Igreja histórica do centro de São Paulo ameaça ruir

Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência está lacrada há um ano

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Antônio Joaquim Ribeiro, um sujeito baixinho de 60 anos que está sempre impecavelmente vestido, tem uma das tarefas mais ingratas da cidade de São Paulo. Todo dia de manhãzinha, de sapato de bico fino e camisa social por dentro da calça, ele agarra uma lanterna improvisada, uma vassoura, uma caixa de ferramentas e começa a limpar as dependências da Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, conhecida também por Igreja das Chagas, no centro. Seria trivial, não fosse uma tarefa tão difícil quanto lutar contra moinhos de vento. Há um ano lacrada pela Prefeitura, prestes a ruir e com cupins por todos os lados, a Igreja da Ordem Terceira parece só sobreviver graças ao trabalho do incansável Ribeiro, responsável pela manutenção. Se de dia ele varre as laterais do altar ou a nave central da igreja, de noite os mesmos locais já estão forrados por pó de madeira, símbolo mais do que visível da ação dos cupins. E ninguém parece dar valor à sua batalha digna de D. Quixote - sem planos de revitalização, sem parceiros para bancar os R$ 16 milhões da reforma e sem um único projeto em andamento, o zelador da igreja já parece conformado em continuar limpando e consertando até que certo dia aquilo tudo vire escombro."Tá vendo aquela parede lá? Logo, logo ela cai, não vai demorar muito, não. Dá até para ver a inclinação", diz ele, pernambucano de nascimento, que chegou a trabalhar na manutenção das indústrias Matarazzo por nove anos, de 1965 a 1974. "O teto também está acabado, já cedeu no mínimo uns 15 centímetros. Eu continuo trabalhando, né, mas muitas vezes até dá vontade de chorar quando vejo o que está acontecendo com essa igreja tão importante."Conforme mostrou um levantamento inédito feito pelo Estado, 40% dos 1.813 imóveis tombados ou em processo de tombamento de toda a capital estão abandonados, destruídos ou totalmente desconfigurados. Ali no centro paulistano, por exemplo, 429 dos 1.272 imóveis históricos da região fazem parte dessa estatística. E o abandono da Igreja da Ordem Terceira talvez seja o exemplo mais gritante do desleixo com o patrimônio público de São Paulo, justamente por causa da sua beleza e importância para a capital.Projetada pelo Frei Galvão (o primeiro santo brasileiro) e construída em taipa de pilão, com 220 anos de história, seus deslumbrantes altares e estátuas abrigam três fases do estilo barroco: a clássica, a primitiva e a posterior. Lá se encontram os restos mortais do militar Rafael Tobias de Aguiar, que deu nome à Rota, da Polícia Militar, e o coração do sacerdote e político Diogo Antônio Feijó, o Regente Feijó, um dos personagens mais importantes da história da capital. A igreja fica ao lado do que foi o Convento de São Francisco, demolido em 1827 para dar lugar à Faculdade de Direito (na demolição, conta-se, houve espanto com a resistência da taipa, porque as picaretas, ao golpeá-las, provocavam faíscas).Apesar dessa história, a igreja acabou degradada pelo tempo e pela falta de restauro. E tombada pelos três órgãos de patrimônio histórico - nacional, estadual e municipal -, tudo ficou mais complicado e, principalmente, mais caro para reformar. Passeando pelos seus corredores e salões é possível notar que a imponência ainda está lá, com os altares reluzindo com o ouro das talhas, mas a destruição está em todos os cantos. A cada rangido da madeira, dá um medo tremendo de tudo cair. "Ainda bem que eu não tenho pecados e sou magrinho... Se tivesse umas gordurinhas a mais, as escadas daqui já tinham caído todas", brinca o frei Anacleto Luiz Geapski, um dos poucos com coragem de andar pela igreja com Ribeiro. "Temos aqui um lugar belíssimo e importantíssimo para São Paulo, tombado pelo patrimônio municipal, estadual e federal. Mas ninguém parece ligar para o fato de que tudo vai ruir se não houver reformas."

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