WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Ilha de Paquetá, no Rio, mistura ansiedade por vacina e medo de carnaval fora de época

Projeto de imunizar 100% dos moradores adultos começa no próximo domingo; folia, chamada pelo prefeito Eduardo Paes de 'evento-teste', está prevista para setembro

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 15h00

RIO - A bucólica Ilha de Paquetá, no nordeste da Baía de Guanabara, vive duas expectativas. A primeira, aprovada quase que sem ressalvas por seus moradores, é a de se tornar a primeira região carioca com 100% de adultos vacinados contra a covid-19. A segunda, vista como temerária por muita gente, é a de voltar a sediar uma festividade de carnaval. A festa ocorrerá provavelmente em setembro, naquilo que o prefeito Eduardo Paes (PSD) vem chamando de "evento-teste".

No próximo domingo, a ilha será palco do projeto PaqueTá Vacinado. A intenção é imunizar todos os adultos com mais de 18 anos como parte de um estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O estudo quer monitorar a eficácia da vacinação em massa já a partir da primeira dose, e como será a resposta imunológica. Estudos de vacinação em massa também foram feitos nas cidades paulistas de Serrana, com a Coronavac, e Botucatu, com a vacina Oxford/AstraZeneca. 

Um dos que serão beneficiados pela campanha é o ecotaxista Vágner Luís, de 37 anos. Há dez anos ele percorre as estreitas ruas de chão batido pilotando sua bicicleta e levando moradores de um lado a outro da ilha. Sua única reclamação é pela demora na iniciativa."Acho que deveria ter rolado há muito tempo. Somos uma ilha com cinco mil habitantes, é fácil de vacinar rápido. Pra mim esse projeto deveria ter acontecido há muito tempo", disse ao Estadão.

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), até o fim de maio 1.853 moradores da ilha já haviam tomado a primeira dose da vacina contra covid-19. O número representa pouco mais da metade dos 3.530 com mais de 18 anos e estão cadastrados na Estratégia de Saúde da Família local. Pelos números da prefeitura, a Ilha de Paquetá tem hoje 4.180 moradores.

 

Na segunda-feira, Paes publicou em seu perfil no Twitter que "se tudo der certo, já temos o nosso primeiro evento teste marcado", citando uma nota do jornal O Globo que informava sobre um "carnaval" em Paquetá. No mesmo dia, pousadas da ilha começaram a receber sondagens de turistas para saber se "já havia a tabela de setembro". Alguns queriam saber inclusive se já estava definida a data do carnaval.

A dona de uma pousada e funcionários de dois hoteis da ilha contaram ao Estadão que nos últimos dias têm recebido telefonemas de interessados em saber o preço de hospedagem para aquele mês. "No dia que saiu a notícia, recebi a ligação de uma mulher perguntando quanto custava a hospedagem para setembro. Achei estranho, porque ainda está longe, mas de cara já desconfiei o motivo da pergunta. Aí perguntei para quais dias e a pessoa respondeu: 'não sei, vocês já sabem quando vai ser o carnaval?'", divertiu-se ela.

Há também quem espera aumentar o faturamento caso a folia de fato ocorra. "Ainda não temos os preços de setembro. O dono vai esperar para ter uma definição, porque se tiver mesmo o carnaval, aí vende pacote pra sexta, sábado e domingo", contou o funcionário de um tradicional hotel da ilha.

Pois é justamente por causa dessa animação que moradores estão com um pé atrás. "Acho temerário. Defendi um pouco a ideia do prefeito, porque acho que não vai ser um carnaval de verdade, vai ser um teste com aqueles que participaram (da campanha de vacinação). Foi o que acreditei, li e entendi. Mas o pessoal não está entendendo assim. Tem gente falando que os blocos de carnaval do Rio estão querendo vir, e isso é uma orla que vem barco de tudo quanto é lugar, sem fiscalização. Vai ser muito ruim pra gente", comentou a aposentada Denise Maia, de 67 anos. "Quando houve a reabertura, aqui ficou lotado, parecia carnaval. Contaminou muito, teve muitos casos aqui em Paquetá, porque o pessoal vem pra cá sem máscara, acha que é tudo oba-oba, não respeitam mesmo."

Também moradora da ilha, Maria Auxiliadora da Silva, de 62 anos, disse que não se importa com o eventual carnaval fora de época. "Se estiver todo mundo vacinado, acho até que é bom", considerou. "Mas tem que prevenir bastante!", alerta. 

"Por ora, só estou informando o valor normal. Acho, de verdade, que não vai ter esse carnaval. Campeão, os casos ainda estão aumentando. Ontem (quarta) morreram mais de duas mil pessoas de covid. Vão querer aglomerar agora?", indignou-se um funcionário de outro hotel.

Procurada, a prefeitura do Rio não deu qualquer detalhes sobre o "evento-teste" de Paes, limitando-se a dizer que as informações "serão divulgadas oportunamente".

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