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Igreja deve acolher divorciados ‘caso a caso’, decide Sínodo

Texto final do encontro episcopal sobre a família mantém o matrimônio homossexual como uma impossibilidade cristã

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2015 | 19h58

Atualizada às 20h37

A Igreja Católica deve passar a acolher, “caso a caso”, divorciados que voltarem a se casar. O matrimônio homossexual segue como uma impossibilidade cristã; mas a pessoa homossexual precisa ser aceita com dignidade e respeito. São estes os dois principais pontos do texto final do Sínodo do Bispos sobre a Família, aprovado na tarde deste sábado, 24, na Cidade do Vaticano pela ampla maioria dos padres sinodais.

Tendo a família como tema, o encontro episcopal da Igreja Católica será encerrado neste domingo, 25, depois de três semanas de discussões entre 265 religiosos de todo o mundo. Todos os 94 parágrafos do texto final foram aprovados por pelo menos 177 votos dos religiosos participantes - a votação foi feita trecho a trecho. 

Em discurso proferido aos participantes do Sínodo, papa Francisco afirmou que procurou “abrir os horizontes para superar toda a hermenêutica conspiradora ou perspectiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível”.

“A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão”, disse ainda o papa. “Isto não significa de forma alguma diminuir a importância das fórmulas, das leis e dos mandamentos divinos, mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua Misericórdia.”

Acolhida. “Não foi dada a bênção aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, nem permitida a comunhão aos casados em segunda união. Mas uma série de chamadas de atenção para casos específicos, recomendações para a acolhida e a integração de pessoas em situações que poderiam ser consideradas irregulares implicam num posição de amor e acolhida a todos muito mais forte e precisa”, analisou o biólogo e sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

“Para além das brigas políticas, que representam muito mais posicionamentos da mídia e de grupos radicais dentro da Igreja, o que fica claro é a vitória da posição que Francisco apresenta, não tanto como discurso, mas sim como postura: as normas aparentemente são pouco mudadas, mas existe uma renovação da Igreja a partir do amor e da acolhida.”

Divorciados. Em comunicado à impressa feito três horas antes da divulgação do texto final do Sínodo, o cardeal-arcebispo de Viena d. Christoph Schoenborn já havia antecipado que haveria um a nova posição do Vaticano frente ao caso dos católicos divorciados e em segunda união. “O relatório final não contém um ‘sim’ ou um ‘não’, mas um convite ao discernimento das situações concretas”, afirmou, lembrando que o documento propunha “critérios para o acompanhamento pastoral, não só para a comunhão, mas para todas as questões”. “Neste caso, discernimento significa tentar entender a situação de uma pessoa ou de um casal”, disse o cardeal.

Se até agora um divorciado em segunda união não pode receber a Eucaristia, o texto final dá margem para que o sacramento possa ser concedido a esses católicos, após análise “caso a caso”. “A conversa com o sacerdote, no foro íntimo, contribui para formar um julgamento correto sobre se há obstáculo para a plena participação na vida da Igreja”, atesta o documento sinodal. O uso da expressão “plena participação” indicaria a possibilidade do acesso do divorciado ao sacramento.

“Os divorciados novamente casados, portanto, não só não devem se sentir excomungados, como podem viver e crescer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que os acolhe sempre”, diz o texto. “Para a comunidade cristã, cuidar dessas pessoas não é um enfraquecimento de sua fé e testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio. Mas, sim, é a Igreja manifestando neste tema sua caridade.”

Homossexualidade. Quanto às uniões de pessoas do mesmo sexo, o documento mantém a posição da Igreja, contrária. “Não há fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogia, ainda que remota, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus para o matrimônio e a família”, diz. Entretanto, o Sínodo ressalta que “todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual, devem ser respeitadas em sua dignidade e acolhidas com respeito, tendo cuidado para evitar todo tipo de injusta discriminação”.

“Como cristãos, como lidar com estas situações? Muitos disseram que por razões culturais ou políticas, o tema é delicado demais”, disse o cardeal Schoenborn. “No entanto, deixar este tema fora do documento não quer dizer que na Europa ou na América do Norte não seja um tema de Igreja, mas em nível de universalidade temos que respeitar a diversidade das situações políticas e culturais.”

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