GABRIELA BILO/ ESTADÃO
GABRIELA BILO/ ESTADÃO

Igreja perde 2 mil religiosos todos os anos, diz d. Braz de Aviz

Nomeado prefeito do Vaticano pelo papa Bento XVI, ex-arcebispo de Brasília deu palestra a mil freiras, padres, irmãos e leigos na Catedral de São Paulo, na Sé

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2015 | 08h00

A Igreja Católica perde anualmente cerca de 2 mil religiosos, homens e mulheres, em todos os continentes, sobretudo na Europa, revelou o cardeal brasileiro d. João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, em encontro na tarde desta quarta-feira, 19, com mil freiras, padres, irmãos e leigos, na Catedral de São Paulo, na Praça da Sé, região central de São Paulo. No comando de aproximadamente 1,5 milhão de religiosos, pertencentes a quase 3 mil congregações e comunidades de consagrados, o cardeal faz uma revolução no Vaticano para atrair novas vocações. Ex-arcebispo de Brasília, d. João foi nomeado prefeito por Bento XVI em 2011 e confirmado pelo papa Francisco em 2013.

"A idade média das freiras na Europa é de 85 anos, o que significa que essas idosas vão morrer em breve sem que apareçam outras para ocupar seu lugar", disse d. João ao Estado, antes da palestra na Sé. Novas vocações só têm surgido, em maior proporção, na África e na Ásia, onde o catolicismo tem prosperado. "Vietnã e Coreia do Sul têm, cada um, 10% de católicos em suas populações", informou o cardeal. 

Para o prefeito da congregação romana responsável pelos cristãos de vida consagrada, é urgente recriar ou rever a vida comunitária nos conventos, para restabelecer a convivência em ambiente de compreensão e caridade entre seus membros. "Sei de casos de religiosos que deixaram suas comunidades e querem voltar, mas desistem porque não encontram nelas a vida em família", disse d. João. A revisão inclui a possibilidade de organizar comunidades mistas na vida consagrada.

"No passado, tivemos dificuldades para a convivência, porque se dizia que era preciso ter cuidado, porque a mulher é um perigo, ou cuidado porque o homem é um perigo", observou o cardeal. "Não aconselho muito formar comunidades mistas na mesma casa", disse, depois de ter lembrado que o voto de castidade faz parte da vocação religiosa. D. João revelou que recebeu o pedido de dispensa de uma freira de 80 anos , ex-superiora provincial de sua congregação, que deixou o convento porque, conforme alegou, queria realizar seu ideal de maternidade. Ela saiu e adotou um bebê de três meses. 

Outro problema sério para a vida religiosa é o da autoridade, ligada ao voto de obediência. "Há muitas autoridades (ou superiores de comunidades) que são opressoras", afirmou o cardeal. Ele citou o exemplo de uma superiora-geral que ocupa o cargo há 35 anos e não abre mão dele, com graves consequências para suas subordinadas. "Há casos de superioras que mudam as regras da constituição da congregação para morrerem superioras", lamentou. 

A obediência é necessária, disse d. João aos religiosos e leigos de vida consagrada, mas deve ser exercida entre irmãos. "Superiores que não aceitam conselhos não prestam", advertiu. O bom entendimento, no exercício da autoridade, deve se estender aos mais jovens, aos quais se deve dar responsabilidade e poder. "Que o jovem não tenha medo de ir se aprofundando na vida comunitária, no período de formação." 

D. João de Aviz advertiu também para o perigo do dinheiro, que algumas ordens e congregações religiosas acumulam, apesar de seus membros fazerem voto de pobreza. "As instituições religiosas detêm 52% do patrimônio do Banco do Vaticano (IOR ou Instituto para as Obras de Religião), dinheiro não está faltando", disse. Como exemplo, ele citou, sem revelar o nome, o caso de uma congregação que, embora com voto de pobreza, tem 30 milhões de euros no banco.

O cardeal, que dirige uma das principais congregações da Cúria Romana, foi muito aplaudido pelos religiosos e leigos consagrados, depois de uma hora e meia de palestra. Ex-presidente da seção paulista da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-SP), irmã Ivone Lourdes Fritzen elogiou a franqueza e transparência de d. João na exposição sobre a situação e os desafios dos religiosos no mundo. O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, aplaudiu as palavras do prefeito da Cúria Romana. Em seguida, os dois celebraram missa ao lado de bispos e sacerdotes da arquidiocese e de outras cidades.

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