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Igualdade e diferença

Homens e mulheres devem sempre ter liberdade para ser o que quiserem

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 03h00

Eu sempre conto a história do rabino que comentou com a mulher sobre um caso curioso que aconselhara. Dois vizinhos estavam disputando uma causa e foram procurá-lo. Ao ouvir o relato do primeiro, compreendeu claramente as explicações. “Você tem razão”, concluiu. 

Mas após dar a palavra ao segundo, também seu ponto de vista fazia todo sentido. “Você tem razão”, disse ao segundo. Ao saber da história, a mulher ficou confusa, argumentando que não era possível concluir que ambos tinham razão se estavam de lados opostos. O rabino pensou um pouco e então respondeu: “Você tem razão”. A vida é muito complicada para a gente acreditar que toda a razão está sempre de um lado ou de outro. 

Examinemos as diferenças de gênero, por exemplo. Por séculos convivemos com a dicotomia entre as coisas de menino e as de menina. Azul e rosa. Profissão de homem ou de mulher. Isso era dado como natural até que alguém começou a perceber que existiam outras forças moldando tal realidade – não era simplesmente algo natural. O jeito que tratamos meninos e meninas desde muito cedo influencia percepções de realidade, crenças e atitudes. 

As diferenças de gênero, segundo essa crescente linha de pensamento, se deveriam aos papéis atribuídos socialmente. E os muitos dados comprovam que têm razão. Mas não nos esqueçamos do rabino confrontado com a complexidade da vida. Talvez outra teoria também tenha razão. 

As diferenças de tratamento entre mulheres e homens poderiam muito bem refletir mais do que forças sociais. É mais do que esperado que, sendo seres biológicos, nós carreguemos influências dessa origem. E de fato as pesquisas também mostram que, quando somos analisados como grupo, existem diferenças entre habilidades de homens e mulheres coerentes com nossa história evolutiva.

A velha história de, em geral, as mulheres serem melhores na comunicação e os homens na orientação espacial. Claro que há variações, mas é uma realidade populacional, e que faz sentido biológico. Ou seja, essa teoria também tem razão. E para alívio de nosso angustiado rabino, estudos recentes mostram que de fato ambas as teorias podem ter razão. 

Um exemplo ficou conhecido como o paradoxo da igualdade de gênero. Estudando resultados no Pisa (exame internacional) de quase meio milhão de estudantes, dois psicólogos notaram que embora as meninas tenham habilidade igual ou maior do que os rapazes em áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, elas optam menos do que eles por tais áreas. O paradoxo é que quanto maior a igualdade de gênero no país, maior essa diferença de opção. 

Talvez nos países desiguais, valorizando coisas de homem, as mulheres busquem tais áreas por serem mais prestigiadas. Quando a sociedade não faz essas distinções de valor, elas se sentem mais livres para escolher o que querem de fato. Tal valorização se reflete também em ganhos financeiros – então nos lugares mais desiguais, em que profissão de homem paga mais do que profissão de mulher, elas têm ainda mais incentivo para escolher a primeira opção.

Outra evidência que corrobora o paradoxo da igualdade de gênero foi uma pesquisa também publicada ano passado investigando as escolhas no que diz respeito a tomada de risco, paciência, reciprocidade e confiança. Acharam diferenças nas opiniões de homens e mulheres, como era esperado – somos diferentes, afinal. Mas essa diferença era maior em países mais ricos. E, como se não bastasse, era maior também em países com maior igualdade entre gêneros. Ou seja, quanto mais tratamos homens e mulheres da mesma forma (e quanto menor a pressão econômica), mais eles pensam e agem de forma distinta. 

Sim, todos têm razão. Existem diferenças inatas e há forças sociais que moldam diferenças. O problema não são as diferenças em si. O problema é fazer delas argumento para impor restrições de direitos com base em gêneros, por um lado, ou negar sua existência para impor uma igualdade artificial, por outro. Homens e mulheres devem ter plena liberdade para ser o que quiserem. Liberdade de ser iguais e de ser diferentes.

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