Alessandra Tarantino| AP
Alessandra Tarantino| AP

Igreja mantém preferência por enterro e proíbe lançamento de cinzas

Instituição se mostra contra divisão dos restos mortais entre parentes

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2016 | 13h21

CIDADE DO VATICANO - Em documento escrito em agosto e divulgado nesta terça-feira, 25, a Igreja Católica condenou o lançamento de cinzas daqueles que são cremados em terrenos, no ar ou no oceano. A Instrução Ad resurgendum cum Christo a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas da cremação também proíbe guardar cinzas em casa. Ela foi aprovada em março pelo papa Francisco.

A nova instrução, dividida em oito itens e assinada pelo cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação do Vaticano para Doutrina da Fé, atualiza a norma em vigor desde 1963, quando a Igreja passou a aceitar a incineração dos restos mortais. Desde essa época, consta no Código do Direito Canônico a norma: “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã.”

O documento especifica como os restos mortais dos cristãos devem ser mantidos. “Quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, em um lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, em uma igreja ou em um lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica”, indica. 

“Tal preocupação é decorrente da tradição católica de permanecer os restos mortais em algum lugar sagrado onde se pode fazer algum tipo de veneração aos mortos”, contextualiza o padre Valeriano dos Santos Costa, professor de Liturgia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tal determinação, conforme explica o sacerdote, não veio com a autorização da cremação, em 1963, “porque não era uma preocupação naquele tempo”. “Hoje se tornou porque os costumes são muito variados”, diz. 

Por quase dois mil anos, o Vaticano permitia apenas o enterro dos defuntos, uma vez que o método expressava melhor a esperança cristã na ressurreição. Essa norma mudou em 1963, quando a incineração dos corpos passou a ser aceita, contanto que não indicasse a negação da fé pelo renascimento. “A determinação anterior enfatizava que a autorização era dada sobretudo em regiões onde é difícil encontrar espaços adequados para enterrar ou onde o enterro é contrário à cultura local”, afirma Santos Costa. 

Com o passar dos anos, entretanto, a prática foi se tornando mais comum no meio católico. “A aceitação da Igreja à cremação é confirmada até pelo fato de um ritual para o ato ter sido criado”, enfatiza o padre. 

Casa. O documento publicado nesta terça ressalta que “a conservação das cinzas em casa não é consentida”. Abre brecha para que, em casos graves e excepcionais, entretanto, essa prática seja autorizada – sem exemplificar situações. “As cinzas, no entanto, não podem ser divididas entre os vários núcleos familiares e deve ser sempre assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação das mesmas”, frisa o documento. “Exclui-se, ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalheria ou em outros objetos.” 

O cardeal Müller destacou que a Igreja está “diante de um novo desafio para evangelização da morte”. “Espera-se que esta nova instrução possa fazer com que os fiéis cristãos tenham mais consciência de sua dignidade de filhos de Deus”, disse./ COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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