Igreja quer comemorar 200 anos com acervo restaurado

Basílica de Santa Ifigênia, no centro, depende de empresas interessadas no investimento

José Maria Mayrink, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

A Basílica de Nossa Senhora da Conceição de Santa Ifigênia, a "igreja dos sinos quebrados" - que ganhou esse apelido no século 19, quando o carrilhão do templo anterior, demolido em 1911, vivia enguiçado - está aproveitando a comemoração dos seus 200 anos para restaurar o seu acervo. A paróquia foi criada em 21 de abril de 1809, numa capela que existia desde 1720, embora a primeira missa da Irmandade de Santa Ifigênia e Santo Elesbão, protetores dos escravos, só tenha sido rezada ali em 1795. "São três afrescos do brasileiro Benedito Calixto, três pinturas do francês Henri Bernard, dois púlpitos importados da França, três vitrais confeccionados em Veneza e um órgão de 3.250 tubos fabricado na Alemanha, sem falar na decoração da cúpula da nave central feita pelo pintor italiano Gino Catani e nos para-ventos das portas de entrada que reproduzem os da Sainte-Chapelle, de Paris", descreve o padre Anízio Ferreira dos Santos, há dois anos pároco de Santa Ifigênia. Com exceção dos quatro sinos, de origem não identificada, toda essa riqueza chegou a partir de 1912, durante a construção do templo de estilo neorromânico, uma imitação do gótico, que dominou os altos da margem esquerda do Vale do Anhangabaú antes da urbanização vertical da cidade. Inaugurada em 1922, a Igreja de Santa Ifigênia ainda brilhava de nova quando as tropas federais bombardearam os paulistas entrincheirados entre seus altares, na Revolução de 1924. As marcas das balas estão nas paredes que dão para a Avenida Cásper Líbero, antiga Rua da Conceição. Santa Ifigênia foi a catedral provisória da arquidiocese, de 1930 a 1954, enquanto a Sé era construída.A reforma da igreja que deu nome ao Viaduto Santa Ifigênia, construído na mesma época, e à Rua Santa Ifigênia está dependendo da boa vontade de empresas interessadas em investir na cultura pela Lei Rouanet , um orçamento de R$ 16 milhões. O processo, em fase de aprovação, corre há três anos no Ministério da Cultura. Além da recuperação das peças de arte, os religiosos sacramentinos, responsáveis pela paróquia desde 1938, terão de mexer também na igreja. "As obras incluirão a restauração de altares e a demolição de anexos feitos indevidamente nos anos 1950, quando dois hotéis invadiram o terreno do templo, com a anuência do pároco", informou padre Anízio, apontando as áreas invadidas. Os prédios dos hotéis não serão derrubados, mas a paróquia abrirá mão de instalações de sua propriedade para atender às exigências do Ministério da Cultura. Enquanto a verba não sai, a manutenção da igreja vai contando com a generosidade do povo. Padre Anízio recorre aos paroquianos principalmente para a festa de Santa Ifigênia, comemorada em 22 de setembro, que contará com a presença do cardeal arcebispo d. Odilo Scherer. Será o ponto alto do Jubileu dos 200 Anos."O programa terá um concerto do Coral Santa Marcelina, em 1º de setembro, lavagem da igreja no dia 12, um novenário (celebração com preces à padroeira) a partir do dia 14 e festa de largo (barraquinhas e shows) nos fins de semana", anuncia padre Anízio. É para esses festejos que ele pede a ajuda dos devotos (depósitos no Banco Real, agência 0088, conta corrente 2012825-5). Se dependesse do pároco, os sinos da torre voltariam a repicar nos próximos meses. "Seria voltar à tradição dos séculos passados, quando os sinos anunciavam todos os acontecimentos religiosos, políticos e sociais do centro da cidade", disse. "Os sinos se quebravam de tanto tocar", lembra ele, citando atas da Câmara Municipal, responsável pela manutenção, que reclamava das despesas. O órgão, removido em parte da tribuna do coro para a nave do altar-mor, terá de ser restaurado.A Paróquia de Santa Ifigênia faz um trabalho pastoral voltado para o povo. Além de sem-teto e moradores de rua, a paróquia abre espaço para movimentos de autoajuda. Ao lado da devoção à padroeira, a Igreja de Santa Ifigênia tem a Adoração do Santíssimo Sacramento, exposto diariamente no altar-mor.

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