx. “Os procedimentos e trâmites definidos para esclarecer esses delitos foram deliberadamente ignorados, e até anulados. De fato, os direitos das vítimas foram pisoteados e deixados ao livre arbítrio dos indivídios”, denunciou o cardeal, que pediu maior transparência sobre as decisões da Igreja e exigiu que se divulge o número de casos analisados por tribunais eclesiásticos e detalhes sobre os procedimentos.

A Igreja alemã se desculpou oficialmente em setembro do ano passado depois da publicação da informação que revelou agressões sexuais a 3,6 mil menores, cometidas durante décadas por membros do clero. O mesmo cardeal se desculpou depois da revelação do documento que apontou abusos perpetrados por 1,6 mil religiosos.

A necessidade de transparência para abordar casos de abusos ecoou neste sábado com grande força na cúpula vaticana. Reinhard Marx indicou que “qualquer sustentação baseada no segredo do pontifício seria relevante só se for possível indicar razões convicentes”, mas “tal e como as coisas estão, não há conosco estas razões”.

“É uma era de redes sociais, de onde é possível que todos e cada um estabeleçam contato imediatamente e troque informação por meio do Facebook, Twitter. É necessário redefinir a confidencialidade e o sigilo, e fazer uma distinção com respeito a proteção dos dados”, acrescentou.

Três dias depois do início dos debates, neste sábado se chegou ao momento de perguntar o que deve ocorrer a partir de agora. “Este encontro é uma etapa do caminho, não chegamos ao objetivo. Temos de encontrar um ponto, um caminho para traduzir em decisões concretas”, declarou o religioso alemão.

O arcebispo de Malta e subsecretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Charles J. Scicluna, antecipou que está sendo preparado um Vade Mecum formado de perguntas e respostas para que sirva de ajuda aos bispos na hora de lidar com esses casos. Scicluna explicou os procedimentos canônicos devem ter maior comunicação, pois “as vítimas não cientes dos resultados”.

Mais de cem pessoas, entre ativistas e vítimas de abusos sexuais, se manifestaram neste sábado no centro de Roma para exigir tolerância zero ante os crimes e os responsáveis. Com cartazes de “Justiça civil para todos”, “Muitos religiosos são pedófilos”, os manifestantes se concentraram na Piazza del Popolo, de onde leram vários manifestos.

"Basta de desculpas, basta de perdão. Ressarcimento para as vítimas”, apontava o cartaz principal da concentração. “Tolerância zero significa que não se pode seguir sendo sacerdote”, disse um dos atividades, abusado na juventude.

Uma representante das vítimas chilenas leu em espanhol outro manifesto em que apontava que o “encontro que está ocorrendo no Vaticano é um reconhecimento da tragédia global em matéria de abuso clerical”. Mas acrescentou a decepção das vítimas com o possível resultado da cúpula. Um outro cartaz dizia: “O papa é surdo”.

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