Igreja veta duas imagens de Nossa Senhora na Mocidade

Todo ano é a mesma história: Igreja Católica e carnavalescos das escolas de samba do Rio divergem por causa de algum santo ou símbolo religioso. Desta vez a Mocidade Independente de Padre Miguel, com o enredo "A Vida que Pedi a Deus", resolveu fazer diferente. Para evitar confronto na hora de botar as alegorias na avenida, convidou representantes da Arquidiocese do Rio para irem ao barracão. O saldo da visita foi a proibição de duas imagens de Nossa Senhora, que deverão ser descaracterizadas caso a agremiação insista em mantê-las no desfile. "Fizemos um acordo verbal e vamos colocar tudo por escrito", disse nesta quinta a coordenadora jurídica da Arquidiocese, Claudine Dutra, enfatizando que pode exigir a desclassificação da escola que insistir em levar para a avenida qualquer carro alegórico, adereço ou destaque que possa ofender os católicos. A eliminação está prevista na lei municipal 3.507, de janeiro de 2003, que pune as escolas que "agredirem com vilipêndio ou escárnio os valores religiosos". "Não visitamos nenhuma outra escola. Mas não ficamos sabendo de nenhum outro caso em que isso seja necessário", disse a advogada. Carnavalesco da Mocidade, Mauro Quintaes já avisou que não quer saber de polêmica. Ele disse que convocou, por vontade própria, a advogada. "Têm muitas escolas que usam como artifício lançar polêmicas pouco antes do carnaval. Claramente, é para ganhar mídia. Mas nós não precisamos disso", explicou. Ele já providenciou um véu para cobrir o rosto da santa, que aparecerá junto com imagens de outras religiões - como o Dalai Lama -, simbolizando o sincretismo existente no Brasil. Agora, a escola espera que Claudine reavalie a utilização da imagem, com o véu. Católico, o carnavalesco costuma entrar em contato com a Mitra antes do carnaval sempre que o enredo faz alusão ao catolicismo. Foi assim em 2004, quando, ainda na Viradouro, ele desenvolveu o enredo sobre o Círio de Nazaré. Mesmo falando de uma festa religiosa, Quintaes, já para evitar problemas, evitou usar imagens de santas. "É melhor prevenir do que remediar." Presidente da Império Serrano, escola que desfila com o enredo "O império do divino", Humberto Carneiro garantiu que não levará nenhuma imagem religiosa para o Sambódromo, apesar das alas de romeiros e da representação de procissões. "Vai ser tudo muito folclórico", disse. Perguntado se considera a determinação da Arquidiocese um ato de censura, afirmou: "Não acho desrespeitoso de maneira nenhuma levar santos para o desfile. Mas também não podemos ir contra a Igreja". Já o carnavalesco Chico Spinoza, da Caprichosos de Pilares, foi enfático: "Voltamos ao tempo da repressão e, pior, com o apoio do próprio governo, já que a lei que permite a desclassificação é municipal. Não sei como a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) permite isso", criticou ele, já detido por causa de uma cruz e de um painel de Nossa Senhora da Boa Esperança, retirados dos desfile da Unidos da Tijuca por determinação da Arquidiocese. Ele ressaltou também que os problemas só ocorrem com a Igreja Católica, embora as escolas mostrem também símbolos de outras religiões.

Agencia Estado,

23 Fevereiro 2006 | 20h43

Mais conteúdo sobre:
carnaval carnaval 2006

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.